1 de Abril de 2012 - Domingo de Ramos

Só há uma explicação

Guiados pelo Evangelista S. Marcos, acompanhámos Jesus passo a passo, desde a Última Ceia com os discípulos, até à hora da sua morte na cruz e à sepultura do seu Corpo.

E é possível que nos venha ao espírito esta pergunta: como é que tanta gente, ao longo da Paixão de Jesus, não viu nada? Como é que tanta gente não percebeu nada? Como é que quase toda a gente se esqueceu de tudo tão depressa, não só dos ensinamentos de Jesus, mas também dos seus milagres?

Até os três discípulos que Jesus levou consigo para o Getsémani, não entenderam o pedido que lhes fez: " «A minha alma está triste até a morte; ficai aqui e vigiai» " (Marcos 14, 34). E deixaram-se dormir, não foram capazes de vigiar uma hora sequer. Não avaliaram o que estava em jogo: a sua salvação, a salvação do mundo.


Jerôme Nadal, A entrada de Jesus em Jerusalém

Este alheamento, esta distracção profunda, este não «ligar», este não querer saber, é muito fácil de acontecer. É este o estado de espírito dominante no mundo de hoje. Pela quantidade de atractivos a que é tão fácil ter acesso, ou também pelas preocupações que as podem absorver, muitas pessoas vivem alheadas em relação ao essencial.

Mas o que estava em jogo na Paixão e Morte de Jesus era o que há de mais decisivo na vida: a nossa salvação, a salvação do mundo. Não nos podemos tornar indiferentes, não nos podemos alhear, não podemos não querer saber.

Conseguiremos nós resistir a este relativismo, a esta fuga para o vazio, a esta tentação da indiferença, a que o nosso mundo nos impele? Sim, esperamos conseguir, mas só há uma maneira de o fazer: é fixarmos com fé os nossos olhos em Jesus: em Jesus traído, em Jesus abandonado, em Jesus julgado, em Jesus condenado, em Jesus crucificado, em Jesus morto e sepultado. É este o convite que a Igreja nos faz mais uma vez, nesta Semana Santa que hoje começa, e que culminará na grande celebração do Tríduo Pascal, que é o ponto mais alto de toda a liturgia cristã.

O nosso programa é contemplar, na luz da fé, a Paixão de Cristo, fonte de graça e misericórdia para o mundo inteiro. Mas será que ainda tem sentido esta contemplação da Paixão do Senhor? Depois da Ressurreição, porquê continuar a olhar para a Cruz? Porquê continua a fazer a «Via Sacra», a «Via crucis»? Não seria mais justo fazer apenas a «Via lucis»?

Sim, continuamos a percorrer a Via Sacra e a celebrar na liturgia a Paixão do Senhor, porque é esta a proposta que os Evangelhos nos fazem. Os Evangelhos foram escritos depois da ressurreição, e tudo interpretam à luz da ressurreição de Jesus, mas continuam a convidar-nos a este olhar contemplativo, a este olhar emocionado e agradecido diante da Paixão e Morte do Filho de Deus. A exclamação do centurião romano, relatada por S. Marcos, podia perfeitamente ser feita por cada um de nós: " «Na verdade, este homem era Filho de Deus»". É isso que nos assombra: que o Filho de Deus morra numa cruz, sob o peso dos pecados de todos os homens. E só há uma explicação para isso: a sua absoluta coerência, a sua fidelidade, o seu amor.

Na 2ª leitura da Missa, da Carta aos Filipenses, S. Paulo cita um hino que já devia existir anteriormente na comunidade cristã, e que descreve a Paixão de Jesus vista por dentro, isto é, explicada a partir do próprio Jesus. E a única explicação é esta: Jesus, renunciando à sua glória, "esvaziou-Se a Si mesmo" (Filipenses 2, 7). "Assumindo a condição de servo, tornou-Se semelhante aos homens. Aparecendo como homem, humilhou-Se ainda mais, obedecendo até à morte, e morte de cruz" (Filipenses 2, 7-8).

É este o sentido dos acontecimentos que vamos celebrar ao longo desta semana e em especial na Quinta e Sexta-Feira Santas. Tudo se explica pelo amor de Jesus, pela sua misericórdia pelos homens, pelo seu amor pelo Pai.

No início de mais uma Semana Maior, pedimos a Deus que este amor do seu Filho e a sua solidariedade extrema connosco, levada até à morte, possam ser hoje correspondidos pelo nosso amor agradecido, pela nossa fé vibrante, pelo desejo de percorrer com Jesus, passo a passo, a «Via crucis», o Caminho de Cruz que O levou à morte, até ao dom total de Si mesmo, a que o Pai responderá, depois das trevas de Sexta-Feira Santa e do Sábado do grande silêncio, pela luz inextinguível que jorra para sempre da sua gloriosa ressurreição.

Com a amizade em Cristo do
Prior de Santa Maria de Belém
Cón. José Manuel dos Santos Ferreira

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