31 de Julho de 2011 - Domingo XVII do Tempo Comum

Para que sejamos transformados

As horas passaram rapidamente naquele local deserto, onde a multidão foi ao encontro de Jesus, que ali realizou, em favor dos doentes, numerosas curas e milagres. Mas, ao cair da tarde, os discípulos aperceberam-se de que toda aquela gente necessitava de alimento. E é então que Jesus lhes diz, para sua grande surpresa: "«Não precisam de se ir embora. Dai-lhes vós de comer»". Mas como o poderiam fazer, só com cinco pães e dois peixes?

Por eles próprios nada poderiam fazer, a não ser uma coisa: pôr esses escassos alimentos nas mãos de Jesus, como nós próprios fazemos tantas vezes, oferecendo a Deus as nossas horas de trabalho ou as nossas pequenas mortificações.

Jesus aceitou dos seus discípulos os dois pães e os dois peixes, que eram tão pouco, praticamente nada, para aquela multidão. Tomou-os nas suas mãos, "ergueu os olhos ao Céu, e recitou a bênção (no original, simplesmente, "abençoou"). Depois, partiu os pães, deu-os aos discípulos, e os discípulos deram-nos à multidão. Todos comeram e ficaram saciados".


Beato Angélico, A comunhão dos Apóstolos (c. 1450)

Desde sempre, os cristãos viram no milagre da multiplicação dos pães e dos peixes um anúncio da Sagrada Eucaristia. Não é por acaso que o relato do que Jesus fez na Última Ceia, segundo S. Mateus, começa exactamente com as mesmas palavras: "Jesus tomou o pão, recitou a bênção (no original, de novo, simplesmente, "abençoou"; em latim: "benedixit", em grego: "eulogesas"), partiu-o, e deu-o aos seus discípulos dizendo: «Tomai e comei: Isto é o meu Corpo»" (Mateus 26,26). (E o mesmo se lê em Marcos 14, 22)

É interessante que, no relato que S. Lucas faz da Última Ceia, aparece um outro verbo, o verbo agradecer, dar graças: "Tomou o pão, deu graças, (em grego eucharistesas, em latim: gratias egit), partiu-o e deu-lho, dizendo: «Isto é o meu Corpo entregue por vós»". Intencionalmente, S. Lucas privilegia o verbo «agradecer», «dar graças", (que aparece depois, na consagração do vinho), e que se tornou mais característico do Cristianismo. Na verdade, desta forma verbal «agradecer» (em grego: eucharistein) veio a derivar um dos nomes mais expressivos da Divina Liturgia ou Santa Missa: Eucaristia!

O Santo Padre Bento XVI comentou de forma muito bela o uso destes dois verbos nos relatos da Última Ceia, sublinhando que ambos reflectem o clima de intensa oração em que Jesus realizou a consagração do pão e do vinho. Convido-vos a ler e meditar as suas palavras:

"Durante o último banquete, Jesus sobretudo rezou. S. Mateus, S. Marcos e S. Lucas usam duas palavras para descrever a oração de Jesus no momento central da Ceia: eucharistesas e eulogesas - agradecer e abençoar. O movimento ascendente do agradecimento e o movimento descendente da bênção aparecem juntos. As palavras da transubstanciação são uma parte desta oração de Jesus. São palavras de oração".

E Bento XVI fala depois da grande transformação que Jesus operou: "Jesus transforma a sua Paixão em oração, em oferta ao Pai pelos homens. Esta transformação do seu sofrimento em amor possui uma força transformadora dos dons, nos quais agora Jesus Se dá a Si mesmo. Ele no-los dá, para que nós e o mundo sejamos transformados. O objectivo próprio e último da transformação eucarística é a nossa transformação na comunhão com Cristo" (Homilia da Santa Missa da Ceia do Senhor, Basílica de S. João de Latrão, Quinta-feira Santa, 21 de Abril de 2011).

Recuando muitos séculos, gostaria agora de evocar o comentário de um dos pensadores cristãos mais originais de todos os tempos, Orígenes, que nasceu em Alexandria, no Egipto, em 185 e faleceu aos 69 anos, em 253, em Tiro, no Líbano, na sequência dos grandes sofrimentos que suportou na perseguição do imperador romano Décio. Entre as muitas obras que escreveu (e que não estão isentas de alguns pontos discutíveis), destaca-se um precioso tratado em defesa da fé cristã, em resposta às graves acusações dirigidas contra os cristãos por um filósofo pagão chamado Celso. Nesta obra, intitulada Contra Celso, escrita em 246, Orígenes fala assim da Eucaristia:

"Damos graças ao Criador de todas as coisas, e com acções de graças e orações pelos benefícios que recebemos, comemos o Pão que nos é apresentado. Pela oração, este Pão tornou-se num Corpo sagrado, que santifica os que o recebem com boas disposições. (8, 33).

Este "Corpo sagrado" é sem dúvida o Corpo do Senhor. Assim o designa Orígenes numa advertência para que se comungue com grande respeito e cuidado: "Vós que assistis habitualmente aos divinos mistérios, quando recebeis o Corpo do Senhor, com que precaução e reverência o tomais, não aconteça que uma partícula do mesmo caia ao solo e se perca uma parte do tesouro consagrado! Porque vos considerais culpados, e com razão, se uma partícula se perde (ou cai) por negligência vossa" (Homilias sobre o Êxodo, 13,3).

A reverência exterior acompanhou sempre a comunhão sacramental, e é sinal da fé e do amor dos cristãos. A fé e o amor não se vêem, mas «sentem-se», e são forças poderosas, que nos impelem a receber o "Corpo sagrado" com o desejo de sermos transformados por ele, e podermos assim, com Jesus em nós, ajudar a transformar o mundo.

Com a sincera amizade em Cristo
do Prior de Santa Maria de Belém
Cón. José Manuel dos Santos Ferreira

Arquivo