11 de Setembro de 2011 - Domingo XXIV do Tempo Comum

Os caminhos do perdão

Devemos perdoar, ou podemo-nos vingar? A Palavra" de Deus, confirmada definitivamente por Jesus Cristo, tem uma opção muito clara: devemos perdoar, e não nos devemos vingar.

Mas será fácil perdoar? Jesus sabe que perdoar não é fácil, mas é vital para o ser humano. Quando S. Pedro, como se lê no Evangelho de hoje, revelou que já estava a querer seguir por este caminho, Jesus convidou-o a ir muito mais longe. Pedro queria perdoar "«até sete vezes»", e perguntou a Jesus se achava bem. Mas Jesus, que ultrapassa sempre as nossas expectativas, convidou Pedro a não pôr limites nem fronteiras na sua disposição de perdoar, e respondeu-lhe, de forma admirável e surpreendente: " «Não te digo até sete vezes, mas até setenta vezes sete»" (Mateus 18,22).


João Paulo II encontra Ali Agca na prisão (Dezembro de 1983)

No entanto, Jesus deve ter pensado que Pedro poderia sentir-se fraco, incapaz, diante de uma exigência tão vasta de perdão, que abrange a vida inteira. Para perdoar, é preciso uma motivação muito forte. E por isso Jesus contou a seguir a parábola do rei e dos dois servos (Mateus 18, 23-35).

Quando a ouvimos, percebemos muito bem por que se deve perdoar aos outros. A razão é simples, transparente: porque Deus, primeiro, nos perdoa a nós! E o que Deus nos perdoa, não tem comparação com o possamos ter de perdoar aos outros. A diferença entre a dívida ao rei (dez mil talentos) e a dívida de um servo ao outro servo (cem denários) corresponde à que hoje haveria entre três milhões de euros e uns poucos cêntimos! Não há comparação possível.

Há grandes ofensas, que implicam um perdão imenso, como o de João Paulo II em relação ao homem que o tentou matar, mas também há o perdão normal de cada dia: entre esposos, na família, entre pais e filhos, no trabalho, entre amigos, entre colegas, conhecidos ou até desconhecidos... E o perdão será sempre uma libertação das nossas prisões interiores e uma ponte para o futuro.

Às vezes parece muito difícil perdoar, porque a outra pessoa, que nos ofendeu ou prejudicou, ainda não dá sinais de arrependimento. Nesse caso, é necessário manter no coração o desejo de perdoar, pedir ajuda a Deus, e esperar que esse momento chegue.

E a justiça, onde é que fica situada no meio detudo isto? Ajustiça não se opõe ao perdão. Pode-se perdoar, e deve-se perdoar, como ensina Jesus, mas o perdão não implica necessariamente renunciar a pedir justiça, sobretudo quando estão em jogo interesses ou bens de outras pessoas.

E no dia em que passam 10 anos sobre os terríveis atentados de 11 de Setembro de 2001, em Nova Iorque e Washington, que provocaram mais de 2800 mortos, não podemos omitir uma breve reflexão sobre o terrorismo e a forma de o enfrentar.

Desde esse dia, uma sangrenta série de atentados semeou a morte em numerosos pontos do planeta. À longa lista desses atentados seria necessário acrescentar os inúmeros actos terroristas, que, em certos períodos quase diariamente, têm afectado, por um lado a Palestina, e por outro o Paquistão ou o Iraque, cujas vítimas civis já não têm conta.

Sobre o Iraque, não podemos ignorar também este simples facto: antes das duas guerras do Golfo, os cristãos eram mais de dois milhões. Hoje, são estimados em 400 mil, vivendo sob a constante ameaça de toda a espécie de violências e actos terroristas que os têm directamente como alvos. O Iraque é o único país onde ainda se celebra a liturgia em aramaico, a língua de Jesus. Lembremos na nossa oração estas comunidades cristãs, cuja sobrevivência pode estar em risco.

Quanto aos que promovem o terrorismo, qualquer que seja a sua origem ideológica, é possível reconhecer, como escreveu Bento XVI, que "têm em comum um perigoso desprezo pelo homem e pela sua vida e, em última análise, pelo próprio Deus" (Mensagem para o Dia Mundial da Paz de 2006, n. 10). Em particular, "o fundamentalismo fanático desfigura a sua face amorosa e misericordiosa, substituindo-o por ídolos feitos à própria imagem" (ibid.).

Que podemos fazer para vencer o terrorismo? Abstraindo agora das legítimas iniciativas ou medidas de carácter político, estará sempre ao alcance de todos, como escreve Bento XVI, "intensificar, em todas as partes do mundo, o anúncio e o testemunho do «Evangelho da paz»". De resto, "a história demonstrou amplamente - salienta o Papa - que, fazer guerra a Deus para O extirpar do coração dos homens, leva a humanidade, assustada e empobrecida, para decisões que não têm futuro» (ibid., n. 11).

Isto equivale a dizer que é muito importante falar de Deus, para que haja paz, como escreveu também Bento XVI: "o reconhecimento da verdade plena de Deus é condição prévia e indispensável para a consolidação da verdade da paz" (ibid., n. 11).

Hoje, desejaremos certamente fazer nossos todos os pedidos apresentados por Bento XVI, em 24 de Abril de 2008, no «Ground zero», dos quais gostaria agora de destacar em especial os três últimos:

"Deus de paz, trazei a vossa paz ao nosso mundo violento: paz ao coração de todos os homens e mulheres e paz entre as Nações da Terra".

"Deus, Pai de bondade, orientai para o vosso caminho de amor os que têm o coração e a mente consumidos pelo ódio".

"Deus de compreensão, esmagados pela enormidade desta tragédia, procuramos a vossa luz e a vossa orientação, enquanto enfrentamos acontecimentos terríveis como este".

Assim pediu o Papa, no local da grande tragédia que não queremos esquecer. Corroborando a sua oração, peçamos que seja dada a todos, aos políticos e aos cidadãos comuns, a luz e a guia segura que vêm de Deus, e que uns e outros as saibam aceitar com reconhecimento e humildade, para que ao tempo do horror e do temor se siga o tempo da convivência e da paz entre todos os homens e entre todos os povos.

Com a sincera amizade em Cristo
do Prior de Santa Maria de Belém
Cón. José Manuel dos Santos Ferreira

Arquivo