11 de Dezembro de 2011 - Domingo III do Advento

Para dar testemunho da luz

Neste 3º Domingo do Advento, chega aos nossos ouvidos a voz de João Baptista. Um dia, alguns homens enviados de Jerusalém perguntaram-lhe: "«Quem és tu?»" Esses homens estavam admirados por ver tanta gente acorrer ao seu baptismo, e suspeitavam que ele pudesse ser o Messias. Mas João respondeu com toda a verdade: "«Eu não sou o Messias»".Eles insistiram: "«Quem és tu?»" E João, finalmente, respondeu: "«Eu sou a voz do que clama no deserto: Endireitai o caminho do Senhor»"

João sabia que era apenas uma voz que ressoava no deserto. Mas era uma voz forte que abanava as consciências. Era uma voz necessária para tirar muitos homens da indiferença, para os fazer mudar de vida. A sua intenção era preparar os corações para acolher a Palavra que já estava no meio dos homens, o próprio Verbo de Deus, a Palavra do Pai, Jesus Cristo, Filho de Deus feito homem.

Embora todos o procurem, João não quer que se fixem nele. Sabe que o que faz é importante, mas o seu único desejo era "que todos acreditassem por meio dele". Ele não era a luz, mas tinha vindo "para dar testemunho da luz", como diz o Evangelho. Não estava fechado em si, não era a meta, mas apontava o caminho que estava para além dele, e dizia: "«No meio de vós está Alguém que não conheceis, Aquele que vem depois de mim, a quem eu não sou digno de desatar a correia das sandálias»".

João não é o fim, é apenas um meio, um instrumento: o fim é Jesus, a luz é Jesus, o Salvador é Jesus. É a Ele que é preciso acolher, é Ele que é preciso escutar, são os seus caminhos que é preciso preparar.


EYCK, Jan van, S. João Baptista (1425-29) (porm.)

Mas a tendência actual é esconder Jesus, se não mesmo eliminar Jesus, e dar às crianças e até mesmo aos adultos somente o Pai Natal. O Pai Natal é uma figura simpática e já faz parte do folclore. Mas chega o momento em que tem que se dizer: 'Obrigado, mas agora vamos receber Jesus, que nos traz outros presentes, e queremos estar com Ele sossegados, e além disso precisamos muito dos presentes que nos traz...'

E quais são esses presentes que Jesus nos traz? São esses dons preciosos de que nos fala a 1ª leitura, do livro de Isaías: a libertação dos nossos pecados, a redenção das nossas escravidões, a graça, o perdão e a misericórdia de Deus. Quem nos traz estes dons é Jesus Cristo, que um dia, na sinagoga de Nazaré, afirmou que era em Si mesmo que se cumpria esta admirável profecia (Lucas 4, 21).

Como João Baptista, temos que ser capazes, com simplicidade, de "dar testemunho da luz". Ser testemunhas é também ajudar a ir mais longe. Muitas vezes, no modo como se celebra o Natal, corre-se o risco de ficar a meio, e não chegar ao fim, não chegar à meta. As prendas, as festas, os almoços ou os jantares de Natal são são apenas um meio, não são o fim. O fim é Jesus, acolhido com amor e adorado no seu santo Nascimento. As músicas e as tradições de Natal conservam o seu encanto, mas também são apenas um meio, entre muitos outros, de exprimir uma alegria muito profunda, a alegria de reconhecer Deus connosco, Deus no meio de nós, Deus que se entrega por nós, e que Se torna definitivamente presente na humanidade frágil do Menino de Belém.

Temos que ser como João Baptista, e não parar a meio, e muito menos em nós mesmos, mas passar para além de nós, das nossas coisas, do nosso pequeno mundo, até nos ajoelharmos humildemente diante de Jesus, diante do seu presépio, diante da Cruz, diante da Hóstia santa, onde Se oferece por nós.

Quando o fizermos, experimentaremos a verdadeira alegria e a paz que vêm de Deus. Este 3° Domingo do Advento é chamado Domingo Gaudete, que significa: "Alegrai-vos". Na verdade, o intróito ou cântico de entrada deste domingo é retirado da Carta de S. Paulo aos Filipenses (4, 4-6), cujo texto começa assim: "Alegra i-vos sempre no Senhor. Novamente vos digo: alegrai-vos".

Estas palavras, mais do que uma exortação, são uma saudação. S. Paulo usa exactamente o mesmo verbo com que o Arcanjo Gabriel saudou Maria: "Chaire, kecharitoméne, Alegra-te, ó cheia de graça" (Lucas 1, 28). S. Paulo, falando no plural, diz: "Chaírete", desejando aos cristãos graça, amor e alegria no Senhor. E depois acrescenta: "Seja de todos conhecida a vossa bondade. O Senhor está próximo. Não vos inquieteis com coisa alguma; mas, em todas as circunstâncias, apresentai os vossos pedidos diante de Deus".

Vemos assim que a alegria está relacionada com a oração. Que não falte a oração nestes dias de Advento, para pedir para louvar, para agradecer. Que não falte também o sinal do perdão, recebido na Confissão, com humildade e gratidão. E então saberemos reconhecer Aquele que muitas vezes não conhecemos, porque nos alheamos ou nos fechamos, mas que está sempre connosco, e tão intensamente que Se fez um de nós, e quis ficar para sempre no meio de nós.

Com a sincera amizade em Cristo
do Prior de Santa Maria de Belém
Cón. José Manuel dos Santos Ferreira

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