4 de Dezembro de 2011 - Domingo II do Advento

Jesus vem salvar-nos

A primeira mensagem deste 2º Domingo do Advento é feita em termos calorosos pelo cântico de entrada proposto no Missal Romano: «Povo de Sião: eis o Senhor que vem salvar os homens. O Senhor fará ouvir a Sua voz majestosa na alegria dos vossos corações» (cf. Isaías 30, 19. 30).

É uma alegre notícia, que a todos emociona: "Eis o Senhor que vem salvar os homens". Ao escutá-la, sentimos uma emoção semelhante à que terão sentido aqueles pescadores náufragos, depois de andarem quase três dias à deriva numa simples balsa, ao verem aproximar-se o helicóptero da Força Aérea que os salvou da morte que já todos veriam muito perto.

Jesus vem salvar-nos do pecado e da morte eterna. E desce até nós, até onde estivermos, até mesmo à beira do abismo, se for preciso, e oferece­nos a vida, que por nós nunca conseguiríamos alcançar sozinhos.


Jerôme Nadal, João Baptista é rodeado pelas multidões (1593)

No texto de Isaías, esta mensagem é dirigida ao "Povo de Sião", isto é, aos habitantes de Jerusalém. Originalmente, Sião era um monte da antiga cidade de Jerusalém, onde habitava um outro povo, os jebuseus, que se julgavam inexpugnáveis, mas que o Rei David venceu, dando a Sião o nome de "cidade de David" (2 Samuel 5,6-7). Em seguida, David "construiu uma grande muralha ao seu redor" (2 Samuel 5,9), para se defender em segurança. Ali, no cume do monte, David ergueu depois um altar (2 Samue/24, 18 ss), e mais tarde Salomão, seu filho, ali mandou construir o Templo de Jerusalém (1 Reis 6).

Sião, portanto, é sinónimo de cidadela, cidade amuralhada, e Jerusalém significa, segundo S. Jerónimo, "visão de paz" (Comentário a Isaías 1,1). Hoje, Sião e Jerusalém simbolizam para nós a Igreja, onde encontramos segurança e paz.

Devemos agradecer a Deus ter encontrado esta cidade protegida, que é a Igreja, embora ao mesmo tempo ameaçada e muitas vezes atacada por inimigos poderosos. Na Igreja, mesmo quando nos sentimos fracos, sentimos o apoio dos outros que rezam por nós e connosco. Nada seria pior do que estarmos sozinhos nas tempestades da vida, nada pior do que um náufrago desgarrado dos companheiros ou um caminhante isolado na selva, ou perdido sozinho no deserto.

Também João Baptista, que tinha vivido muito tempo isolado no deserto, foi inspirado a dada altura a fazer ouvir a sua voz, e reuniu à sua volta uma espécie de esboço da Igreja, uma vez que "acorria a ele toda a gente da região da Judeia e todos os habitantes de Jerusalém, e eram baptizados por ele no rio Jordão, confessando os seus pecados".

Toda esta gente, porém, continuaria dispersa depois desse breve momento de convergência e purificação espiritual, porque lhe faltava ainda o Pastor definitivo. Mas esse Pastor havia de chegar um dia, como sugere o mesmo cântico de entrada proposto no Missal Romano, ao escolher, depois da antífona que citei há pouco, este versículo de um salmo: "Pastor de Israel, escutai, (à letra: "estai atento"), Vós que conduzis José como um rebanho..." (Salmo 79 [80], 2).

O Pastor da humanidade está atento, escuta-nos, e vem à nossa procura, e por isso já não andamos à deriva, como acontece muitas vezes com os que se perdem numa floresta e acabam por andar aos círculos, sem saber como sair.

Assim aconteceu, como se conta no famoso poema A Divina Comédia, com o próprio Dante, que, sem saber ao certo como, talvez por estar sonolento. se perdeu numa selva sombria. Aqui a selva é uma representação simbólica da perdição no pecado, "onde a confusão é tão grande que a alma não é capaz de reencontrar o caminho certo". E uma vez perdido na selva escura, como poderá um homem escapar? Não vamos agora reconstituir o caminho de Dante, que é um caminho longo e doloroso, e por fim luminoso, mas voltar simplesmente ao Evangelho de hoje e ao apelo de João Baptista, que actualiza o que já tinha dito Isaías: "Uma voz clama no deserto: «Preparai o caminho do Senhor, endireitai as suas veredas»" (40, 3).

Jesus vem salvar-nos, mas não nos salva agarrando-nos à força como fazem (necessariamente) os que resgatam os náufragos.

Vem, mas pelo caminho que nós próprios tivermos preparado para O deixar chegar e entrar nos nossos corações.

«Senhor meu Jesus Cristo, Deus e homem verdadeiro, Criador e Redentor meu: por serdes Vós quem sois, sumamente bom e digno de ser amado sobre todas as coisas, e porque Vos amo e estimo, pesa-me, Senhor, de todo o meu coração, de Vos Ter ofendido; pesa-me também de ter perdido o céu e merecido o inferno; e proponho firmemente, ajudado com o auxflio de Vossa divina graça, emendar-me e nunca mais Vos tornar a ofender Espero alcançar o perdão de minhas culpas pela Vossa infinita misericórdia. Ámen»

Assim nos preparamos para a confissão contrita das nossas faltas e para receber o abraço forte do Senhor, que nos levanta do abismo e nos eleva para Junto de Si.

Com a sincera amizade em Cristo
do Prior de Santa Maria de Belém
Cón. José Manuel dos Santos Ferreira

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