1 de Janeiro de 2012 - Oitava do Natal do Senhor
Santa Maria, Mãe de Deus

Oh admirável permuta!

"A nossa vida passa em sete dias", volvidos os quais, vem o dia oitavo da eternidade, escreve Santo António num sermão para o dia de hoje.

Na Liturgia católica, as grandes festas têm uma oitava, em que a celebração se prolonga, como se fosse um dia único, e no oitavo dia culmina essa celebração. Foi esta dinâmica que deu origem à festa de hoje: o Natal foi há oito dias, e hoje, no oitavo dia, viemos de novo festejar o Santo Nascimento de Jesus!

Mas o Evangelho reconduz-nos à própria hora em que Jesus nasceu, àquela noite luminosa e suave em que os pastores, que repousavam perto dos rebanhos, foram avisados pelos anjos do sublime acontecimento. Então "dirigiram-se apressadamente para Belém e encontraram Maria, José e o Menino deitado na manjedoura", começando eles próprios "a contar o que lhes tinham anunciado sobre aquele Menino. E todos os que ouviam admiravam-se do que os pastores diziam".


Albrecht DÜRER, A adoração dos pastores (gravura) (1504-1505)

Como estamos no primeiro dia do Ano Civil, é oportuno fazer hoje bons propósitos, um dos quais poderá ser este: procurar realizar à nossa volta a mesma transmissão do mistério de Jesus que fizeram os anjos junto dos pastores. Poderemos encontrar pessoas espiritualmente adormecidas e outras simplesmente desconhecedoras, que nada sabem, que nunca ouviram falar, mas que podem ser despertas, podem ser informadas e podem ficar sensibilizadas, podem ficar maravilhadas "sobre aquele Menino", que é o Filho de Deus que Se fez verdadeiro homem para nos salvar da morte e da escravidão do pecado.

Em anos de crise económica, só se ouve falar de problemas e dificuldades, e seria lamentável que os cristãos só falassem de problemas e dificuldades! Para além do natural optimismo humano, que é preciso cultivar apesar de tudo, é preciso falar mais de Deus, com naturalidade, e transmitir, a quem o quiser receber, um melhor e mais próximo conhecimento de Jesus, da sua vida e da sua doutrina.

Quando acontece um verdadeiro encontro com Jesus Cristo, a vida ganha um novo entusiasmo e uma nova alegria, e adquire-se uma nova capacidade de enfrentar as dificuldades e os sofrimentos da vida. As nuvens escuras e as sombras que tantas vezes envolvem a vida humana, são dissipadas pela luz de Cristo, a começar por aquela luz que irradia do presépio de Belém e do Menino, deitado na manjedoura. Se esta luz suave e amável se extinguisse, ficaríamos mergulhados numa grande escuridão e numa invencível tristeza!

Se deixasse de haver Natal - mesmo sendo certo que só uma parte da humanidade é que o celebra ­haveria um grande eclipse espiritual, e dificilmente o sol que ilumina as mentes e aquece os corações dos seres humanos voltaria a brilhar em toda a Terra.

Por isso, partilhamos plenamente da alegria dos pastores de Belém, e voltamos ao presépio, para adorar o Menino. Na «forma extraordinária» do Rito Romano, o intróito da Missa de hoje canta de novo: "Puer natus est nobís, et fílius datus est nobís", "Nasceu-nos um menino e foi-nos dado um Filho", ao passo que na «forma ordinária» se canta uma antífona mariana, de um poeta do séc. V, chamado Sedúlio, que começa por estas palavras latinas: "Salve sancta Parens...", "Salve, Mãe Santa, Mãe que destes à luz o Rei que governa o Céu e a Terra por todos os séculos dos séculos". Desde muito cedo se celebrou em Roma, neste dia, uma Missa em honra da Mãe de Deus, a quem a Igreja quer manifestar toda a sua gratidão. (Em relação a este título, é óbvio que Maria é "Mãe de Deus", não, evidentemente, quanto à divindade, mas quanto à humanidade que o Filho de Deus uniu a Si em unidade de pessoa).

Nesta veneração de Santa Maria, Mãe de Deus, são particularmente belas as antífonas de Vésperas, entra as quais as três seguintes que são comuns ao «Breviário Romano» e à «Liturgia das Horas»:

A primeira é uma exclamação de assombro: "Oh admirável permuta! O Criador do género humano, tomando corpo e alma, dignou-Se nascer duma Virgem; e, feito homem sem progenitor humano, tornou-nos participantes da sua divindade'"

A segunda é dirigida ao próprio Jesus: "Quando nascestes misteriosamente da Virgem, então se cumpriram as Escrituras: Descestes como a chuva sobre a relva, para salvar a humanidade. Nós Vos louvamos, Senhor nosso Deus".

A terceira dirige-se à Virgem Maria, aludindo à sarça ardente que Moisés viu no monte Horeb (Êxodo 3, 2-4): "Na sarça que Moisés via arder sem se queimar, reconhecemos o sinal da vossa admirável virgindade. Rogai por nós, Santa Mãe de Deus".

Muitos outros pontos poderíamos salientar na festa de hoje, mas saliento apenas o que está contido nesta expressão: "Oh admirável permuta!", tão cara aos Padres da Igreja, e que, aplicada à Encarnação, significa essencialmente o seguinte, como explica um teólogo contemporâneo: "O Filho de Deus quis nascer da Virgem Maria, para assumir a nossa humanidade e nos comunicar em troca a Sua divindade. Tomou a nossa fraqueza, para nos dar a Sua força. Partilha a nossa temporalidade para fazer aceder à Sua eternidade. A pessoa divina encarnada tornou-se a célula regeneradora e cabeça da humanidade" (R. Laurentin).

Nesta Oitava do Natal pedimos, por intercessão da Santa Mãe de Deus, que saibamos aproveitar bem essa "admirável permuta" que aconteceu quando o Filho de Deus Se fez homem. Já que nos oferece a sua vida divina, entreguemos-lhe com alegria, a nossa vida toda, as nossas alegrias e tristezas, os nossos trabalhos de cada dia, e sobretudo, agora que um Novo Ano começa, a nossa luta decidida para nunca nos separarmos do seu amor e podermos assim viver com Jesus, uma vida nova.

Com sinceros votos de Feliz Ano Novo!
do Prior de Santa Maria de Belém
Cón. José Manuel dos Santos Ferreira

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