6 de Novembro de 2011 - Domingo XXXI do Tempo Comum

No meio da noite

Na parábola que ouvimos hoje no Evangelho, Jesus fala-nos de uma festa de casamento em que dez jovens, que ainda não tinham dado o seu coração a ninguém, amigas da noiva ou jovem esposa, esperavam a chegada do noivo, para o acompanhar até à sala do banquete, onde a noiva já se encontrava, e assim poderem começar a festa. Todas deveriam sentir uma grande alegria pela alegria dos noivos, que iam dar um ao outro a sua vida para sempre.

O problema é que poderiam ter de esperar muito tempo até o noivo chegar, e entretanto poderia cair a noite e precisavam de ter azeite para acender as suas lâmpadas e não ficar às escuras.

Deste grupo de dez virgens, porém, cinco eram "insensatas", e cinco eram "prudentes". E "as insensatas, ao tomarem as suas lâmpadas, não levaram azeite consigo, enquanto as prudentes, com as lâmpadas, levaram azeite nas almotolias". E este facto fez toda a diferença, na hora decisiva da chegada do Esposo...


William Blake, A parábola das virgens prudentes e das virgens néscias (1822)

Podemos interpretar este azeite como um símbolo da fé e do amor que Jesus espera que todos tenhamos no nosso coração.

De acordo com este simbolismo, as «virgens insensatas» representam os cristãos que deixaram apagar a chama do seu amor a Jesus, com o passar do tempo. Deixam de rezar, já não se confessam, deixam de vir à Missa, e perdem a alegria que um dia já tiveram. Hoje, pedimos a Deus, por intercessão da Virgem Santa Maria, que isso nunca nos aconteça! Que nunca arrefeça em nós a caridade (cf. Mateus 24,12); que nunca abandonemos o "primeiro amor", como diz o Apocalipse (2,4).

Pelo contrário, as «virgens prudentes» simbolizam os cristãos que têm a sabedoria de que falava a 1ª leitura, e alimentam as suas lâmpadas com o azeite da oração e das boas obras: a sua chama nunca se apaga, por mais dificuldades que apareçam, por mais tempo que passe. E, quando chega o Esposo, entram com Ele para "«o banquete nupcial»", onde viverão uma felicidade e uma alegria que não terá fim.

O Evangelho não nos diz que devemos estar passivamente à espera de Jesus, sem fazer nada. Podemos ter uma vida intensa, cada um segundo as suas circunstâncias, mas temos que estar sempre prontos, sempre preparados, vivendo na graça de Deus, para podermos receber Jesus, que vem silenciosamente, em cada instante, e virá um dia, definitivamente, na hora da nossa morte, para nos levar para junto de Si.

Um antigo texto litúrgico bizantino contém esta exortação:

     «Eis que o esposo vem no meio da noite.
     Feliz o servo que ele encontrar vigilante.
     Aquele, porém, que encontrar imprevidente,
     será considerado indigno de acompanhá-lo.
     Acautela-te, pois, ó minha alma.
     a fim de que não sejas entregue à morte
     e fiques fora das portas do Reino.
     Mas, desperta, clamando: "Santo, Santo, Santo sois Vós. ó Senhor!
     Pela intercessão da Mãe de Deus, tende piedade de nós!»

Aceitemos o dom da santidade de Deus, o seu chamamento a sermos santos! Ao longo deste mês de Novembro, não esqueçamos também os defuntos, tendo em conta que poderão ainda estar a ser purificados, antes de terem acesso ao Banquete celeste.

A Igreja ensina-nos que a alma que parte deste mundo sem a suficiente reparação ou com pecados veniais e faltas de amor a Deus, deverá purificar-se no Purgatório, pois no Céu não pode entrar nada contaminado (cf. Apocalipse 21, 27). No Purgatório, as almas satisfazem pelas suas culpas e manchas, mas nós podemos ajudá-Ias a purificar-se e a preparar-se para entrar no Céu.

No Purgatório certamente haverá dor, porque a purificação custa, é como um fogo intenso que queima interiormente, mas também há a alegria imensa de que o caminho para Céu é absolutamente seguro, e já nada o poderá fazer perder.

No «mês das almas» não deixaremos de rezar por todos aqueles que mais amámos neste mundo, e também por tantos outros defuntos que ninguém recorda, para os confiarmos ao abraço da divina Misericórdia. Em sua ajuda, podemos oferecer a Santa Missa, ou pedir que o sacerdote a ofereça especialmente: nada mais valioso pode ser oferecido a Deus neste mundo! Podemos também oferecer pelas almas do Purgatório a Comunhão, o Terço, as doenças, as dores, as contrariedades de cada dia, além do trabalho ou do estudo, e ainda as indulgências, plenárias ou parciais, que possamos obter.

Em razão da caridade sobrenatural que nos une aos defuntos, confiamos todos os que já partiram deste mundo ao abraço da divina Misericórdia. E pedimos que a esperança da vida eterna nos ajude a ser muito fiéis a Jesus na luta e no amor de cada dia, para que um dia, na sua glória, o Esposo divino nos receba na sala do banquete, na perfeita felicidade do Céu.

Com a sincera amizade em Cristo
do Prior de Santa Maria de Belém
Cón. José Manuel dos Santos Ferreira

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