25 de Março de 2012 - Domingo V da Quaresma

«Fazei-me justiça, meu Deus»

Quando pensamos «Páscoa», pensamos logo no Domingo de Páscoa, o que é um erro, porque, antes do Domingo de Páscoa há a Sexta-Feira Santa: antes de ressuscitar, Jesus morreu: foi crucificado, morreu na cruz.

É neste acontecimento da Paixão e Morte do Senhor que a Igreja nos convida a fixar piedosamente o nosso olhar, já nesta semana, a partir deste Domingo, que, na antiga Liturgia, se chama 1º Domingo da Paixão, e sobretudo na próxima semana, que começa com o Domingo de Ramos, a Semana Santa.

Antes de ressuscitar, Jesus morreu: foi crucificado, morreu na cruz. E também a sua morte não aconteceu de repente. Foi-se apertando uma teia à sua volta, que culminou com a sua prisão, julgamento e condenação.

No Evangelho de hoje Jesus diz: "Agora a minha alma está perturbada" (João 12, 27).


Jerôme Nadal, Jesus e os fariseus

Para percebermos por que é que a alma de Jesus Cristo está perturbada, vamos um pouco mais atrás, ao capítulo 8 de S. João, que se lia sempre no antigo 1° Domingo da Paixão. E que lemos?

Lemos que Jesus é envolvido por uma teia de acusações injustas. Os fariseus contestam a autenticidade do testemunho de Jesus, com Quem se encontram no Templo, depois acusam-No de ser "samaritano" e de "ter um demónio", e Jesus tem de Se defender, dizendo sem disfarces aos seus acusadores: "Procurais matar­me, porque a minha palavra não encontra lugar em vós" (João 8, 37).

Porquê a acusação de «samaritano»? Santo António de Lisboa, num sermão para este dia, explica: "Os samaritanos, transferidos pelos Assírios, adoptaram em parte o rito dos Israelitas e em parte o rito dos gentios. Os judeus não mantinham relações com eles, por os reputarem impuros, por isso, a quem queriam insultar chamavam samaritano".

Quanto à acusação de "ter um demónio", explica santo António, Jesus "refuta a calúnia, mas, paciente, não retorna a injúria. «Honro o meu Pai» (João 8, 49), dando-Lhe a honra devida, atribuindo-Lhe tudo, e vós desonrastes-Me" .

Tudo decorre, portanto, num clima agressivo e até blasfemo contra Jesus. É por isso que o cântico de entrada, mesmo no actual 5º Domingo da Quaresma, é tecido com versículos do salmo 42 (43) que começa com as conhecidas palavras: "Judica me, Deus et disceme causam meam de gente non sancta: ab homine iníquo et doloso eripe me: quia tu es Deus meus et fortitudo mea", que se podem traduzir assim: "Fazei-me justiça, meu Deus, defendei a minha causa contra uma gente sem piedade; livrai-me do homem desleal e perverso. Vós sois o meu refúgio" (v. 1-2). É a oração do justo envolvido por mentiras e calúnias, que em Jesus se cumpre plenamente, porque Ele é o único sem pecado (cf. João 8, 46)

No capítulo 8 de S. João, vemos que, no fim deste enfrentamento com Jesus, os fariseus "pegaram em pedras para Lhe atirarem; mas Jesus ocultou-se, e saiu do Templo" (João 8,59).

E para não pensarmos que foram só os fariseus a proceder assim, Santo António, numa aplicação à vida corrente, mostra, com palavras fortes, que por vezes são os próprios cristãos a pegar em pedras para o seu Senhor: "Os falsos cristãos, filhos estranhos, filhos do diabo, que mentiram ao Senhor, violando o pacto feito no Baptismo, apedrejam todos os dias, quanto deles depende, com as duras pedras dos seus pecados, o seu pai e Senhor Jesus Cristo, do qual tiraram o nome de cristãos, e se esforçam por matá-Lo, por matar a fé Nele".

Esta é uma séria advertência, e um convite a não tomar com ligeireza as nossas faltas e pecados, que às vezes podem ser verdadeiras pedras lançadas a Cristo.

Pensar na Paixão do Senhor leva-nos à conversão, leva-nos à Confissão. Que ninguém chegue à Páscoa sem este encontro purificador com o perdão de Deus.

Voltando ao Evangelho de hoje, vemos que termina com uma promessa de Jesus: "E quando Eu for elevado da terra, atrairei todos a Mim" (João 12, 32). A elevação de Jesus é a sua morte. É ela que nos liberta do "príncipe deste mundo", do autor do pecado. O único sem pecado, o autor da vida, aceita a suprema humilhação da morte, para que todos n'Ele sejam livres e encontrem a vida.

Nesta 1ª Semana da Paixão e na Semana Santa, deixemo-nos atrair por Jesus e pela sua cruz dolorosa e gloriosa. Convido todos a participarem na Procissão do Domingo de Ramos, na Missa de 5ª Feira Santa e na solene celebração de 6ª Feira Santa. As nossas igrejas deveriam encher-se na 6ª Feira Santa! Devemos cultivar uma grande devoção pela Paixão do Senhor, que os Evangelhos relatam longamente e com a máxima densidade e piedade.

Só assim poderemos celebrar com toda a verdade, a força luminosa da Páscoa de Jesus Cristo, que, passando pela cruz, nos quer fazer participar, uma vez mais, na alegria e na vitória da sua ressurreição.

Com a amizade em Cristo do
Prior de Santa Maria de Belém
Cón. José Manuel dos Santos Ferreira

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