3 de Junho de 2012 - Solenidade da Santíssima Trindade

«Ó meu Deus, Trindade que eu adoro...»

1. Hoje celebramos a Santíssima Trindade, o Pai, o Filho e o Espírito Santo, que são um só e único Deus. E cantamos: "Bendita seja a Santíssima Trindade e indivisa Unidade: dêmos-Lhe graças, porque usou para connosco da Sua misericórdia".

Há quem diga popularmente: Se 1 + 1 + 1 = 3, como é que Deus Pai, Deus Filho e Deus Espírito Santo não são três deuses? Na mesma linguagem popular pode-se responder: 1 + 1 + 1=3, mas 1 X 1 X 1 = 1. Vê-se, pois, que a TRINDADE não exclui a unidade.

Reconhecemos, em todo o caso, que a "Trindade Santa constitui um mistério inacessível à razão humana sozinha, e mesmo inacessível à fé de Israel, antes da Encarnação do Filho de Deus e do envio do Espírito Santo. Tal mistério foi revelado por Jesus Cristo e é a fonte de todos os outros mistérios" (Compêndio do Catecismo da Igreja Católica, n 45).

2. Alguém poderia notar que a, palavra "Trindade" não aparece no Novo Testamento. É verdade.


Jerónimo Nadal, (ed.), Jesus aparece no Monte Tabor

Mas aparecem as três Pessoas, como lemos no Evangelho de hoje: "Jesus aproximou-Se e disse-lhes: «Todo o poder Me foi dado no Céu e na terra. Ide e ensinai todas as nações, baptizando-as em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo»".

Todos conhecemos muito bem esta passagem da 2ª Epístola aos Coríntios: "A graça do Senhor Jesus Cristo, o amor de Deus e a comunicação do Espírito Santo estejam com todos vós!" (13,13)

Nesta fórmula, Deus (Pai) é visto como o Amor (pois, na verdade, foi como Amor que Ele quis identificar-se no Novo Testamento; veja-se João 4,16). Esse Amor tem uma graça para os homens, que é o Filho feito homem, manifestação do Pai. Essa graça comunica-se a cada homem mediante o Espírito Santo, ao qual, portanto, é atribuída a comunhão.

E na 2ª leitura de hoje, diz S. Paulo: "Vós não recebestes um espírito de escravidão para recair no temor, mas o Espírito de adopção filial, pelo qual exclamamos: «Abbá, Pai» (Romanos 8,15).

O mesmo diz S. Paulo em Gálatas 4.6: "Porque sois filhos, enviou Deus aos nossos corações o Espírito do seu Filho, que clama: Abbá, Pai". Este texto ensina-nos que o Espírito Santo noa faz filhos no Filho e por isso, com o Filho, leva-nos a proferir com força a palavra por excelência: Abbá. Pai! Somos assim inseridos na vida trinitária.

A consciência deste facto era tão viva para os antigos cristãos, que aprendiam a dizer Abbá desde os primeiros dias da sua conversão, ficando essa palavra aramaica, mesmo fora da Palestina, como uma das palavra mais características e fundamentais da mensagem cristã.

Na geração que se seguiu imediatamente aos Apóstolos, há testemunhos de fé trinitária em perfeita continuidade com os do Novo Testamento. Veja-se o seguinte exemplo: o rito baptismal era ministrado em nome das três Pessoas Divinas, em conformidade com Mateus 28,19. Assim o atesta a Didaqué, admirável catecismo da Igreja nascente, redigido no fim do século I: "No que diz respeito ao Baptismo, baptizai em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo em água corrente. Derramai três vezes água sobre a cabeça em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo" (n. 7).

S. Justino (que foi mártir em Roma, no ano 165) escreve: "Os que vão ser baptizados, são levados por nós a um lugar onde haja água, e são regenerados da mesma maneira como nós fomos regenerados. Com efeito; é em nome do Pai de todos e Senhor Deus e de nosso Salvador Jesus Cristo e do Espírito Santo que recebem a ablução na água. Este rito foi-nos entregue pelos Apóstolos" (Apologia I, n. 61).

E Tertuliano, grande escritor e apologista, natural de Cartago, na província romana de Africa (+ 220), acentua: 'Foi estabelecida a lei de baptizar e prescrita a fórmula: «Ide, ensinai os povos, baptizando-os em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo» (Mateus 28, 19) , (De Baptismo. c,13).

3. Já agora, quando apareceu pela primeira vez a palavra Trindade? A palavra "TRINDADE" (triás, em grego) aparece pela primeira vez nos escritos de Teófilo de Antioquia (+ após 181), exprimindo de maneira mais sistemática a doutrina consagrada pela Sagrada Escritura. Ao referir-se aos dias da criação em Génesis 1, diz este escritor cristão, apologista e Padre da Igreja: 'Os três dias que precedem o aparecimento dos luzeiros, são imagem da TRINDADE: de Deus, do seu Verbo e de sua Sabedoria' (A Autólico, I. II. c. 14) O facto de que Teófilo usa a palavra triás como um termo corrente, sem necessidade de explicação, leva a crer que tal vocábulo não foi introduzido por Teófilo, mas já era usual antes dele. Tertuliano, por sua vez, utilizará abundantemente a palavra Trindade, Trinitas, em latim

Podemos compreender a Santíssima Trindade? Não, mas podemos tentar ilustrá-la, com a luz da inteligência. É o que tentaremos fazer nos próximos domingos.

Mas fiquemos hoje com uma bela oração da Beata Isabel da Trindade. Religiosa carmelita (+ 1906), (citada pelo Compêndio do Catecismo da Igreja Católica):

"Ó meu Deus, Trindade que eu adoro... pacificai a minha alma; fazel dela o vosso céu, vossa morada querida e o lugar do vosso repouso. Que eu não vos deixe nunca só, mas que esteja lá, com todo o meu ser, inteiramente vigilante na minha fé, totalmente em adoração, totalmente oferecida à vossa acção criadora" . Ámen.

Com a amizade em Cristo
do Prior de Santa Maria de Belém
Cón. José Manuel dos Santos Ferreira

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