8 de Janeiro de 2012 - Epifania do Senhor

Pesquisadores da verdade

O Evangelista S. Mateus diz­nos que um dia, talvez alguns meses depois do seu nascimento - talvez no mês de Março seguinte ­apareceram para visitar Jesus "uns Magos, vindos do Oriente".

Bento XVI, que tem dedicado várias homilias à figura dos Magos que procuraram Jesus recém-nascido, disse uma vez que os Magos "eram sábios, que perscrutavam os astros e conheciam a história dos povos. Eram homens de ciência num sentido amplo, que observavam o cosmos considerando-o quase como um grande livro cheio de sinais e de mensagens divinas para o homem. Por conseguinte, o seu saber, longe de ser considerado auto-suficiente, era aberto a ulteriores revelações e apelos divinos".

Por serem verdadeiros sábios, sublinha Bento XVI, "estão abertos ao mistério que se manifesta de modo surpreendente", e por isso perguntam: "«Onde está o Rei dos Judeus, que acaba de nascer?» " (Mateus 2, 1-2). "A estrela e as Sagradas Escrituras foram as duas luzes que guiaram o caminho dos Magos, os quais são para nós modelos dos autênticos pesquisadores da verdade".


Jerome Nadal, A adoração dos Magos, «Evangelicae Historiae Imagines» (1593)

Mais tarde, por influência do Salmo 71 (72), que hoje se canta depois da 1ª leitura, os Magos foram considerados reis. Julga-se que seriam três, em razão dos três dons que oferecem ao Menino (embora haja outras tradições cristãs elevam o seu número para sete e até para doze).

De onde vieram os Magos? S. Mateus diz: "do Oriente", ou seja, talvez da Pérsia, da Síria oriental ou até da Arábia, que fica mais próxima. A favor da origem persa pesa o facto de que, na Basílica da Natividade, em Belém, no séc. IV, os três magos foram representados no mosaico da fachada com vestes persas. E foi isso que salvou a Basílica da destruição, quando, em 614, as hordas do rei persa Cosroes II invadiram a Palestina, destruindo todos os monumentos que lhes fizessem lembrar os romanos, incluindo as igrejas que a piedade cristã tinha edificado em memória do Salvador, excepto uma: a própria Basílica da Natividade. Já preparavam o fogo para a incendiar, quando pararam atónitos, com o olhar fixo nos mosaicos do templo, onde viam a representação de uns personagens vestidos com indumentária persa, no momento em que prestavam homenagem a Jesus nos braços de Sua Mãe.

Desde muito cedo, os cristãos gostaram de os olhar como representantes do mundo dos outros povos, que vinha ao encontro de Cristo, em toda a sua diversidade racial e cultural. Assim se realiza o desejo profético do livro de Isaías, que o Salmo responsorial também reflecte: «Virão adorar-Vos, Senhor, todos os povos da terra». E o autor da Epístola aos Efésios escreverá um dia com grande convicção e serenidade: "Os gentios recebem a mesma herança que os judeus, pertencem ao mesmo corpo e participam da mesma promessa, em Cristo Jesus, por meio do Evangelho" (Efésios 3,6).

Na sua busca incansável, guiados por uma estrela, e seguindo as orientações que lhes deram na corte de Herodes, os Magos dirigiram-se a Belém. Uma vez em Belém, entraram na casa, e viram o Menino, com Maria, sua Mãe... Foi um momento de grande emoção, no meio de um grande silêncio... Vinham à procura de um Rei, e encontraram um Menino pobre, sem nenhum sinal de riqueza ou de poder. Ficaram desiludidos?

Pelo contrário, segundo o Evangelho, ficaram felizes, sentiram-se realizados! Logo que viram o Menino, "prostrando-se diante d'Ele, adoraram-No, Depois, abrindo os seus tesouros, ofereceram-Lhe presentes: ouro, incenso e mirra", Este género de dons, sobretudo os dois últimos, levaria a favorecer a sua origem na zona do reino de Petra, (na actual Jordânia), que era o centro de um grande empório de essências aromáticas (como sugere o estudioso italiano Pe. Nicola Bux).

Seja como for, mais tarde, viu-se nos dons dos Magos um belo simbolismo: o ouro tornou-se símbolo da realeza de Cristo, o incenso, da sua divindade, e a mirra, (que é uma espécie de resina ou goma resinosa), dos seus sofrimentos redentores.

O Papa S. Gregório Magno, no séc. VI, desenvolve um simbolismo diferente, comentando que, com estes três presentes, aprendemos a oferecer ao Rei recém-nascido, em primeiro lugar, o ouro que simboliza a sabedoria, quando resplandecemos na sua presença com a luz da sabedoria espiritual. Por sua vez, o incenso exprime a oferta de nós mesmos, quando, pela intensidade da nossa oração, a nossa vida exala esse perfume que é agradável a Deus. E a mirra simboliza a sobriedade, a temperança e a pureza de vida, que oferecemos a Deus, quando procuramos viver o domínio de nós mesmos, no corpo e no espírito, ao serviço do seu projecto de amor.

S. Mateus deve querer também ensinar-nos que os Magos são um modelo para os cristãos, como adoradores de Cristo ao lado de Maria, que é venerada e amada como a Santa Mãe de Deus.

E que a sua sabedoria espiritual, que os levou a reconhecer no Menino pobre de Belém o Rei que procuravam, nos leve também a reconhecer Jesus na humildade das espécies eucarísticas, no Pão e no Cálice da Eucaristia, e a adorá-Lo com toda a intensidade da nossa fé e do nosso amor.

Santa Epifania! Com a amizade em Cristo do
Prior de Santa Maria de Belém
Cón. José Manuel dos Santos Ferreira

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