6 de Maio de 2012 - V Domingo de Páscoa

Para dar muito fruto

Se compreendermos bem o que Jesus nos ensina no Evangelho de hoje - e voltámos a ouvir algumas das suas confidências aos Apóstolos durante a Última Ceia ­compreendemos que Jesus nos ensina a crescer na vida interior.

Mas Jesus não fala de frutos? Na verdade, em vários momentos, Jesus fala de frutos, e ensina claramente que a glória de Deus Pai consiste que demos muitos frutos. E os frutos não são interiores, são exteriores...

Sim, mas os frutos não aparecem por acaso, não é possível nascerem frutos de um tronco seco, e por isso a videira de que Jesus fala só poderá dar frutos, se não estiver seca, se dentro dela correr, como acontece com todas as plantas, a boa seiva, que se dispersa por todos os tecidos para alimentar cada uma das células.

Quando a selva para de correr, a planta seca, e em breve será apenas um tronco, e os seus ramos serão ramos secos, que se lançam ao fogo, e ardem, como adverte Jesus.

Mas Jesus diz-nos: "Permanecei em Mim, e Eu permanecerei em vós". Permanecer em Jesus significa o mesmo que estar na graça de Deus, uma vez que, como lemos no prólogo do Evangelho de S. João, "a graça e a verdade vieram-nos por Jesus Cristo" (João 1,17).


Permanecer em Jesus é ser alimentado e fortalecido pela graça de Deus, que nos vem através da humanidade de Jesus Cristo e "pela força da divindade que lhe está unida, e que faz que as acções humanas de Cristo sejam salvíficas", como ensina S. Tomás de Aquino (Suma Teológica, 1-11, q.112, art.º 1).

A grande prioridade da Igreja de hoje deveria estar na vida interior, que, se for verdadeira, depois produz muitos frutos, que levam preciosos nutrientes e «vitaminas espirituais» a toda a sociedade. Se tivermos pouca vida espiritual, não transmitimos essas «vitaminas espirituais», e o resultado é uma sociedade doente, com «avitaminose», para não dizer escorbuto, como tiveram os antigos navegadores, e que leva à morte.

Existem hoje inúmeras obras sociais desenvolvidas pelas paróquias, congregações, movimentos e grupos cristãos, que fazem um enorme bem, e dão resposta a muitos problemas, assegurando a muitas pessoas aquele mínimo indispensável a uma vida digna ou menos carenciada. Que seria de Portugal se não fossem os centros sociais, a Caritas, os Vicentinos ou os Bancos Alimentares contra a fome?

Mas é preciso mais. A nossa sociedade está envelhecida, pessimista, triste, e não só pela crise económica. Há uma tristeza mais profunda. Não há esperança nos corações. Um sintoma desta falta de esperança está em que muitas crianças são impedidas de nascer, depois de teremjá sido geradas no seio materno.

Estudos recentes revelaram também que diminuiu o número de católicos praticantes e até o número de cristãos e de crentes em Deus na nossa sociedade.

A que se deve esta baixa de nível espiritual? Onde está a causa, na sociedade ou em nós? Em grande medida, talvez esteja em nós, na própria comunidade cristã, na própria Igreja. Somos nós que não conseguimos comunicar à sociedade essa vida espiritual de que ela precisaria, para ter mais esperança, mais alegria.

Que devemos então fazer? Se o problema está em nós, talvez seja melhor primeiro tratar da nossa própria saúde espiritual, fortalecer a nossa vida interior. Esse «tratamento» pode ser feito em duas áreas, essencialmente: aprofundar a fé e celebrar melhor, com maior dignidade e mais beleza, a Sagrada Líturgia.

Com uma fé débil ou pouco esclarecida, não podemos desafiar os outros a abrirem-se ao dom da fé. E com uma liturgia sem beleza nem dignidade, abandona-se a Missa e não se fica com saudades.

Também é preciso fortalecer a nossa oração. Há dias celebrámos a memória de S. Pio V, que, num momento muito difícil pediu a toda a Igreja que rezasse o Terço - o Rosário - para implorar de Deus a vitória na grande batalha que se iria travar, e da qual dependia o destino da Europa e do mundo. Efectivamente foi travada a batalha naval de Lepanto, e foi vencida pelas forças cristãs coligadas, a 7 de Outubro de 1571.

Surgiu assim, em recordação desse acontecimento, a festa de Nossa Senhora do Rosário, que se celebra todos os anos, em 7 de Outubro.

Mas agora estamos no mês de Maio, mês de Maria, e convido a todos a rezar o Terço diariamente, e se possível na Paróquia, ou em família. Encontrei na internet um vídeo de uma família que reza uma dezena do terço por dia em família e pela família, e começa assim: "Senhor, nós vos damos graças por tudo que nos dais e vos pedimos que nos ajudeis naquilo que achardes que é mais importante para nós. Pedimos-vos pela conversão dos pecadores, em especial pela nossa família e amigos. Pedimos­vos também pelas almas do Purgatório, em especial pelas da nossa família e amigos. Dai­nos saúde para melhor vos podermos servir". (Este vídeo pode ser visto em: http://youtu.be/9p6KgjcJbtw).

Podemos seguir este modelo, ou qualquer outro, lembrando sempre que, juntamente com as grandes intenções da Igreja e do Papa, as intenções prioritárias são estas: o aprofundamento da fé e a conversão dos que ainda não crêem. Que sejam estas as nossas intenções constantes, que em cada dia renovamos com grande confiança, porque Deus nos quer ouvir, e porque Maria, nossa Mãe, intercede por nós.

Com a amizade em Cristo
do Prior de Santa Maria de Belém
Cón. José Manuel dos Santos Ferreira

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