15 de Julho de 2012 - XV Domingo do Tempo Comum

Preciosíssimo Sangue

1. Há muitas coisas boas que podemos fazer pelos outros, como por exemplo alimentar os que têm fome, ajudar a ter uma vida mais digna, proporcionar habitação aos sem-abrigo, tratar as doenças, cuidar os doentes, assistir os idosos, ou ainda aconselhar, ensinar, educar, que são talvez as tarefas mais difíceis de todas.

Mas ainda mais importantes do que todas estas boas obras são as que Jesus mandou fazer aos seus Doze Apóstolos, logo na primeira missão que lhes confiou: enviados "dois a dois", "os Apóstolos partiram e pregaram o arrependimento, expulsaram muitos demónios, ungiram com óleo muitos doentes e curaram­nos". Depois, concluída esta missão, voltaram, cheios de alegria (Marcos 6, 30).

Ajudar alguém a abrir o seu coração à graça de Deus, mudando e corrigindo na sua vida o que for necessário, é uma obra de valor excepcional, que todos deveríamos estar dispostos a fazer, como expressão de verdadeira amizade e grande caridade.

Quanto a Jesus Cristo, não fez apenas coisas boas: aceitou morrer na cruz, e derramou o seu sangue até à última gota, por amor.

S. Paulo diz-nos hoje, na Epístola aos Efésios: "N'Ele, pelo seu sangue, temos a redenção, a remissão dos pecados". O sangue de Jesus Cristo, expressão máxima do seu amor, purifica-nos dos nossos pecados.

O mês de Julho é tradicionalmente dedicado ao Preciosíssimo Sangue de Cristo. Esta devoção foi amadurecendo na Igreja, sobretudo no séc. XIX, até que o Beato Pio IX, em cumprimento de um voto que fez quando estava exilado em Gaeta, (em 10 de Agosto de 1849), estendeu à Igreja universal a Festa do Preciosíssimo Sangue, que o Papa S. Pio X, em 1914, fixou no dia l de Julho.

Pio XI, em 15 de Abril de 1934, elevou-a ao grau de Solenidade. Eo Beato João XXIII, com a Carta Apostólica Inde a primis (30 de Junho de 1960), explicou o seu significado e aprovou as suas Litanias.

Na reforma litúrgica pós-conciliar, com Paulo VI, esta festa desapareceu, sendo unida à celebração do Corpus Christi, mas sente-se a falta de uma celebração autónoma, que de resto continua hoje a ser celebrada na Forma Extraordinária do Rito Romano e nas Congregações ligadas à espiritualidade do Sangue de Cristo.

2. O Beato João XXIII, na Carta referida, sublinha como é nosso dever adorar o Sangue derramado por Cristo: "Se infinito é o valor do Sangue do Homem-Deus, e se infinita foi a caridade que o impeliu a derramá-lo desde o oitavo dia do seu nascimento, e depois, comsuperabundância, na agonia do horto (cf. Lc 22,43), na flagelação e na coroação de espinhos, na subida ao Calvário e na crucifixão, e, enfim, da ampla ferida do seu lado, como símbolo desse mesmo Sangue divino que corre em todos os sacramentos da Igreja, não só é conveniente, mas é também sumamente justo que a ele sejam tributadas homenagens de adoração e de amorosa gratidão por parte de todos os que foram regenerados nas suas ondas salutares" (n. 10).

É "sobretudo no momento da sua elevação no sacrifício da Missa", como diz João XXIII, que prestamos esse culto de adoração ao Sangue da Nova Aliança, derramado por Cristo.

E depois, na comunhão sacramental, todos O recebem, "indissoluvelmente unido ao Corpo do nosso Salvador no Sacramento da eucaristia", mesmo quando a Comunhão é recebida apenas sob a espécie do pão.

Em alguns casos, mas não habitualmente, poderá ser recebida a comunhão sob as duas espécies, a espécie do pão e a espécie do vinho, sem esquecer, porém, o que a fé católica ensina: "que, mesmo sob uma única espécie, é Cristo todo e inteiro e o verdadeiro Sacramento que se recebe; consequentemente, quem receber uma só das duas espécies nem por isso fica privado de qualquer graça necessária à salvação" (Instrução Geral do Missal Romano, n. 292; cf. Concílio de Trento, Sessão XXI, 16 de Julho 1562, Decreto sobre a Com. eucarística, capo 1-3: DS 1725­1729).

3. Também Bento XVI partilhou um dia, no Angelus de 5 de Julho de 2009, uma profunda reflexão sobre o Preciosíssimo Sangue, relacionando o sangue humano derramado pela violência dos homens, com o Sangue de Cristo, prova do amor fiel de Deus. Vale a pena meditar estas suas palavras:

"Continua a ser derramado sangue humano por causa da violência, da injustiça e do ódio. Quando aprenderão os homens que a vida é sagrada e pertence só a Deus? Quando compreenderão que somos todos irmãos? Ao brado pelo sangue derramado, que se eleva de tantas partes da terra, Deus responde com o sangue do seu Filho, que entregou a sua vida por nós. Cristo não respondeu ao mal com o mal, mas com o bem, com o seu amor infinito. O sangue de Cristo é o penhor do amor fiel de Deus pela humanidade. Fixando as chagas do Crucificado, cada homem, também em condições de extrema miséria moral, pode dizer: Deus não me abandonou, ama-me, deu a vida por mim; e desta forma reencontrar esperança".

E o Santo Padre termina com uma bela oração dirigida a Nossa Senhora, que podemos também fazer nossa:

"A Virgem Maria, que aos pés da cruz, juntamente com o apóstolo S. João, recebeu o testamento do sangue de Jesus, nos ajude a redescobrir a inestimável riqueza desta graça, e a sentir por ela uma gratidão íntima e perene".

Ámen.

Com a amizade em Cristo
do Prior de Santa Maria de Belém
Cón. José Manuel dos Santos Ferreira

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