27 de Novembro de 2011 - Domingo I do Advento

O tempo de Deus

Uma vez mais chegou o Advento, e com ele começa um novo Ano Litúrgico!

Os tempos da fé e da Liturgia são diferentes dos tempos da sociedade humana, que inicia um novo ano num dia convencional, que é, desde há muitos séculos, o dia 1 de Janeiro, e nota-se bem que esse tempo passa depressa, porque estamos, uma vez mais, quase no fim do ano...

O tempo dos relógios é como a areia da praia, que nos foge por entre os dedos... Mas não há só o relógio dos homens, há também o relógio de Deus. E seria bom que todos nós - que não podemos abandonar o relógio dos homens, deixássemos pelo menos que a nossa vida fosse um pouco mais regulada pelo relógio de Deus.


Introito Ad Te levavi, Graduel de Bellelay (séc. XII)

Se a vida for só medida pelo tempo dos homens, o tempo estará sempre a fugir de nós, nunca o agarraremos. Mas se a nossa vida for medida pelo tempo de Deus, teremos todo o tempo do mundo...

O Advento ajuda-nos a acertar a vida pelo tempo de Deus, pelo «relógio» de Deus. O Evangelho de hoje faz­nos pensar na segunda vinda de Jesus Cristo, que não sabemos quando será, só Deus o sabe, mas que devemos esperar e desejar, com um coração vigilante. "Vigiai, portanto, visto que não sabeis quando virá o dono da casa: se à tarde, se à meia-noite, se ao cantar do galo, se de manhãzinha; não se dê o caso que, vindo inesperadamente, vos encontre a dormir. O que vos digo a vós, digo-o a todos: Vigiai!» ".

Ao mesmo tempo que afinamos a nossa expectativa para a última vinda de Jesus Cristo, também somos convidados a preparar-nos para reviver a sua primeira vinda a este mundo, no próximo Natal.

Estes são os dois grandes Adventos da Historia: a primeira vinda de Jesus, no Natal, e a sua última vinda, no fim do mundo.

Entretanto, há uma vinda intermédia, que é quase sempre invisível e imperceptível, mas está sempre a acontecer. Jesus vem nas graças actuais que nos dá. Vem, quando o sacerdote consagra o pão e o vinho: "Hoc est enim corpus meum... Isto é o meu Corpo. Hic est enim cálix sanguinis mei... Este é o cálice do meu Sangue". Vem na Sagrada Comunhão, e vem também na pessoa dos necessitados.

Mas para que venha até nós e O possamos receber, é preciso preparar os caminhos da sua vinda. Ao longo do Advento, a Igreja irá dizer-nos muitas vezes, com palavras de Isaías e de João Baptista: "Preparai os caminhos do Senhor...".

A sua vinda é, portanto, uma vinda anunciada, mas muitas vezes é inesperada, e é uma vinda sempre nova. O Intróito (ou cântico de entrada) da Missa de hoje, na versão original, (tanto na Forma Ordinária como na Extraordinária), convida-nos a cantar, com palavras de um salmo: "Para Vós, Senhor, elevo a minha alma. Meu Deus, em Vós confio", "Ad Te leva vi animam meam; Deus meus, in Te confido..."(Salmo 24,1-3)

Ad Te levavi... Assim começa o 1º Domingo do Advento: com este convite a elevarmos as nossas almas para Deus, esperando algo de grande e libertador que vai acontecer, que em parte já conhecemos, e em grande parte ainda ignoramos. Mas será que o esperamos? Será que o queremos mesmo recebere acolher?

E é então que, conscientes da nossa debilidade, somos convidados a fazer a Deus este pedido, na Oração Colecta da Missa: "Despertai, Senhor, nos vossos fiéis a vontade firme de se prepararem, pela prática das boas obras, para ir ao encontro de Cristo, de modo que, chamados um dia à sua direita, mereçam alcançar o reino dos Céus".

Esta oração faz-nos pensar em vários textos do capítulo 25 de S. Mateus, em especial no Evangelho do passado domingo: "Tive fome e destes-me de comer..."; e também na parábola das dez virgens, que, no meio da noite, ouviram dizer: «Aí vem o Esposo, ide ao seu encontro»; mas só cinco tinham as lâmpadas acesas, e por isso só elas puderam entrar na sala do banquete.

Advento é tempo para acender de novo as nossas lâmpadas, pela Confissão, ou para reforçar a sua chama, para receber Jesus no Natal.

Advento é tempo para fortalecer a vontade. Basta de vontades moles e preguiçosas! Por isso pedimos a Deus que nos desperte, e em particular que desperte em nós essa vontade de ir ao encontro de Jesus, ou de O receber, quando Ele vier ao nosso encontro.

É essa, finalmente, a acentuação da antífona da comunhão, tal como se lê no Missal: "O Senhor nos dará todos os bens (à letra: O Senhor nos dará a sua benignidade), e a nossa terra produzirá o seu fruto".

Que fruto é este? Este precioso fruto é aquele que tantas vezes é referido na Ave-Maria: "Bendito o fruto do vosso ventre, Jesus".

E este bendito fruto do ventre de Maria que Deus de novo nos dará no Natal: o seu próprio Filho, feito homem. Jesus Cristo.

O mundo precisa de Jesus, senão sufoca no seu tempo fechado.

Que haja em nós este ardente desejo de O receber, por intercessão de Maria, para que se possam abrir de novo janelas de esperança e possam viver-se de novo, com verdade, tempos de alegria.

Com a sincera amizade em Cristo
do Prior de Santa Maria de Belém
Cón. José Manuel dos Santos Ferreira

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