9 de Setembo de 2012 - XX Domingo do Tempo Comum

«Effetha, que quer dizer: Abre-te»

1. Um dia, trouxeram a Jesus "um surdo que mal podia falar, e suplicaram­Lhe que impusesse as mãos sobre ele". Este episódio passou-se no território da Decápole, que era uma região que ficava a leste do Jordão, composta por dez cidades (daí o nome «Decápole»). Na altura era um território pagão onde ainda se prestava culto aos falsos deuses. Por isso, este homem era surdo fisicamente, mas também, por ser pagão, era surdo espiritualmente: ao seu coração nunca tinha chegado o anúncio do Deus único e do seu amor.


Vê-se que Jesus sofre com a limitação física daquele homem, e também com a sua surdez à Palavra de Deus. Os que O acompanhavam, notaram que Jesus "suspirou", numa reacção muito humana, que revela desgosto e preocupação.

Mas também repararam neste pormenor importante: Jesus ergueu os olhos ao Céu, revelando que está em comunhão com o Pai. E tudo isto aconteceu longe da multidão, porque Jesus não andava à procura de aplausos nem de sucesso humano. Só lhe interessava salvar aquele homem, a quem tocou nos ouvidos e na boca, e a quem disse: "Effetha, que quer dizer: Abre-te". Effetha (ou ephpheta) é o imperativo do verbo aramaico que significa abrir. Como seJesus lhe dissesse: Abre-te à Palavra de Deus, abre-te a Deus!

Como comentou Bento XVI, "o evangelista conservou-nos a palavra aramaica original que Jesus então pronunciou, transferindo-nos assim directamente para aquele momento" (Homilia em Munique, 10 de Setembro de 2006).

2. S. Marcos reporta ainda noutras passagens a própria palavra ou frase aramaica que Jesus disse na ocasião. É o caso da frase: «Talitha, qum!", no episódio da ressurreição da filha de Jairo, que significa. "Menina, eu te ordeno, levanta-te", em Marcos 5,41); da palavra corban, que significa oferta, no contexto da discussão com os fariseus, em Marcos 7,11), e sobretudo da emocionante palavra abba, Pai, que ressoa na oração de Jesus no Jardim das Oliveiras, em Marcos 14,36.

Foi uma inspiração preciosa de S. Marcos! Este procedimento do Evangelista lembrou-me que seria bom não perdermos certas expressões originais da liturgia latina, mesmo quando é celebrada em vernáculo, isto é, na língua de cada país. O Concílio Vaticano II não pretendeu abolir o latim, como poderemos ver mais em pormenor noutra ocasião. E uma forma mínima mas já valiosa de seguir os seus ensinamentos seria conservar certas expressões ou diálogos, como por exemplo a saudação V: Dominus vobiscum. R: Et cum spiritu tuo; ou o diálogo antes do Evangelho; ou o diálogo antes do prefácio. Assim passaremos a fazer, habitualmente, nas nossas missas. Além de, pelo menos em algumas missas" cantar o Gloria ou até o Credo, o Sanctus, ou, naturalmente, o Kyrie, que não é latim, mas grego. Entre outras vantagens, está a de que muito mais pessoas, de outras línguas, sentirão que estão a rezar e a cantar na mesma língua!

Voltando ao Evangelho de hoje, a surdez física deste homem foi curada pelo poder de Jesus, mas a sua surdez espiritual também foi curada ao mesmo tempo. Graças a Jesus, este homem pagão conheceu o amor de Deus, o seu poder, a sua misericórdia, e seguramente tornou-se crente, abandonou os deuses, passou a viver um «culto racional», segundo a verdade.

O profeta Isaías, na 1ª leitura, fala de um tempo em que "se abrirão os olhos dos cegos e se desimpedirão os ouvidos dos surdos". Mas nós, à semelhança de Jesus, "suspiramos", e perguntamos: quando chegará esse tempo?

A resposta da fé é que esse tempo já chegou, em Jesus Cristo. Tinham razão os que diziam, depois daquele milagre de Jesus: "Tudo o quefaz é admirável: faz que os surdos oiçam e que os mudos falem".

Jesus tem muitos modos de continuar hoje a sua acção admirável no mundo, mas quer também continuá-la através de nós, apesar das nossas limitações e imperfeições. Existem muitos caminhos para o fazer, mas o mais habitual será imitar Jesus: afastando-nos da multidão e isolando-nos um pouco com aquele amigo, com aquele colega, como se o resto do mundo naquele momento não contasse, e interessando-nos pelas, suas dificuldades, ouvindo as suas perguntas, ou até as suas dúvidas, que muitas vezes escondem um desejo de escutar a voz de Deus e contemplar o rosto de Jesus vivo.

Além de ouvir, porém, temos de chamar, interpelar e acolher. Estamos no início de um novo ano pastoral. A catequese e os grupos juvenis, vão recomeçar em breve. Por isso, confio-vos esta missão: animar, convencer, entusiasmar as famílias vizinhas e amigas, para que as suas crianças, adolescentes e jovens frequentem a catequese e descubram a alegria da fé, na Igreja.

3. No rito mais antigo do baptismo, antes da renunciação a Satanás e da unção com o óleo dos catecúmenos" o sacerdote toca os ouvidos da criança, dizendo: "Effetha, quod est adaperire" ("Effetha, que quer dizer: Abre­te").

No rito actual, só há uma vaga alusão a este gesto e a estas palavras de Jesus, e somente depois do baptismo. Mas, no caso dos adultos, um dos ritos imediatamente preparatórios do baptismo, no Sábado Santo de manhã, é este: O celebrante, toca com o polegar no ouvido direito e no esquerdo e também na boca, fechada, de cada um dos eleitos, dizendo: «Effetha», quer dizer, abre-te, para professares a fé que ouviste, em louvor e glória de Deus!"

Todos nós fomos tocados por Jesus, sentimos a sua mão carinhosa pousada sobre nós e o poder da sua graça.

No altar da Eucaristia colocamos, por isso, este pedido: Senhor, que, pelas mãos do sacerdote, tocaste os meus ouvidos e a minha boca, faz-me capaz de ouvir sempre a tua voz.

E dá-me a graça de saber falar, para que as minhas palavras revelem a beleza da fé, e ajudem muitos ouvidos surdos ou corações fechados a aproximarem-se de Deus, para se abrirem à Palavra que ilumina e à tua graça que nos salva.

Com a amizade em Cristo
do Prior de Santa Maria de Belém
Cón. José Manuel dos Santos Ferreira

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