14 de Outubro de 2012 - XXVIII Domingo do Tempo Comum

O presente e o futuro

1. A 1ª leitura de hoje fala-nos de um homem, que, na sua oração, teria podido pedir a Deus muitas coisas, mas optou por pedir a Deus uma única coisa.

Este homem no livro dos Provérbios é identificado com o próprio rei Salomão! E o seu pedido foi um só: a sabedoria que vem de Deus. Achou que a sabedoria valia mais do que as riquezas, mais do que o ouro, mais até do que a saúde. E o seu pedido foi escutado: "Orei e foi-me dada a prudência; implorei, e veio a mim o espírito de sabedoria".

A sabedoria que Salomão pediu, não consiste em saber muitas coisas, mas sim em captar o sentido de todas as coisas. A sabedoria faz-nos descobrir aquilo "que confere sentido pleno à existência: o amor de Deus" (Bento XVI, Audiência geral de 11 de Abril de 2012).


Heinrich Hofmann (1824-1911), Jesus e o jovem rico (porm.)

Hoje, na Santa Missa, vamos pedir esta sabedoria a Deus, e então perceberemos com muita alegria o verdadeiro sentido de toda a nossa vida. E perceberemos também que amor de Deus, o conhecimento de Jesus Cristo, a comunhão com os outros na Igreja são a riqueza mais preciosa que algum dia poderíamos possuir. E não a queremos trocar por nada, e não queremos põr-nos em risco de a perder, porque então perderíamos tudo, e a nossa vida ficaria vazia e pobre, sem sentido.

2. No Evangelho de hoje aparece um outro homem - sabemos que era ainda um jovem, como refere S. Mateus (19, 16) - que faz a Jesus uma pergunta essencial: "Bom Mestre, que hei-de fazer para alcançar a vida eterna?"

E Jesus respondeu-lhe em dois momentos. Num primeiro momento, com simplicidade, lembrou-lhe os mandamentos, que são um caminho seguro para chegar ao Céu. E a seguir, vendo que o seu interlocutor se esforçava por agradar a Deus, Jesus, sentindo profunda afeição por ele, chamou-o para uma entrega total.

Mas nessa altura, quando Jesus lhe disse: "Vai vender o que tens, dá o dinheiro aos pobres e terás um tesouro no Céu. Depois, vem e segue-Me"; quando ouviu esta resposta de Jesus, "retirou-se pesaroso, porque era muito rico". Afastou-se triste e só, por estar preso aos seus bens, como aquelas aves apanhadas pelo petróleo que às vezes se derrama nos mares, com as asas pesadas e quebradas, que já não conseguem voar.

Como se chamava? Não sabemos. O seu nome não ficou no Evangelho. Mas a sua pergunta sim. A pergunta que este homem fez a Jesus, merece a pena ser feita por todos, porque não basta viver, não basta ter coisas, não basta fazer coisas, não basta ter algumas alegrias, algumas emoções, não basta ter alguns momentos felizes nesta vida. O mais importante, o que é absolutamente decisivo, é alcançar a vida eterna.

3. Esta vida é um caminho para a vida eterna. Quando alguém está na força da vida, com muito trabalho, com muitos projectos, com muitas ambições, é bom que se lembre da meta para onde caminha, e avalie se os seus passos e as suas opções, o encaminham para a vida eterna e feliz com Deus, ou para muito longe dela... Mas, se não caminhamos para Deus, para onde vamos? Se a corrida da vida não nos leva para a vida eterna com Deus, para onde nos leva? Se não nos leva para o Céu, só nos pode levar para o inferno!

E quando alguém já caminhou muito e, pela idade ou pela doença, já está mais perto da meta, olhe para ela com esperança e com grande confiança na misericórdia de Deus, e também com sincera contrição pelas suas faltas passadas, que, aliás, todos, em qualquerfase da vida, devemos ter também.

"A palavra de Deus é viva e eficaz", diz-nos a 2ª leitura, da Epístola aos Hebreus. "Não há criatura que possa fugir à sua presença: tudo está patente e descoberto a seus olhos. É a ela que devemos prestar contas". E o melhor é adiantá-las nesta vida, para comparecermos um dia sem temor na presença de Deus.

4. Voltando ao Evangelho, poderíamos perguntar? Mas quem é Jesus, para fazer a alguém um pedido como este? Quem é Jesus para propor a alguém que deixe tudo e O siga? Jesus tem esse direito? E nós teremos forças para fazer o que nos pede? Sim, Jesus é o Filho de Deus, o nosso Criador, o nosso Redentor: tudo o que nos peça, nunca será demais, é sempre pouco, quase nada em comparação com o amor que nos tem, e com o amor que Lhe devemos.

5. No passado dia 11 começou para toda a Igreja o Ano da Fé. Na Missa solene a que presidiu, Bento XVI sublinhou um aspecto que não contradiz o Evangelho de hoje, mas sublinha que, sem esquecer a vida do "mundo que há-de vir", como dizemos no Credo, temos de viver o momento presente com grande sentido de responsabilidade, porque "na fé ecoa o eterno presente de Deus, que transcende o tempo, mas que só pode ser acolhida no nosso hoje, que não torna a repetir-se".

"Por isso, concluiu Bento XVI, julgo que a coisa mais importante, especialmente numa ocasião tão significativa como a presente, será reavivar em toda a Igreja aquela tensão positiva, aquele desejo ardente de anunciar novamente Cristo ao homem contemporâneo".

Vamos aproveitar bem o tempo presente, que não se repete, para seguir Jesus, sem reservas, com todo o amor, e ajudar muitos outros a terem também a alegria de O procurar e encontrar, de O conhecer e amar, nesta vida breve e na vida eterna em Deus.

Com a amizade em Cristo
do Prior de Santa Maria de Belém
Cón. José Manuel dos Santos Ferreira

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