5 de Fevereiro de 2012 - Domingo V do Tempo Comum

O Mistério da Fé

É possível que a muitos de nós já tenha alguma vez surgido esta pergunta:

Como é que se formou o rito segundo o qual celebramos a Eucaristia, a Santa Missa? Por que é que não repetimos simplesmente o que Jesus fez na Última Ceia? De facto, essa repetição pura e simples nunca aconteceu na vida da Igreja, nem seria possível...

Como é que se chegou, então, às diversas formas, que hoje existem, de celebrar o memorial do Senhor, de comemorar liturgicamente o seu Sacrifício redentor?


Celebração da Missa por Bento XVI

O Papa Bento XVI, na Exortação Apostólica Sacramentum Caritatis , não reponde directamente a esta pergunta, mas prefere chamar a atenção para a riqueza dos vários ritos litúrgicos com os quais se celebra a Eucaristia. Vamos ler este texto:

"Contemplando a história bimilenária da Igreja de Deus, sapientemente guiada pela acção do Espírito Santo, admiramos, cheios de gratidão, o desenvolvimento, ordenado no tempo, das formas rituais em que fazemos memória do acontecimento da nossa salvação.

"Desde as múltiplas formas dos primeiros séculos, que resplandecem ainda nos ritos das Antigas Igrejas do Oriente, até à difusão do rito romano; desde as indicações claras do Concílio de Trento e do Missal de São Pio V até à renovação litúrgica querida pelo Concílio Vaticano II: em cada etapa da história da Igreja, a celebração eucarística, enquanto fonte e ápice da sua vida e missão, resplandece no rito litúrgico em toda a sua multiforme riqueza" (n. 3).

Há, portanto, muitas formas de celebrara a Eucaristia, a que se chamam ritos. E o nosso rito, o rito romano, não é o único, é um entre muitos. Há outros, como por exemplo o rito bizantino, usado nas Igrejas Orientais Ortodoxas e em numerosas Igrejas Orientais Católicas; ou o rito alexandrino, celebrado pelos cristãos egípcios, da Igreja Copta Católica; ou o rito sírio-antioqueno, celebrado pelos cristãos árabes da Síria; ou o rito caldeu, que se celebra no Iraque e em zonas do Irão e da Turquia... No Ocidente, existem também o rito ambrosiano, em Milão, o rito bracarense, em Braga, e existiu durante séculos o rito moçárabe, usado por cristãos da Península Ibérica até o fim do século XI, quando foi substituído pelo rito romano, mas que continuou a ser celebrado na vasta extensão da Península que ficou sob o domínio árabe. Também algumas Ordens tiveram o têm ritos próprios, como o cisterciense, o cartusiano (cartuxo) ou o dominicano.

Quanto a nós, celebramos o rito romano segundo o Missal de Paulo VI, de 1970. É interessante notar que, num documento de 7 de Julho de 2007, o Papa Bento XVI declarou que o Missal romano que remonta a S. Gregório Magno (séc. VI), restaurado depois do Concílio de Trento por S. Pio V (no séc. XVI), e revisto pelo Beato João XXIII, em 1962, nunca foi revogado, definindo-o como "forma extraordinária" do rito romano.

E vamos agora aprofundar o sentido daquela expressão "Mistério da fé", que é típica do rito romano, (foi inserida na fórmula da consagração do cálice no séc. VII e deslocada para depois da consagração no séc. XX), e que Bento XVI comenta a seguir na Exortação Apostólica Sacramentum Caritatis:

"«Mistério da fé!»: com esta exclamação pronunciada logo a seguir às palavras da consagração, o sacerdote proclama o mistério celebrado e manifesta o seu enlevo diante da conversão substancial do pão e do vinho no corpo e no sangue do Senhor Jesus, realidade esta que ultrapassa toda a compreensão humana.

"Na verdade, a Eucaristia é por excelência "mistério da fé»: "É o resumo e a súmula da nossa fé». (Catecismo da Igreja Católica, n. 1327) A fé da Igreja é essencialmente fé eucarística e alimenta-se, de modo particular, à mesa da Eucaristia".

A fé na Eucaristia é decisiva para a vida da Igreja e de cada cristão.

Explica Bento XVI: "Quanto mais viva for a fé eucarística no povo de Deus, tanto mais profunda será a sua participação na vida eclesial por meio de um assentimento convicto à missão que Cristo confiou aos seus discípulos. Testemunha-o a própria história da Igreja: todas as grandes reformas estão, de algum modo, ligadas à redescoberta da fé na presença eucarística do Senhor no meio do seu povo" (n. 6) Devemos então concluir: se a nossa fé eucarística for forte, a nossa vida cristã será renovada, a vida da Igreja será renovada. Mas, se for débil ou inconsistente, tudo desaba!

Em alguns ambientes houve a tendência para se minimizar o carácter sacrificial da Missa e para promover o desaparecimento do mistério e do sagrado. Mas, se a Liturgia for simplesmente humana ou «falsificada», se for dessacralizada, a Igreja entra em crise.

Pelo contrário, se a nossa liturgia for verdadeiramente a celebração do mistério sagrado, do Senhor crucificado e ressuscitado, que se faz presente na sua Igreja, a Igreja terá força para evangelizar.

Na sua autobiografia, o Papa escreveu: "Estou convencido de que a crise eclesial em que nos encontramos hoje depende em grande parte da decadência da liturgia" (J. Ratzinger, A minha vida, Ed.livros do Brasil, p.l08).

Esta decadência pode ser interrompida e superada. E nada melhor que seguir o próprio exemplo do Santo Padre, seguir a sua «mente», na sua forma de celebrar a Santa Missa.

E também nos pode ajudar este conselho que um dia deixou o então Cardeal Ratzinger, hoje Bento XVI, no final de uma conferência: "Assim, meus caros amigos, desejo exortar-vos (...) a que continueis a ser confiantes, e a que obtenhais da liturgia a força para dar testemunho do Senhor neste nosso tempo".

Toda a questão é esta: retirar força para dar testemunho. Que o mistério da fé que celebramos alimente a mesma fé, e fortaleça a nossa capacidade para o testemunho de Cristo e para a nova evangelização.

Com a amizade em Cristo do
Prior de Santa Maria de Belém
Cón. José Manuel dos Santos Ferreira

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