25 de Dezembro de 2011 - Domingo IV do Advento

Vendo a Deus com os nossos olhos

Quando chega o Natal, é preciso saber parar: para ver, para saborear. para contemplar. Não é fácil, porque são dias muito cheios e talvez até um pouco cansativos. Mas o que temos para ver, vale a pena ser visto.

É o que nos diz o Prefácio da Missa, um texto com mais de mil anos, que diz assim:

Senhor, Pai santo, Deus eterno e omnipotente, é verdadeiramente nosso dever, é nossa salvaçao dar-Vos graças. sempre e em toda a parte. por Cristo nosso Senhor.

Pelo mistério do Verbo encarnado, nova luz da vossa glória brilhou sobre nós, para que vendo a Deus com os nossos olhos, aprendamos a amar as coisas invisíveis. Por isso, com os Anjos e os Santos do Céu, proclamamos na terra a Vossa glória, cantando numa só voz: Sanctus, Sanctus, Sanctus...»


Friedrich Zoller, Gradual do Mosteiro de Neustift, Inicial iluminada do Intróito «Puer natus est nobis» (1442)

O que temos para ver afinal é o próprio Deus: "vendo a Deus com os nossos olhos..." Mas, podemos mesmo ver a Deus "com os nossos olhos"? Sim, porque Deus invisível tornou-Se visível na humanidade do seu Filho.

Este Filho é o Verbo do Pai, isto é. a sua Palavra intimamente concebida e intimamente proferida. Enquanto Palavra, sendo dita, poderia apenas ser ouvida. E. de facto, foi pelo seu Verbo que "muitas vezes e de muitos modos falou Deus antigamente aos nossos pais, pelos Profetas", como diz a Epístola aos Hebreus.

Mas esta Palavra pôde um dia também ser vista, pôde ser tocada, porque "o Verbo fez-Se carne, e habitou entre nós". O Verbo de Deus uniu-Se pessoalmente à natureza humana, e tornou-Se verdadeiro homem. Fê-lo exclusivamente por amor, sabendo bem ao que vinha, a que se sujeitava. Que espantosa condescendência !

O Verbo do Pai, feito homem, sujeitou-Se à máxima humilhação e por fim à própria morte, para que nós, ouvindo-O, vendo-O, seguindo-O, tocando-o, comendo-O, assimilando-O, "aprendamos a amar as coisas invisíveis".

As coisas visíveis são muito importantes, mas as invisíveis são definitivas: Deus, a alma, o Céu. Só cuida bem das coisas visíveis - a terra, o mundo, a economia, a política. ajustiça. a vida da sociedade, a vida de famnia. a vida corrente - quem for capaz e amar as coisas invisíveis. Os que só conhecem as coisas visíveis são um desastre a tratar delas.

E nós, cristãos, infelizmente, também somos muito menos eficazes do que devíamos ser, porque somos pouco contemplativos. Vemos pouco. Ou quase só olhamos, damos uma vista de olhos, mas não vemos. Por isso, no Natal é preciso ver, e não só olhar. Ver por dentro, ver na luz da fé, ver na luz de Deus.

O melhor sítio para ver "com os nossos olhos" é a própria Missa. Aqui. primeiro. ouvimos o Verbo. Dantes, até se dizia «ouvir Missa», e em certo sentido não está mal. porque O Verbo ouve-se.

Ouve-se nas leituras, ouve-se nos cânticos, ouve-se nas orações, ouve--se no silêncio. Não se trata de entender tudo, mas de O deixar falar em nós, na mensagem dos textos sagrados, na beleza dos cânticos e da música sacra, na densidade dos silêncios ou na profundidade das orações da liturgia proferidas pelo sacerdote.

E depois, vemos o Verbo: não já na humanidade encantadora do Menino, que contemplamos e adoramos no Natal, mas na aparência totalmente despojada, mas fascinantemente bela, na sua radical simplicidade, da Hóstia consagrada, que nos é oferecida em alimento.

(Mas é preciso estar preparado para O receber. Quem não se tiver purrticado pela Confissão, é melhor só comungar espiritualmente, preparando-se quanto antes para o fazer também no sacramento).

Finalmente, depois de O ouvirmos e vermos, vemo-nos a nós mesmos vemos a vida, como ela é, e como deve ser. E então entendemos! É preciso contemplar para compreender, é preciso ver para depois agir.

Neste Natal, aceitemos a graça de ver o Verbo escondido e revelado no Menino, para depois o vermos na cruz e na sua grória. "Puer natus est nobis, et filius datus est nobis, Nasceu-nos um menino e foi-nos dado um Filho", cantámos no Intróito da Missa.

Se soubermos reconhecer no Menino o Verbo divino, o Filho eterno do Pai, saberemos olhar para nós mesmos e para os outros, e surpreendermo-nos descobrindo o que realmente somos: filhos de Deus! Porque é esta graça que o Verbo feito homem oferece em cada tempo àqueles que O quiserem ver com olhar puro e O acolherem na fé e com amor.

Com a sincera amizade em Cristo
do Prior de Santa Maria de Belém
Cón. José Manuel dos Santos Ferreira

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