19 de Fevereiro de 2012 - Domingo VII do Tempo Comum

Para voltar a caminhar

Nunca ninguém falou como Jesus, ao dizer ao paralítico, com toda a sua autoridade divina: "«Filho, os teus pecados estão perdoados»".

Jesus sabe que o pior dos males que afecta o ser humano é o pecado, essa distância que nos afasta de Deus, sobretudo quando essa distância se torna um abismo, que o homem sozinho já não consegue transpor.

Quem cai no fundo de um abismo, ou simplesmente no fundo de um poço, tem de ser resgatado, não se consegue salvar sozinho.


Julius Schnorr von Carolsfeld, A cura do paralítico (1880)

Daí a ordem das palavras de Jesus. Primeiro, disse: "«Filho, os teus pecados estão perdoados»". E só depois acrescentou: "«Eu te ordeno ­ disse Ele ao paralítico - levanta-te, toma a tua enxerga e vai para casa»".

E aquele homem saiu para a rua nesse dia, diante da admiração de todos, absolvido dos seus pecados e apto para voltar a caminhar.

Também nós já experimentámos muitas vezes como é bom ser perdoado por Deus. Mesmo quando alguém, na Confissão, se aproxima do sacerdote quase como se estivesse paralítico, com um grande peso quejá não o deixa ser feliz nem avançar, depois, quando sai, vem outra vez livre, ágil, capaz de continuar a sua caminhada na vida.

Compreendemos bem que o Santo Padre Bento XVI tenha assumido como sua esta recomendação do Sínodo dos Bispos: "Que todos os sacerdotes se dediquem com generosidade, empenho e competência à administração do sacramento da Reconciliação" (Exortação Apostólica O Sacramento da Caridade, n. 21).

E acrescentou: "A propósito, procure-se que, nas nossas igrejas, os confessionários sejam bem visíveis e expressivos do significado deste sacramento. Peço aos pastores que vigiem atentamente sobre a celebração do sacramento da Reconciliação, limitando a prática da absolvição colectiva exclusivamente aos casos previstos, permanecendo como forma ordinária de absolvição apenas a absolvição pessoal" (n. 21).

E como se aproxima a Quaresma, tempo penitencial por excelência, faz-nos bem lembrar ainda mais alguns aspectos relativos ao sacramento da Reconciliação.

Quando nos vamos confessar, bastará fazer uma confissão genérica? Claro que não: "Não é aceitável qualquer costume que limite a confissão a uma acusação genérica ou somente de um ou mais pecados considerados significativos" (JOÃO PAULO II, Carta Apostólica sob a forma de «motu proprio» Misericordia Dei, 7 de Abril de 2002, n. 3).

Então, que pecados devemos confessar? Ensina a Igreja: "O fiel tem obrigação de confessar, na sua espécie e número, todos os pecados graves de que se lembrar após diligente exame de consciência, cometidos depois do baptismo e ainda não directamente perdoados pela Igreja nem acusados em confissão individual" (Código de Direito Canónico, cân. 988, § 1).

É bom confessar também os pecados veniais? Sim, tendo em conta a vocação de todos os fiéis à santidade, a Igreja recomenda vivamente aos fiéis que confessem também os pecados veniais:

"Na verdade, a confissão regular dos nossos pecados veniais ajuda-nos a formar a nossa consciência, a lutar contra as más inclinações, a deixarmo-nos curar por Cristo, a progredir na vida do Espírito. Recebendo com maior frequência, neste sacramento, o dom da misericórdia do Pai, somos levados a ser misericordiosos como Ele" (Catecismo da Igreja Católica, n. 1458).

Num discurso que fez sobre este mesmo sacramento, Bento XVI sublinhou que quem se confessa é escutado, o que, no mundo actual, é algo raro e precioso!

"No nosso tempo, caracterizado pelo barulho, pela distracção e pela solidão, o diálogo do penitente com o confessor pode representar uma das poucas, se não a única ocasião para ser escutado verdadeiramente, e em profundidade. (...) Ser acolhido e escutado constitui mesmo um sinal humano do acolhimento e da bondade de Deus em relação aos seus filhos".

Apesar de todas as dificuldades actuais, estas ocasiões ainda podem ser muito frequentes. Se as fizermos acontecer, e felizmente ainda há muitos sacerdotes nos confessionários, andaremos muito mais agilmente pela vida, com mais liberdade e mais alegria!

Com a amizade em Cristo do
Prior de Santa Maria de Belém
Cón. José Manuel dos Santos Ferreira

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