30 de Outubro de 2011 - Domingo XXXI do Tempo Comum

Um sinal claro

Na 1ª leitura, o profeta Malaquias repreendia severamente os sacerdotes da Antiga Aliança, porque não ajudavam os seus irmãos a cumprir bem a lei de Deus. E Jesus, no Evangelho, censurava os que naquele tempo tinham a missão de ensinar, os escribas e os fariseus, porque a sua vida não era coerente com aquilo que ensinavam.

Mas a 2ª leitura mostrava-nos o exemplo de S. Paulo, que não se poupou a sacrifícios, para anunciar Jesus. Ele próprio dizia aos cristãos de Tessalónica: "Bem vos lembrais, irmãos, dos nossos trabalhos e canseiras. Foi a trabalhar noite e dia, para não sermos pesados a nenhum de vós, que vos pregámos o Evangelho de Deus".

Por sua vez, no Evangelho, Jesus diz-nos, referindo-Se a Si próprio: "«Um só é o vosso Mestre»". Com isto Jesus não exclui que possa haver neste mundo muitos educadores, professores ou mestres, com quem aprendemos coisas muito belas e importantes.


Profeta Malaquias (ícone oriental)

Mas há uma diferença em relação a Jesus: por melhores professores que sejam, serão sempre mestres com letra pequena. Só Jesus é o Mestre com letra grande. Só Ele nos traz a Palavra definitiva, só Ele nos traz a verdade que dá sentido à vida e nos salva. É Jesus que nos revela a verdade que precisamos de conhecer sobre Deus e sobre nós mesmos, e nos ensina a viver. Com Ele queremos aprender a viver, a pensar e a ser felizes.

Mais adiante, Jesus pede-nos ainda que sejamos servos: "«Aquele que for o maior entre vós, será o vosso servo»". Uma das formas de serviço que podemos prestar a muitas pessoas, actualmente, é ajudar a pensar. Aqui está uma forma de caridade muito actual: ajudar a pensar, ajudar a ir além dos sentimentos, das emoções, que por vezes podem ser completamente irracionais!

O que domina hoje em muitos ambientes é o "sentir-se bem". Mas isso pode ser muito perigoso. Se um grupo de miúdos se sente bem a bater num outro, indefeso, só porque tem orelhas grandes, como podemos convencê-los a não o fazer? Batendo-lhes? Castigando-os? Isolando-os?

Como ajudar a evitar os erros morais graves que muitas vezes se cometem, as escolhas erradas que tantas vezes tornam a vida infeliz?

Por que é que as escolas se mostram hoje tão mal sucedidas na formação moral ou ética de grande parte dos seus alunos? Sobre isso gostaria de reflectir numa outra altura, talvezjá no próximo domingo, porque se trata uma questão crucial para a nossa sociedade.

Para já, e pensando em termos mais globais, queria transmitir-vos a convicção de que é possível mostrar, na prática, que a vida baseada nas virtudes é muito mais bem-sucedida do que a vida sem critérios éticos ou morais.

Acredito que muitas pessoas poderão descobrir que assim é, olhando para a vida dos próprios cristãos, que estudam nas mesmas escolas, trabalham nos mesmos escritórios ou nas mesmas empresas, fazem desporto nos mesmos estádios ou nos mesmos ginásios. A vida dos cristãos deve ser o primeiro anúncio de uma vida inteligente e feliz. A alegria em vez do pessimismo, a esperança em vez do cepticismo, a serenidade em vez do nervosismo, a disponibilidade em vez do egoísmo, a compreensão pelas dificuldades e até pelos defeitos dos outros em vez da crítica constante, a sobriedade em vez do excesso, a castidade em vez da impureza, a fidelidade em vez da inconstância, a laboriosidade em vez do desleixo, e tantas outras virtudes humanas e cristãs podem ser um primeiro sinal que levará muitos a uma vida digna e ao encontro com Deus.

A seguir, e para além do exemplo de vida, temos que ser capazes de falar, de dialogar com todos, ajudando­os a esclarecer as suas dúvidas e a encontrar resposta para as suas perguntas.

Mas depois, será preciso levar essas pessoas que ainda estão à procura, a falar com um sacerdote. Os sacerdotes são necessários para ouvir, para aconselhar, para esclarecer, e sobretudo para absolver e perdoar, na Confissão, em nome de Jesus. Se não se dão esses passos, a busca de muitas pessoas nunca chega a amadurecer. Tudo fica numa vaga curiosidade. Não há conversões.

Numa outra passagem do seu livro, o profeta Malaquias anuncia a futura vinda do Messias, dizendo: "Para vós que temeis o meu nome, nascerá o sol de justiça, trazendo nos seus raios a salvação" (3, 20). A oração dos cristãos é tradicionalmente voltada a oriente para acolher o Sol que nasce, Cristo que vem ao mundo, e depois O reflectirmos.

Na Missa de hoje, peçamos por todos os fiéis cristãos, para que dêem um testemunho de vida coerente, que possa atrair muitas outras pessoas. Que o modo como vivem ou actuam, no trabalho, junto dos seus amigos ou na família, seja um sinal claro que mostra onde está Deus. onde está Jesus, na Igreja, e ajude muitas outras pessoas a caminhar para Ele, na luz da fé.

Peçamos ainda que todos os sacerdotes sejam coerentes com o dom e a missão que receberam. Que vivam com alegria e humildade a sua entrega ao serviço de Jesus Cristo e de todas as pessoas, e trabalhem intensamente, como S. Paulo, para que chegue a todos "o Evangelho de Deus".

Com a sincera amizade em Cristo
do Prior de Santa Maria de Belém
Cón. José Manuel dos Santos Ferreira

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