24 de Junho de 2012 - Nascimento de S.João Baptista

«Irás à sua frente»

Hoje celebramos o Nascimento de São João Baptista, que é o único santo, além de Nossa Senhora, de quem a Igreja celebra, não só a morte, isto é, o nascimento para a vida eterna, mas também o nascimento para este mundo.

João foi sem dúvida um filho muito desejado pelos pais, mas foi recebido como um puro dom de Deus. João foi uma criança que só Deus poderia ter dado aos seus pais.

No entanto, mais ainda do que o nascimento de João, o próprio nascimento de Jesus Cristo é inteiramente da iniciativa de Deus. Não é fruto da «evolução» natural nem da vontade humana. O próprio modo como Jesus foi gerado "manifesta a iniciativa absoluta de Deus na Encarnação" (Catecismo da Igreja Católica, n. 503). Só Deus nos poderia ter dado o seu próprio Filho, que foi concebido pelo Espírito Santo no seio da Virgem Santa Maria.

Mas também João foi alguém que só Deus podia ter dado ao seu povo. Isabel, sua mãe, era "uma anciã estéril", como notou Santo Agostinho num dos seus sermões, e seu pai, Zacarias, era também um homem idoso, e ambos já deveriam perdido há muito tempo a esperança de terem um filho.

Os dois eram, no entanto, «pobres do Senhor», pertenciam ao "humilde resto" que punha em Deus toda a sua confiança. S. Lucas diz que "ambos eram justos diante de Deus, e seguiam de modo irrepreensível todos os mandamentos e preceitos do Senhor" (Lucas 1, 6). Humanamente falando, tinham limitações, sobretudo a velhice e a esterilidade, mas não há nada que possa condicionar as escolhas de Deus, e a sua acção não é impedida pelas nossas limitações.

Nem sequer a surpresa de Zacarias e a sua dúvida inicial, quando recebeu o anúncio do Anjo, durante o seu serviço no Templo de Jerusalém, frustrou o plano de Deus. Nessa altura, Zacarias ficou mudo, mas, quando o menino nasceu, Zacarias confirmou o nome que o Anjo lhe dera, e escreveu solenemente: "«João é o seu nome»". «João», em hebraico Yôhânân, significa: "o Senhor mostrou o seu favor" .

E então Zacarias deixou de estar mudo, "e começou a falar, bendizendo a Deus". Todos se encheram de admiração e de alegria, e Zacarias entoou um hino de louvor, o Benedictus, (como é costume designá-lo, pela palavra com que começa, em latim). É um hino que a Igreja reza diariamente, na oração de Laudes, e começa assim: "Bendito o Senhor, Deus de Israel, que visitou e redimiu o seu povo, e nos deu um Salvador poderoso, na casa de David, seu servo" (Lucas 1,68)

É interessante que estas palavras parecem referir-se directamente a Jesus, que viria ao mundo seis meses depois, mais do que ao próprio João. E, quando se refere ao filho, um pouco mais adiante, Zacarias diz: "E tu, menino, serás chamado profeta do Altíssimo, porque irás à sua frente, a preparar os seus caminhos" (Lucas 1,76).

Foi esta, na verdade, a missão de João: preceder imediatamente o Messias para preparar o povo de Israel para a sua vinda. Para isso, depois de algum tempo passado no deserto, João promoveu um baptismo de penitência. que utilizava o símbolo da água para expressar a purificação do coração e da vida. É por isso que lhe chamamos «Baptista».

Foi chamado assim sobretudo por esta razão: os que procuravam o seu baptismo, não imergiam sozinhos na água, como noutros ritos judaicos, mas recebiam a água das suas mãos. João pretendia mostrar assim que o homem não se pode purificar sozinho, mas que toda a santidade vem de Deus.

E o que é ainda mais relevante, é que João a todos dizia que depois dele viria outro, maior do que ele, que baptizaria, não com a água, mas com o Espírito Santo (cf. Marcos 1,7-8).

João, portanto, não se considerava o fim da história nem o centro do mundo, sabia que não era o Messias, mas sentia que a sua vida só tinha sentido em função do Messias, que um dia ele próprio teve a graça de baptizar e reconhecer.

Por isso, João dizia: "«E necessário que Ele cresça e que eu diminua (João 3, 30). Esta expressão de João Baptista, observou um dia o Santo Padre Bento XVI, "é programática para cada cristão". Ou seja: traduz-se também para nós num programa de vida.

É importante que tudo façamos para que Jesus cresça, seja mais conhecido, mais amado, mais livremente seguido por muitos. Se tudo fizermos para que assim aconteça, a nossa vida pode às vezes ficar na sombra ou no silêncio, mas terá sempre a luz de Jesus e a força da sua palavra, a liberdade de O seguir e a alegria de O amar e fazer amar sempre mais em cada dia.

Com a amizade em Cristo
do Prior de Santa Maria de Belém
Cón. José Manuel dos Santos Ferreira

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