29 de Janeiro de 2012 - Domingo IV do Tempo Comum

O Sacramento da Caridade

Iniciamos hoje, no espaço da homilia da Missa, a leitura da Exortação Apostólica Sacramentum Caritatis, O Sacramento da Caridade, que o Santo Padre Bento XVI dirigiu a toda a Igreja em 22 de Fevereiro - festa da Cátedra de São Pedro ­ de 2007, há, portanto, quase cinco anos. É um documento de grande riqueza, que quase ninguém terá lido. Por isso, é preciso lê-lo e meditá-lo!


Giotto, O Lava-pés (1304-1306)

Mas a ocasião próxima desta leitura será para nós a preparação doAno da Fé. O Santo Padre Bento XVI proclamou recentemente (a 11 de Outubro de 2011) um Ano da Fé, com início no próximo dia 11 de Outubro ­cinquentenário da abertura do Concílio Vaticano II e 20 anos depois da publicação do Catecismo da Igreja Católica - e fim na Solenidade de Nosso Senhor Jesus Cristo Rei do Universo (24 de Novembro de 2013). Trata-se de um "convite para uma autêntica e renovada conversão ao Senhor, único Salvador do mundo' (Carta apostólica sob a forma de motu próprio Porta Fidei, A Porta da Fé, n. 6), com um acento muito forte na catequese e na nova evangelização.

Mais recentemente, no dia 6 de Janeiro, Solenidade da Epifania, a Congregação para a Doutrina da Fé publicou uma "Nota com indicações pastorais para o Ano da Fé".

Dentro das propostas que faz no âmbito das paróquias, comunidades, associações e movimentos, e depois de convidar todos os fiéis a "ler e meditar atentamente a Carta apostólica Porta fidei do Santo Padre Bento XVI" (IV, 1), este documento refere que "o Ano da Fé «será também uma ocasião propícia para intensificar a celebração da fé na liturgia, particularmente na Eucaristia» (Carta ap. Porta fidei, n. 9). Na Eucaristia, mistério da fé e fonte da nova evangelização, a fé da Igreja é proclamada, celebrada e fortalecida. Todos os fiéis são convidados a participar dela conscientemente, activamente e frutuosamente, a fim de serem testemunhas autênticas do Senhor" (IV, 2).

Para este fim, pensei que nada seria melhor que ler os preciosos ensinamentos de Bento XVI na Exortação Apostólica Sacramentum Caritatis, (pelo menos os principais), o que faremos, numa primeira fase, nestes 4 domingos, a partir de hoje, até ao início da Quaresma, que este ano acontece precisamente em 22 de Fevereiro, quarta-feira de cinzas.

Na Introdução, o Santo Padre convida-nos a reviver o assombro dos discípulos quando Jesus instituiu a Eucaristia, na Última Ceia:

"1. Sacramento da Caridade, (1) a santíssima Eucaristia é a doação que Jesus Cristo faz de Si mesmo, revelando-nos o amor infinito de Deus por cada homem. Neste sacramento admirável, manifesta-se o amor "maior»: o amor que leva a «dar a vida pelos amigos» (João 15, 13). De facto, Jesus "amou-os até ao fim» (João 13, 1). Com estas palavras, o evangelista introduz o gesto de infinita humildade que Ele realizou: na vigília da sua morte por nós na cruz, põs uma toalha à cintura e lavou os pés aos seus discípulos. Do mesmo modo, no sacramento eucarístico, Jesus continua a amar-nos «até ao fim», até ao dom do seu Corpo e do seu Sangue. Que enlevo se deve ter apoderado do coração dos discípulos à vista dos gestos e palavras do Senhor durante aquela Ceia! Que admiração deve suscitar, também no nosso coração, o mistério eucarístico!

O alimento da verdade

2. No sacramento do altar, o Senhor vem ao encontro do homem, criado à imagem e semelhança de Deus (Génesis 1, 27), fazendo­Se seu companheiro de viagem. Com efeito, neste sacramento, Jesus torna-Se alimento para o homem, faminto de verdade e de liberdade. Uma vez que só a verdade nos pode tornar verdadeiramente livres (João 8,36), Cristo faz-Se alimento de Verdade para nós.

. Com agudo conhecimento da realidade humana. Santo Agostinho pôs em evidência como o homem se move espontaneamente. e não constrangido. quando encontra algo que o atrai e nele suscita desejo. Perguntando-se ele. uma vez. sobre o que poderia em última análise mover o homem no seu íntimo. o santo bispo exclama: .Que pode a alma desejar mais ardentemente do que a verdade?- (2)

De facto, todo o homem traz dentro de si o desejo, que não pode ser suprimido, da verdade última e definitiva. Por isso, o Senhor Jesus, «caminho, verdade e vida» (João 14, 6), dirige-Se ao coração anelante do homem que se sente peregrino e sedento, ao coração que suspira pela fonte da vida, ao coração mendigo da Verdade.

Sim, Jesus Cristo é a Verdade feita Pessoa, que atrai a Si o mundo. «Jesus é a estrela polar da liberdade humana: esta, sem Ele, perde a sua orientação, porque, sem o conhecimento da verdade, a liberdade desvirtua-se, isola-se e reduz-se a estéril arbítrio. Com Ele, a liberdade volta a encontrar-se a si mesma»(3).No sacramento da Eucaristia, Jesus mostra-nos de modo particular a verdade do amor, que é a própria essência de Deus.

Esta é a verdade evangélica que interessa a todo o homem e ao homem todo. Por isso a Igreja, que encontra na Eucaristia o seu centro vital, esforça­se constantemente por anunciar a todos, em tempo propício e fora dele (opportune, importune: cf. 2 Timóteo 4, 2), que Deus é amor (4). Exactamente porque Cristo Se fez alimento de Verdade para nós, a Igreja dirige-se ao homem convidando-o a acolher livremente o dom de Deus".

Façamos também nós da Eucaristia, em especial na celebração da Missa, o nosso "centro vital". Em cada dia podermos prolongar a Missa em que participámos, e preparar a seguinte. E em tudo o que fizermos, no trabalho ou no estudo, na vida de família, na oração, estaremos unidos a Jesus Cristo, sentiremos o conforto da sua presença junto de nós, e sentiremos o desejo de estar de novo com Ele, no sacramento do seu amor.

Notas

1. Cf. São Tomás de Aquino, Suma Teológica. III, q. 73.a.3.
2 Santo Agostinho, Homilias sobre o Evangelho de S João, 26. 5 PL 35, 1609.
3. Bento XVI. Discurso aos participantes na Assembleia Plenária da Congregação para a Doutrina da Fé (10 de Fevereiro de 2006).
4. Cf. Bento XVI. Discurso aos membros do Conselho Ordinário da Secretaria Geral do Sínodo dos Bispos (1 de Junho de 2006).

Com a amizade em Cristo do
Prior de Santa Maria de Belém
Cón. José Manuel dos Santos Ferreira

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