13 de Novembro de 2011 - Domingo XXXII do Tempo Comum

Como a vinda de um Amigo

No Evangelho de hoje, Jesus diz-nos que todos recebemos de Deus muitas capacidades, muitos dons. Aparece um homem que recebeu cinco talentos, um que recebeu três, e um que recebeu um só talento, mas, no caso deste, não pensemos que era pouco: um talento equivalia a cerca de 40 kg de prata. Pelas tabelas daquele tempo, equivalia ao ordenado de 6.000 dias de um trabalhador do campo!

À luz do Evangelho, pedimos a Deus que nos ajude a pôr a render os talentos que recebemos.


Rembrandt, A parábola dos talentos (1652) (Museu do Louvre)

Um dos modos de o fazer, no caso das pessoas que têm uma determinada profissão ou ofício, é sendo bons profissionais, competentes, dedicados, qualquer que seja o seu trabalho ou a sua missão, como aquela mulher activa e inteligente de que fala a 1ª leitura. E, no caso dos que ainda são estudantes, sendo bons alunos, aproveitando bem as aulas, fazendo bem os trabalhos de casa, vencendo a preguiça, o desleixo, a indiferença, o não querer saber.

Se não pusermos a render os dons que recebemos, somos como aquele homem que escondeu o seu talento na terra. Que pena, que ingratidão! O seu senhor, quando lhe pediu contas, ficou justamente indignado, e ele perdeu tudo o quetinha.

Vejam a ilustração da parábola dos talentos que hoje publicamos, de uma gravura do séc. XVIII: dois servos apresentam os seus talentos, enquanto o outro está a escavar na terra para desenterrar o que recebeu... Mas os outros dois receberam uma recompensa muito maior do que esperavam. O senhor disse a cada um: "«Muito bem, servo bom e fiel. Porque foste fiel em coisas pequenas, confiar-te-ei as grandes»" .

«'Fiel'», além de significar digno de confiança, significa crente, o que tem fé, aquele que acredita e confia em Deus. A quem confia em Deus, e corresponde com generosidade ao que Deus lhe pede, Deus dá-lhe muito mais: «'Vem tomar parte na alegria do teu senhor'». Não se trata de novas riquezas, de outros bens materiais, mas sim de um bem muito maior. É a alegria do Reino de Deus, do banquete celeste. Se formos fiéis, Deus dá-nos a sua alegria no Céu, e desdejá a grande alegria de O conhecermos e amarmos na terra.

Com esta parábola, Jesus ensina-nos que a vida é preciosa, e que temos de a aplicar o melhor possível. Há pessoas que estragam a vida, pelos erros que cometem, ou pelos vícios em que caem. E outras ficam muito abaixo das suas capacidades. Por isso, é importante, na altura própria, estudar, formar-se bem, para depois ser competente, e realizar um trabalho eficaz. Mas, ainda mais importante do que saber muitas coisas, é aprender a ser, aprender a pensar, aprender a escolher e a decidir segundo a verdade, aprender a amar.

Actualmente, as escolas quase que só se limitam a transmitir conhecimentos ou técnicas. Mas alguém tem de ser capaz de ensinar a distinguir o bem do mal, o que se deve fazer e o que se deve evitar, e ainda ensinar a ser honesto, a ser uma pessoa de bem, a ser solidário, a respeitar os outros, a ajudar a fazer um mundo onde seja bom viver.

E também faz muita falta ajudar cada jovem, rapaz ou rapariga, a descobrir a beleza e a responsabilidade do amor humano, que conduz ao matrimónio e à vida de família.

Também nos seus horizontes deveria poder estar a possibilidade de servir os outros, como voluntário, durante algum tempo, ou até para o resto da vida. E no espírito de todos deveria ser possível aceitar como uma hipótese normal que Deus possa chamar alguns para uma vida de entrega ao seu serviço. Nada mais natural que Deus chame um filho seu para O servir como sacerdote, ou uma filha sua para O servir como religiosa ou como missionária, e ainda outros a servi-Lo no meio do mundo, numa dedicação total.

Deus concedeu-nos muitos dons, para que possamos realizar a vida, no tempo que nos for dado viver. Este tempo é sempre breve, e um dia terá fim, tal como o próprio tempo do mundo, que terminará, quando chegar, como ensina S. Paulo, "o dia do Senhor".

Este dia será inesperado, não será possível a ninguém prevê-lo com simples cálculos humanos. Mas também a hora do fim da vida de cada um de nós, o momento da nossa partida desta vida, a hora da passagem definitiva, não são nem podem ser programados por nós.

Quem viver sem conversão, sem correspondência aos dons de Deus e sem arrependimento, corre o risco de ser encontrado totalmente fechado em si, e ser afastado para sempre da vida feliz em Deus, mergulhando, como diz o Evangelho, "nas trevas exteriores".

Mas se já hoje, como diz S. Paulo, não andarmos "nas trevas", porque "não somos da noite nem das trevas", se permanecermos "vigilantes e sóbrios", a vinda do Senhor não nos surpreenderá como se fosse um assaltante de estrada ou um ladrão nocturno, mas será para nós como a vinda de um Amigo, nunca esquecido, longamente desejado e ansiosamente esperado, que encherá a nossa alma da alegria sem fim e do amor transbordante que sempre desejámos poder viver em Deus.

Com a sincera amizade em Cristo
do Prior de Santa Maria de Belém
Cón. José Manuel dos Santos Ferreira

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