19 de Agosto de 2012 - XX Domingo do Tempo Comum

Em adoração diante do Senhor

Nas palavras que dirigiu à multidão depois do milagre da multiplicação dos pães, Jesus apresentou-Se como o pão que alimenta os homens e lhes dá a vida eterna: "Eu sou o pão vivo que desceu do Céu. Quem comer deste pão viverá eternamente".

Este pão tem características específicas e bem definidas. Por isso, Jesus acrescentou logo depois, como ouvimos no passado domingo: "E o pão que Eu hei-de dar, é a minha carne, que Eu darei pela vida do mundo" .


Bento XVI celebra a Missa da Noite de Natal na Basílica de S.Pedro (2008)

O pão que Jesus nos dá, o pão com que Jesus nos alimenta e nos une a Si, é Ele próprio enquanto Se oferece como sacrifício pela salvação de todos.

Poderíamos perguntar, porém, como é que nos será possível participar intimamente neste sacrifício, uma vez que não estivemos presentes no Calvário, quando ele se consumou.

A esta pergunta respondeu o Beato João Paulo II na sua Encíclica A Igreja vive da Eucaristia: "Este sacrifício é tão decisivo para a salvação do género humano, que Jesus Cristo realizou-o, e só voltou para o Pai depois de nos ter deixado o meio para dele participarmos, como se tivéssemos estado presentes" (n.ll).

Que meio foi esse? O meio que Jesus nos deixou, foi a Eucaristia, que o nosso Salvador instituiu na Última Ceia com os seus discípulos, "na noite em que Ele ia ser entregue", como escreve S. Paulo (1 Coríntios 11, 23), isto é, "na véspera da sua morte", como se diz no Cânon Romano.

Jesus Cristo tornou presente no Pão e no Vinho o mistério da sua morte redentora por todos os homens. "Assim, cada fiel - escreveu João Paulo II - pode tomar parte nele, alimentando-se dos seus frutos inexauríveis. Esta é a fé que as gerações cristãs viveram ao longo dos séculos, e que o magistério da Igreja tem continuamente reafirmado, com jubilosa gratidão por dom tão inestimável" (ibid.).

No Evangelho de S. João, não se descreve a instituição da Eucaristia. Mas as palavras de Jesus que hoje lemos, referem-se claramente à Eucaristia, instituída no Cenáculo, em Quinta-feira Santa. Jesus diz: "Quem come a minha carne e bebe o meu sangue permanece em Mim e eu nele". E mais adiante: "Assim como o Pai, que vive, Me enviou, e Eu vivo pelo Pai, também aquele que Me come, viverá por Mim".

É de realçar que o verbo que traduzimos por «comer», também significa «assimilar» . Vê-se assim que Jesus deseja que nós assimilemos totalmente o mistério da sua morte oferecida e da sua vida entregue, no Pão e no Vinho que os sacerdotes continuam a consagrar em seu nome, e que, conservando as espécies ou aparências de pão e de vinho, nos dão a substância desse Corpo imolado e desse Sangue derramado por amor pela salvação do mundo.

A única correspondência possível a este "dom tão inestimável" é um grande amor pela Santíssima Eucaristia, e um grande desejo de receber Jesus de coração purificado, pelo menos aos domingos, e se possível todos os dias, na comunhão sacramental.

Há também um gesto, uma atitude, sumamente expressiva, para a qual o Santo Padre Bento XVI tem chamado a atenção com grande insistência. É a atitude de "ajoelhar-se em adoração diante do Senhor". Entre outros momentos, e alguns muito recentes, Bento XVI, na homilia da festa do Corpo de Deus, em 2008, (onde aparece a expressão que há instantes citei), deixou-nos esta vibrante reflexão:

"Nós, cristãos, ajoelhamo-nos diante do Santíssimo Sacramento, porque sabemos e acreditamos que nele está presente o único Deus verdadeiro, que criou o mundo e o amou de tal modo que lhe deu o seu Filho único (cf. João 3, 16). Prostramo-nos diante de um Deus que foi o primeiro a inclinar-se diante do homem, como Bom Samaritano, para o socorrer e dar a vida, e ajoelhou-se diante de nós para lavar os nossos pés sujos". E continuou:

"Adorar o Corpo de Cristo significa crer que ali, naquele pedaço de pão, está realmente Cristo, que dá sentido verdadeiro à vida, ao imenso universo tal como à menor criatura, a toda a história humana e à existência mais breve".

É bom e sumamente benéfico e expressivo ajoelhar-se diante de Cristo na consagração e na comunhão.

Além de tudo o mais, disse ainda Bento XVI, "ajoelhar-se diante da Eucaristia é profissão de liberdade: quem se inclina a Jesus não pode e não deve prostrar-se diante de nenhum poder terreno, mesmo que seja forte" (ibid.)

Segundo o livro dos Provérbios, como ouvimos na 1ª leitura, a Sabedoria divina em pessoa mandou às suas servas, isto é, aos profetas, que fizessem a todos, "nos pontos mais altos da cidade", este convite: "Vinde comer do meu pão e beber do vinho que vos preparei".

Palavras sugestivas, que ganham um sentido muito mais urgente, quando o pão e o vinho se convertem, durante a celebração da Missa. no próprio Corpo e Sangue adoráveis de Jesus Cristo, nosso amado Salvador.

Que este convite encontre sempre em cada um de nós o eco de uma resposta agradecida, cheia de amor e de fé, e também de profunda adoração.

Com a amizade em Cristo
do Prior de Santa Maria de Belém
Cón. José Manuel dos Santos Ferreira

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