20 de Novembro de 2011 - Domingo XXXIV do Tempo Comum
Nosso Senhor Jesus Cristo, Rei do Universo

Virá na sua glória

Poucos dias depois de ter dito as palavras que hoje ouvimos no Evangelho, Jesus foi preso, julgado e condenado. Ficou de pé, enquanto os príncipes dos sacerdotes e os anciãos do povo o questionavam com arrogância (Mateus 26, 57­68). Antes de O levarem a Pilatos, ataram-Lhe as mãos com uma corda (Mateus 27, 2), e foi assim que foi interrogado pelo governador romano, que permanecia sentado no tribunal (Mateus 27,19).


Ravena, Basílica de Santo Apolinário Novo. Cristo divide as ovelhas dos cabritos (inícios do séc. VI)

Mas um dia tudo será muito diferente. No Evangelho de hoje, o próprio Jesus anuncia que um dia virá "na sua glória com todos os seus Anjos", e "sentar-se-á no seu trono glorioso". Aquele que um dia foi réu, e suportou a mais injusta condenação que alguma vez foi proferida, será o Juiz santo e justo de toda a humanidade.

A nossa vida ganha densidade, torna-se ainda mais preciosa à luz desta avaliação de todos os nossos actos, que terá lugar diante do Filho do Homem, que é Jesus Cristo, gloriosamente ressuscitado e elevado à direita do Pai. Nesses momentos, "os segredos dos corações serão revelados, bem como o procedimento de cada um em relação a Deuse ao próximo" (Compêndio do Catecismo da Igreja Católica, n.135). Não haverá mais segredos, nem opiniões injustas, nem juízos falsos. Tudo será avaliado na sua verdade, em função do amor, que é o próprio Deus.

Já na hora da nossa morte, há um "julgamento de retribuição imediata, que cada um (...) recebe de Deus na sua alma imortal, em relação à sua fé e às suas obras" (ibid., n. 208). Mas então, no Juízo final, os homens estarão reunidos todos juntos diante de Jesus Cristo, e todos escutarão uma "sentença de vida bem­aventurada ou de condenação eterna" (ibid., n. 214), segundo o modo como tiverem vivido e as obras que tiverem praticado.

É tão fácil os homens criarem uma ilusâo de impunidade! Às vezes, faz-se o mal, e não acontece nada... Nem todos os crimes são castigados pela justiça humana, alguns prescrevem, como prescrevem as próprias penas, e por isso há inúmeros crimes que não são punidos, erros que não são corrigidos, injustiças que não são reparadas, ofensas pessoais ou sociais que nunca deram lugar ao arrependimento e ao perdão.

Mas não será sempre assim. No termo da vida, tudo se tornará manifesto, antes de mais aos nossos próprios olhos, e esse discernimento definitivo será patente aos olhos de todos diante do Filho do Homem, no final dos tempos, no fim da história, quando o imenso caudal de vidas humanas desaguar no coração de Deus com imensa alegria, ou dele, infelizmente, for definitivamente excluído e afastado.

Esta visão do Juízo divino, admiravelmente representada na arte por tantos artistas, dá à nossa vida mais sentido de responsabilidade. Não nos paralisa, não nos angustia, mas dá-nos urgência, para aproveitarmos o tempo, para aproveitarmos a vida, que é a única que temos neste mundo, para darmos a Deus, com esta mesma vida, toda a honra e glória.

O intróito da Missa de hoje convidou-nos a cantar, com palavras do Apocalipse: "O Cordeiro que foi imolado, é digno de receber, o poder e a riqueza, a sabedoria, a honra a glória e o louvor". Sim, a Jesus Cristo seja dada toda a glória, pela sua Encarnação e pelo seu santo Nascimento, pela sua Morte na Cruz e pela sua Ressurreição e Ascensão ao Céu!

Jesus Cristo, o Filho do Homem que virá um dia na sua glória para julgar toda a história humana, é também para nós o Bom Pastor, que vem em busca das suas ovelhas, como anuncia o profeta Ezequiel, na 1ª leitura.

Neste Domingo de Cristo Rei, renovamos o propósito de O seguirmos docilmente, pelos caminhos novos que abre diante de nós.

Este seguimento também implica a luta conta os inimigos da nossa salvação: formas erradas de pensar, más companhias, mensagens publicitárias que veiculam estilos de vida contrários à fé, maus desejos, instintos não dominados, emoções que se opõem à razão, e a luta contra o próprio espírito do mal, a que chamamos diabo ou satanás, que procura abalar a nossa fé e a nossa confiança em Deus, "insinuando à nossa mente pensamentos maus, negativos, mesquinhos, enganando-nos e seduzindo-nos" .

No dia de Cristo Rei, renovamos o propósito de lutar e o nosso desejo de que seja Jesus a reinar nos nossos pensamentos, sentimentos, afectos, emoções e acções, em toda a nossa vida.

Renovamos também o propósito de não descurar o apostolado que fazemos como cristãos, em especial o apostolado de amizade, na vida corrente, para que a realeza de Cristo se estenda ao mundo inteiro e a todos os corações humanos. Reconhecendo como esta vida é preciosa, porque em si mesmo é muito bela e porque nela se joga a vida eterna, pedimos hoje um olhar atento e um coração sensível para dar a todos Jesus e servir Jesus em todos, para que em todos Ele reine, e um dia possa receber a todos na glória do seu Reino.

Com a sincera amizade em Cristo
do Prior de Santa Maria de Belém
Cón. José Manuel dos Santos Ferreira

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