11 de Março de 2012 - Domingo III da Quaresma

Poder e sabedoria de Deus

O Evangelho de hoje descreve-nos um gesto realizado por Jesus com extrema exigência, que muitos não entenderam, mas que tinha de ser feito. S. João conta que "estava próxima a Páscoa dos judeus,e Jesus subiu a Jerusalém".

Foi ao Templo, e ali encontrou "os vendedores de bois, de ovelhas e de pombas, e os cambistas, sentados às bancas".


Julius Schnorr von Carolsfeld, Jesus purifica o Templo (1860)

Aliás, deve ter havido duas purificações do Templo: Jesus purificou o Templo uma primeira vez durante o seu primeiro ano de vida pública, e purificou-o uma segunda vez nos últimos dias antes da sua morte. Tal foi pelo menos a opinião geral dos Padres da Igreja e dos Doutores Católicos, defendida ainda hoje por muitos autores.

Sabemos também, por outros documentos, que tinham sido alterado alguns costumes por parte das autoridades do Templo, e os vendedores e cambistas tinham podido passado a usar uma zona que antes não lhes competia. Agora não estavam no exterior, mas no próprio interior do Templo, no "pátio dos gentios".

No Templo, além das áreas reservadas às mulheres, aos israelitas, aos sacerdotes e ao santuário propriamente dito, abria-se um espaço ao qual podiam aceder precisamente os gentios ou pagãos de visita a Jerusalém. Era este o «Pátio dos Gentios», um pátio interior, que já era considerado lugar sagrado.

Jesus considerou que era indigno usar esta zona do Templo para a venda de animais e para o câmbio de moedas, ainda que fossem tarefas necessárias para a oferenda dos sacrifícios, e por isso, com um chicote de cordas, "expulsou-os a todos do Templo", e disse-lhes firmemente: " «Tirai tudo isto daqui, e não façais da casa de meu Pai casa de comércio» ".

Jesus fala do Templo como "«a casa de meu Pai»". É uma expressão muito bela, mas talvez nos levante uma interrogação: será que Deus precisa de uma casa, precisa de um templo para habitar? Será que Deus não está presente em todo o universo?

Sim, Deus habita na sua criação como num templo, não há nenhum ponto do cosmos onde não esteja presente. mas Deus quis também escolher um lugar mais simbólico, destinado à sua adoração. O Templo de Jerusalém foi este lugar escolhido para o culto e para a adoração de Deus, prestada pelo seu povo eleito, durante o Antigo Testamento.

No entanto, não há nenhuma obra humana que seja digna de Deus, e por isso Deus, na sua grandeza, na sua santidade, escolheu depois o único lugar digno para habitar no meio dos homens: o seu próprio Filho feito homem, a humanidade de Jesus. Jesus é o Templo definitivo, a morada perfeita de Deus entre os homens. É n'Ele que nos encontramos com o Pai. É em Jesus que prestamos ao Pai a adoração perfeita. É n'Ele que, mediante o Espírito Santo, somos um só corpo, a sua Igreja.

O Templo de Jerusalém, iniciado por ordem de Herodes o Grande, cerca do ano 20 antes de Cristo, tinha levado quarenta e seis anos a construir, como referem os interlocutores de Jesus. É evidente que seria impossível reconstrui-lo de um dia para o outro, caso fosse destruído, mas o Templo novo, que é Jesus, foi reedificado, após a morte, pelo seu próprio poder:" «Destrui este templo, e em três dias o levantarei» ".

Jesus falava de Si mesmo, falava "do templo do seu corpo", como diz S. João. Talvez nesse momento ninguém tenha entendido as suas palavras. Mas, "quando Ele ressuscitou dos mortos, os discípulos lembraram-se do que tinha dito, e acreditaram na Escritura e na palavra de Jesus".

Falando de fé, vemos que,já na sua parte final, o Evangelho transmite-nos um apelo uma fé límpida e sincera em Jesus, diferente da fé imperfeita e talvez interesseira daqueles que "ao verem os milagres que fazia, acreditaram no seu nome".

Mas Jesus, diz S. João, "não se fiava deles, porque os conhecia a todos". Jesus sabia que a sua intenção não era recta, e a todo o momento poderiam afastar-se d'Ele.

A fé que Jesus nos pede não é passageira, não é o entusiasmo de um momento: é o fascínio, a admiração, o seguimento incondicional, que não visa mais nada, senão a alegria de estar com Jesus e de O amar, já hoje e para sempre.

Como diz S. Paulo, na 2ª leitura, nós "pregamos Cristo crucificado", que é "poder e sabedoria de Deus", expressão máxima da sua misericórdia, e inseparavelmente anunciamos com alegria a sua ressurreição, na qual encontramos a vitória definitiva sobre a morte, o sentido da vida, a força e a esperança para continuar a caminhar.

Este terceiro domingo da Quaresma é, portanto, um bom momento para pedir a Deus que purifique e aumente em nós a fé no seu Filho, que nos ajude a adorar com um amor novo o mistério da sua morte na cruz, que nos torne intimamente agradecidos e felizes pela vitória da sua ressurreição.

Que a nossa fé seja sincera e coerente, e um dia dê lugar à adoração do seu rosto, na glória do Pai.

Com a amizade em Cristo do
Prior de Santa Maria de Belém
Cón. José Manuel dos Santos Ferreira

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