4 de Março de 2012 - Domingo I da Quaresma

A Cruz e a Glória

S. Marcos conta-nos que "Jesus tomou consigo Pedro, Tiago e João, e subiu só com eles para um lugar retirado num alto monte, e transfigurou-Se diante deles".

O Evangelista nota que "as suas vestes tornaram-se resplandecentes de tal brancura que nenhum lavadeiro sobre a terra as poderia assim branquear", como se as vestes já não conseguissem esconder a glória divina que emanava de Jesus.

Depois, S. Marcos observa: "Apareceram-lhes Moisés e Elias, conversando com Jesus", Mas que fazem ao lado de Jesus neste momento, Moisés e Elias, que já há muitos séculos não estavam neste mundo (Moisés viveu no séc. XIII a. C. e Elias no séc.IX. A. C.)?


A Transfiguração (ilustração da Childrens Bible)

Essencialmente o seguinte: eles vieram para lembrar aos apóstolos que o Senhor iria sofrer e morrer e então entrar na sua glória, que a Transfiguração por um breve instante antecipa.

Esta é a razão pela qual a Santa Igreja nos convida a meditar sobre a Transfiguração no segundo domingo da Quaresma: para que, incentivados pela esperança da ressurreição, sejamos fiéis a Jesus, e não O abandonemos na hora da sua paixão e morte na cruz.

O Padre Romano Guardini, (um dos mais conhecidos teólogos do séc. XX, mestre admirado de Bento XVI), numa obra muito bela, chamada O Senhor, fundamenta os motivos da aparição de Moisés e de Elias.

Começa por notar que "Moisés já foi chamado o mais atormentado dos homens. A história dos quarenta anos vagueando pelo deserto é a história de uma luta interminável, não só com as dificuldades da natureza e os ataques das tribos hostis, mas também com a apatia e teimosia daqueles que ele liderava", Moisés "teve de carregar sobre os seus ombros todo o seu povo. Ele foi, necessariamente, o mais paciente dos homens. Foi então este homem que apareceu a Cristo. Àquele que havia de levar a Cruz do seu povo até o amargo fim".

E Elias? "Não é demais chamar-lhe o mais poderoso dos profetas. (...). Durante o reinado de Acab, a escuridão, as trevas do inferno cobriram a terra. Foi contra esta escuridão que Elias foi enviado. Ele teve de lutar até o fim contra uma parede de escuridão e descrença endurecida; contra a violência, a blasfémia e crueldade que se tinham espalhado sobre a terra. A vida de Elias é uma titânica luta contra as forças do mal. O espírito do Senhor ferve nele, elevando-o muito acima do plano humano. reforçando a sua força muito além ponto em que os homens quebram", (Ver I Reis 17,1 até II Reis 2,11)

Assim foram Moisés e Elias: "Moisés que conheceu o fracasso de todos os seus esforços para libertar o seu povo do cativeiro de seus próprios corações; Elias, que com a espada e o espírito enfrentou a escuridão satânica. É como se o peso de um milénio e meio de história sagrada se agrupasse e acumulasse sobre os ombros do Senhor: a inimizade contra Deus, herança de mil anos de insensibilidade e cegueira, que Ele tem agora de conduzir até ao fim ".

Não admira que, quando S. Pedro, numa reacção sincera, "tomou a palavra e disse a Jesus: «Mestre, como é bom estarmos aqui! Façamos três tendas: uma para Ti, outra para Moisés, outra para Elias"", o próprio S. Marcos observe logo de seguida: "Não sabia o que dizia, pois estavam atemorizados".

Romano Guardini observa que S. Pedro reage um pouco como uma criança, que vê o aspecto fascinante daquele acontecimento. mas não se apercebe ainda do seu significado: Pedro fascina-se por ver Jesus já revestido de glória, mas ainda não entende que esta glória só Lhe será comunicada plenamente depois de passar pela Cruz. Foi por isso que, ao descerem do monte, Jesus lhes ordenou "que não contassem a ninguém o que tinham visto, enquanto o Filho do homem não ressuscitasse dos mortos". O tempo que se ia seguir não era o tempo da glória, era o tempo da luta e do amor levado até ao fim.

Também Isaac, de quem fala a 1ª leitura, anuncia a futura paixão de Jesus. Orígenes, grande pensador cristão do séc. III e mártir de desejo, escreve que Isaac, "levando a lenha para o próprio sacrifício, é uma figura de Cristo que carregou a sua cruz".

O texto do Génesis diz que Isaac foi poupado, mas, como escreve S. Paulo, "Deus não poupou o seu próprio Filho, mas entregou-O por todos nós" (Romanos 8,32).

Comenta ainda Orígenes: "Vede como Deus rivaliza com os homens em magnanimidade e generosidade: Abraão, mortal, ofereceu a Deus o filho mortal, que aliás não morreria, enquanto Deus entregou à morte por todos nós o seu Filho imortal" (Homilias sobre o Génesis; cf. Liturgia das Horas, Ofício de Leitura de 3ª feira da V Semana do Tempo Comum, 2ª Leitura).

Continuamos assim o nosso caminho quaresmal, aceitando com alegria sofrer por Cristo para Lhe sermos fiéis, e unindo toda a nossa vida à sua Cruz, mas saboreando também, desde já, uma antecipação da sua glória, na esperança de vermos um dia todo o esplendor que Lhe foi dado, pelos méritos da sua dolorosa paixão.

Com a amizade em Cristo do
Prior de Santa Maria de Belém
Cón. José Manuel dos Santos Ferreira

Arquivo