29 de Julho de 2012 - XVII Domingo do Tempo Comum

O sinal torna-se realidade

1. Para entendermos bem o milagre da multiplicação dos pães, relatado pelo Evangelho, e preparado pelo milagre semelhante feito por Eliseu, como lemos hoje na 1ª leitura, temos de nos lembrar que os milagres, em S. João, não são provas, são «sinais».

E este é já é o quarto "sinal" de Jesus no Evangelho de S. João. Os outros foram: as bodas de Caná (João 2, 1-11), a cura do filho do funcionário real (João 4, 47-54), e a cura do paralítico (João 5, 1-47).

E agora um novo «sinal»: a multiplicação dos pães e dos peixes. Qual o seu sentido? É sinal de quê? É um sinal, antes de mais, não apenas do poder divino de Jesus, mas também da eficácia da sua entrega, do valor do seu sacrifício. Aquele que Se oferece pelos homens, aceita nas suas mãos o pouco que Lhe podemos oferecer, e dá-lhe um valor imenso.


Jerome Nadal, (ed.), A multiplicação dos pães. Adnotationes et Meditationes in Evangelia (1594-1595)

Por isso continuamos a oferecer-Lhe todos os dias os nossos trabalhos, e também as nossas dores, pequenas ou grandes. Nas mãos de Jesus, tudo assume um valor novo, e pode servir para a salvação de muitos. Sejamos generosos no que lhe damos, mesmo que pareça muito pouco! Mas este milagre foi ainda, como S. João entende claramente, sinal de um outro alimento que Jesus quis deixar aos seus discípulos. As pessoas que comeram os pães e os peixes, comeram simplesmente pães e peixes, mas não terão sentido que estes alimentos tinham um sabor especial?

Sim, talvez tenham sentido que tinham o sabor do amor com que Jesus lhos deu. Aqueles pães e peixes que se multiplicaram, não eram apenas comida que alimenta o corpo, eram também o sinal do seu amor. Eram sinal da sua preocupação por todos, da sua misericórdia. Sim, eram sinal de tudo isso, mas evidentemente não eram o próprio Jesus - eram apenas um sinal de Jesus, que alguns podem ter interpretado bem, mas outros quiseram logo manipular e desvirtuar.

Mas um dia passou a haver uma identificação entre o sinal e a realidade. S. João diz que "Jesus tomou os pães deu graças e distribuiu-os". Não nos passa despercebido que estes verbos são os mesmos que aparecem na descrição do que Jesus fez na Última Ceia, como por exemplo nesta passagem: "Tomou o pão e, dando graças, partiu-o e deu-lho, dizendo: «Isto é o meu Corpo, entregue por vós. Fazei isto em memória de Mim»" (Lucas 22, 19; cf. 1 Coríntios 11, 23-24). É desta forma verbal: "deu graças" (em grego: eucharistèsas), que veio a palavra Eucaristia, que designa o Pão que se faz Corpo, e o Vinho que se faz Sangue de Cristo.

Aquilo de que os pães e os peixes eram apenas um sinal, agora, na nova Páscoa, torna-se realidade. Quando recebemos o Pão e Vinho consagrados, isto é, o Corpo e o Sangue do Senhor, eles não têm apenas o «sabor» do amor de Jesus, mas são o próprio Jesus, oferecido por nós na cruz e depois gloriosamente ressuscitado. A Eucaristia é Jesus, alimento dos homens e fonte de comunhão.

2. S. Paulo, na 2ª leitura, faz um grande apelo à unidade: "Empenhai-vos em manter a unidade de espírito pelo vínculo da paz", diz aos cristãos de Éfeso (Efésios 4, 3). E acrescenta: "Há um só Corpo e um só Espírito, como existe uma só esperança, na vida a que fostes chamados" (Efésios 4,4).

Mas esta "unidade de espírito" de que fala S. Paulo, não resulta só da nossa boa vontade, é o fruto de comungarmos Jesus, e só assim podemos ser um só Corpo. A Comunhão da Eucaristia faz a comunhão da Igreja.

3. Mas voltemos de novo ao Evangelho: é relevante que Jesus tenha mandado recolher o que tinha sobrado da multiplicação dos pães e dos peixes, "para que nada se perca" (João 6, 12). Talvez haja aqui uma indicação relativa à futura celebração da Eucaristia. O pão eucarístico que não é dado em comunhão, na Santa Missa, é sempre recolhido num vaso sagrado, e assim há sempre uma «reserva» eucarística conservada com todo o respeito no sacrário, e rodeada da adoração dos fiéis.

Mas, no imediato, aquela indicação de Jesus contrasta com o que estava dito em relação ao maná do deserto, que não devia ser guardado no final do dia, uma vez que, no dia seguinte, desceria mais maná do céu (Êxodo 16,19).

Mas aqui não é assim, talvez para indicar que não vai haver milagres todos os dias. Era necessário que todos voltassem à sua vida corrente, apoiados na ajuda de Deus, mas sem renunciar ao esforço e ao trabalho de todos os dias. Os que queriam ir buscar Jesus para O fazer rei, esperavam talvez essa solução miraculosa dos seus problemas, mas não era esse o plano de Deus.

Por isso, Jesus não deixou que O fizessem rei, e "retirou-Se novamente sozinho para o monte" (João 6, 15). Daqui descerá de novo algumas horas depois para estar com os seus discípulos, tal como está connosco hoje, animando-nos a começar a nossa caminhada todos os dias, mas alimentando-nos sempre com o seu amor, que saboreamos intimamente no Pão santíssimo da Eucaristia, e na comunhão da Igreja, que é o seu Corpo.

Com a amizade em Cristo
do Prior de Santa Maria de Belém
Cón. José Manuel dos Santos Ferreira

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