27 de Maio de 2012 - Solenidade de Pentecostes

O nascimento da Igreja

O Pentecostes é a plenitude da Pascoa, mas, de certo modo, é parecido com o Natal. Assim o disse o Papa Pio XII, numa famosa radiomensagem, proferida no dia 1 de Junho de 1941, Solenidade do Pentecostes, (por ocasião do 500 aniversário da Encíclica Rerum Novarum, de Leão XIII, publicada a 15 de Maio de 1891).

Nessa radiomensagem, em plena 2ª guerra mundial, Pio XII falou do Pentecostes como o "glorioso natal da Igreja de Cristo", isto é, como o nascimento da Igreja.

O Pentecostes é na verdade "O Natal da Igreja", o seu glorioso nascimento para o mundo, 50 dias depois da Ressurreição de Cristo. No Dia de Pentecostes, a Igreja, que já existia, mas estava ainda oculta no Cenáculo, saiu à rua, e apresentou-se a todos. E, assim que nasceu e se apresentou, viram-se logo alguns traços do seu rosto, viram-se logo algumas características do seu ser, que se irão mantendo e desenvolvendo ao longo dos séculos.


Centro Aletti, Pentecostes (Capela Sede Episcopal-Tenerife,Espanha)

Uma dessas dimensões da Igreja, que o Pentecostes nos ajuda a reconhecer, é a diversidade. Somos muitos, e muito diferentes. E é bom que isso se note, que se veja. Sempre houve pequenas comunidades, como os mosteiros, e outras realidades eclesiais mais específicas, mas é bom que se faça também, particularmente nas paróquias, a experiência da grande Igreja, com pessoas muito diferentes, e algumas delas, naturalmente, desconhecidas, mas irmanadas pela mesma fé, pelo mesmo Senhor, pelo mesmo Espírito.

Outra dimensão, porém, é a unidade. Sendo muitos e muito diferentes, professamos a mesma fé, e celebramos a mesma liturgia sagrada. Na Igreja também há diversidade de ritos, mas cada rito é definido pela própria Igreja, e não depende dos gostos do sacerdote ou da comunidade. Na liturgia não há (ou não deveria haver) protagonismos nem subjectivismos. Aliás, o sacerdote não é um actor nem uma vedeta, mas deve, de certo modo, quase desaparecer, diante da grandeza dos mistérios aos quais empresta a sua voz, as suas mãos, e todo o seu ser.

Na Igreja, implantada em toda a Terra, tem de haver, e sempre houve, linguagens comuns. Dado que não podemos repetir o que aconteceu no Dia de Pentecostes, em que todos os que estavam em Jerusalém ouviam falar os Apóstolos na sua própria língua, deveríamos ter uma língua universal, que todos possam entender, pelo menos em algumas expressões mínimas. Numa Igreja de qualquer parte do mundo pode entrar, a qualquer momento, uma pessoa de outro país: um japonês (ou uma família japonesa) nos Jerónimos, ou um português (ou uma família portuguesa) na Tunísia ou na Áustria. Todos deviam poder entender, de imediato, o «Dominus vobiscum...», ou o que significa «Kyrie, eleison», ou «Agnus Dei qui tollis peccata mundi», etc., ou até, por que não, cantar o Gloria ou o Credo na língua comum dos católicos, que é o latim.

Não lêem os muçulmanos o Alcorão em árabe? Não cantam os jovens inúmeras canções em inglês, que até sabem de cor? A par do uso da língua de cada país, especialmente nas leituras e alguns outros textos, faz sentido recuperar o uso de uma língua universal entre os católicos romanos, pelo menos em determinados momentos da liturgia, e também para não deixar perder preciosos tesouros da música sacra, em particular da música gregoriana, como de resto o próprio Concílio Vaticano II expressamente pediu.

Finalmente, uma outra linguagem comum, que quase desapareceu, é o silêncio. Há certas celebrações em que quase não há um segundo de silêncio, na Missa inteira!

Mas o silêncio é uma linguagem universal, indispensável para a escuta e para a palavra. Vamos também valorizá-lo mais, para deixarmos que o Espírito nos fale, e para podermos depois anunciar, com as nossas palavras e a nossa vida, as maravilhas de Deus.

Com a amizade em Cristo
do Prior de Santa Maria de Belém
Cón. José Manuel dos Santos Ferreira

Notas litúrgicas

. Como se trata da conclusão do "Grande Domingo", que compreende os cinquenta dias do Tempo Pascal, o Missal prescreve o duplo Aleluia na despedida (assim como na Oitava da Páscoa) da Missa do Domingo de Pentecostes e das Horas maiores.

. Em alguns lugares, manteve-se o costume de que a segunda e terça-feira após Pentecostes sejam dias de devoção ao Espírito Santo. Este costume tem relação com a Oitava de Pentecostes, do calendário da Forma Extraordinária. Em razão disso, a missa votiva do Espírito Santo costuma ser oferecida nestes dias. (Assim acontecerá na nossa Paróquia).

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