10 de Junho de 2012 - Domingo X do Tempo Comum

O tempo da graça

1. As leituras de hoje apresentam-nos três temas difíceis: o pecado original, o pecado contra o Espírito Santo e o os "irmãos" de Jesus. Em relação ao primeiro tema, vamos ler o que ensinou Bento XVI, no dia 8 de Dezembro de 2008, Festa da Imaculada Conceição:

"A existência do que a Igreja chama «pecado original», infelizmente é de uma evidência esmagadora, basta olharmos à nossa volta e, em primeiro lugar, dentro de nós. Na verdade, a experiência do mal é tão consistente, que se impõe por si só e suscita em nós a pergunta: de onde provém? Especialmente para o crente a questão é ainda mais profunda: se Deus, que é Bondade absoluta, criou tudo, de onde vem o mal?"

"As primeiras páginas da Bíblia (Génesis 1-3) respondem exactamente a esta pergunta fundamental, que interpela todas as gerações humanas, com a narração da criação e da queda dos progenitores: Deus criou tudo para a existência, em particular criou o ser humano à sua imagem; não criou a morte, mas ela entrou no mundo por inveja do demónio (cf. Sabedoria 1, 13-14; 2, 23-24), que, ao revoltar-se contra Deus, atraiu para o engano também os homens, induzindo-os à rebelião".

Na Audiência Geral dessa mesma semana, no dia 3 de Dezembro, Bento XVI tinha já abordado profundamente este tema, sublinhando com grande clareza: "O mal vem de uma liberdade criada, de uma liberdade abusada".


Jerónimo Nadal, (ed.), Jesus aparece no Monte Tabor

E no dia 8, celebrando a Imaculada Conceição, continuou: "É o drama da liberdade, que Deus aceita até ao fim por amor, prometendo contudo que haverá um filho de mulher que esmagará a cabeça da antiga serpente (Génesis 3, 15).

Portanto, o mal vem de uma liberdade mal utilizada, uma liberdade abusada, usada absurdamente contra Deus, e portanto usada contra o próprio homem.

2 Segundo tema: o pecado contra o Espírito Santo. No Evangelho de hoje, Jesus diz: "Tudo será perdoado aos filhos dos homens: os pecados e blasfémias que tiverem proferido; mas quem blasfemar contra o Espírito Santo nunca terá perdão: será réu de pecado para sempre-o Será que estamos diante de uma limitação da misericórdia de Deus ou do seu poder de perdoar?

O Catecismo da Igreja Católica explica bem esta afirmação de Jesus: "Não há limites para a misericórdia de Deus, mas, quem recusa deliberadamente receber a misericórdia de Deus, pelo arrependimento, rejeita o perdão dos seus pecados e a salvação oferecida pelo Espírito Santo. Tal endurecimento pode levar à impenitência final e à perdição eterna" (n.1864).

No fundo, "o pecado contra o Espírito Santo é um endurecimento interior que não permite à pessoa arrepender-se dos seus próprios pecados. Logicamente, sem arrependimento não há perdão!"

Mas este endurecimento, um dia, pode suavizar-se. Até o fim da vida, qualquer pessoa pode aceitar a salvação. Mesmo nos últimos momentos de sua existência, qualquer pessoa pode arrepender-se e ser alcançado pela salvação que lhe oferece o Espírito Santo!

É evidente, porém, que não é bom esperar pelo último momento, mas é desejável antecipar para hoje, para agora mesmo, a nossa conversão. Muitos sacerdotes pedem a Deus antes da Missa (e todos poderão fazer este pedido): "Concedei-nos, Senhor omnipotente e misericordioso, a alegria e a paz, a emenda de vida, o tempo para fazer penitência, a graça e a consolação do Espírito Santo e a perseverança nas boas obras. Ámen".

3 Terceiro tema. Alguns disseram a Jesus: "« Tua Mãe e teus irmãos estão lá fora à tua procura»". Jesus teve outros irmãos? Caso a resposta fosse afirmativa, Maria teria tido outros filhos. Mas isso é contra a fé da Igreja! Para sintetizar, leio-vos a explicação que se encontra no índice doutrinal da Bíblia Ave-Maria:

" Em Marcos 6.3 são indicados (como «irmãos» de Jesus): Tiago, José, Judas, Simão. Não se trata, porém, de irmãos no sentido estrito, filhos dos mesmos pais. Os evangelistas afirmam que Jesus foi o filho único da Virgem Maria: Marcos 6.3; João 19.26ss.

E não há motivo para supor que S. José tivesse outros filhos de um matrimónio anterior. Por outro lado, a palavra «primo» não existe nem no hebraico nem no aramaico. Os «irmãos de Jesus» tinham outra mãe, que não Maria Santíssima. S. Mateus, em 27,56, menciona, entre as mulheres presentes na crucificação de Cristo, «Maria, mãe de Tiago e de José» Essa Maria é esposa de Cléofas, conforme João 19,25. Provavelmente, trata-se de uma irmã de Maria, mãe de Jesus. Portanto, esta Maria e seu marido, Cléofas, eram os pais de Tiago e de José. Eles tinham ainda outro filho, de nome Judas, que, na sua epístola, se diz irmão de Tiago.Esse Tiago só pode ser o filho de Cléofas, pois o outro Tiago era irmão de S. João Evangelista, que era filho de Zebedeu. Resta Simão. Um historiador do séc. II, Hegesipo, dá-o também como filho de Cléofas. Tenha-se em conta que Nossa Senhora é chamada "mãe de Jesus" e nunca "mãe dos irmãos de Jesus". Se Maria tivesse outro filho, Jesus não a teria confiado a S. João, filho de Zebedeu. A família de Nazaré aparece apenas com três pessoas: Jesus, Maria e José. Aos doze anos, Jesus vai ao templo exclusivamente com Maria e José".

Esta análise é um pouco densa e complexa, mas é válida! Maria só teve um Filho: Jesus Cristo. Ela é a Virgem-Mãe! Que ela nos ajuda a ter e a viver uma fé virginal, nunca contaminada e fiel, no seu Filho Jesus, nosso Salvador, e a aceitar o perdão e a misericórdia de Deus, no Espírito Santo.

Com a amizade em Cristo
do Prior de Santa Maria de Belém
Cón. José Manuel dos Santos Ferreira

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