2 de Outubro de 2011 - Domingo XXVII do Tempo Comum

Uma história de amor

No Evangelho, Jesus explica, através de uma parábola, até onde pode ir a rejeição do amor de Deus por parte dos homens. Havia um proprietário que plantou uma vinha, e não se esqueceu de nenhum pormenor. Mas, quando chegou a altura de os seus servos irem pedir aos rendeiros os frutos que tinham o dever de entregar, foram espancados, apedrejados e mortos. Quem poderia imaginar uma reacção destas? Não seria preferível desistir da vinha para não sofrer mais perdas, mais prejuízos tão graves em vidas e bens? Ou então recorrer ao uso da força?

Talvez fosse mais eficaz proceder deste modo, e foi o que pensaram os interlocutores de Jesus, mas o dono da vinha esperava que a maldade dos vinhateiros cedesse diante de um supremo sinal de benevolência para com eles. Decidiu então enviar-lhes "o seu próprio filho, dizendo: «Respeitarão o meu filho» ". Mas ainda foi pior: cegos pela ambição, agarraram no filho, lançaram-no fora da vinha e mataram-no".


Jeronimo Nadal (Ed.), A parábola dos agricultores infiéis (1593) (porm.)

E alguém poderia dizer: mas que grande imprudência! Quem é que sujeita um filho a uma situação tão perigosa, com o risco mais que certo de perder a vida?

Nenhum pai o faria, julgo eu, mas Deus sim. Deus enviou-nos o seu Filho, Jesus Cristo, para nos mostrar a sua benevolência, o seu amor, a sua infinita misericórdia. E o que aconteceu ao filho do senhor da vinha, aconteceu, literalmente, a Jesus Cristo, Filho de Deus, que foi morto foras das portas da cidade (Hebreus 13, 12), por aqueles a quem tinha vindo revelar o amor do Pai.

E como termina esta história de amor rejeitado? Não é difícil imaginar. Os que rejeitaram todos os esforços de aproximação por parte de Deus, não ficarão afastados d'Ele para sempre? Os que rejeitaram o seu amor não serão também eles rejeitados? É normal que seja assim, a não ser que se arrependam, e adiram ao amor que antes desprezaram.

Mas, ao mesmo tempo, outros foram convidados. A vinha foi arrendada a outros vinhateiros. Hoje, o Povo eleito somos nós, que constituímos a Igreja de Cristo. Que graça enorme, mas também que grande responsabilidade! Como correspondemos ao amor do senhor da vinha? Que frutos damos? Como influenciamos o ambiente da sociedade em que vivemos? Procuramos que a fé modele a cultura e se torne cultura? Fazemos o ambiente, ou cedemos ao ambiente? Em que medida difundimos, como dizia S. Paulo, tudo o que é verdadeiro, nobre,justo e puro?

Mas há ainda mais um pormenor desta parábola a que seria bom dar atenção. No Evangelho, Jesus diz-nos que o proprietário da vinha, depois de a arrendar aos vinhateiros, "partiu para longe". Será que foi isto que Deus fez? Deus afastou-Se de nós, deixou-nos entregues à nossa sorte?

Não, como observa S. Jerónimo, não existe nenhum local onde Deus possa estar ausente ou longe de nós. No entanto, Deus procede como este proprietário, parecendo que se afasta da vinha para dar aos vinhateiros a possibilidade de trabalharem de um modo responsável e com toda a liberdade.

Deus é assim: confia-nos uma tarefa, dá-nos todos os meios, todas as graças de que necessitamos, mas deixa-nos liberdade para cumprir essa tarefa, para realizar essa missão. Deus criou-nos livres, e deixa-nos viver e trabalhar com plena liberdade. Mas a liberdade é uma oportunidade para um amor maior e para um compromisso total. Só pessoas livres podem amar, só homens e mulheres livres, inteligentes, responsáveis, se podem comprometer.

Queremos comprometer-nos livremente com o Amor que nos foi revelado em Jesus. Filho de Deus. E pedimos, "com orações, súplicas e acções de graças", como diz S. Paulo, que a nossa vida não seja estéril, mas fecunda, e dê muitos frutos, que em cada dia queremos colocar nas mãos de Jesus, para glória do Pai e em louvor do seu infinito amor e da sua benevolência pelos homens.

Com a sincera amizade em Cristo
do Prior de Santa Maria de Belém
Cón. José Manuel dos Santos Ferreira

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