28 de Outubro de 2012 - XXX Domingo do Tempo Comum

"Crer é confiar"

1. o Evangelho de hoje revela-nos o que é a fé. O cego Bartimeu, quando soube que era Jesus que passava, começou a gritar: "Jesus, Filho de David, tem piedade de mim". Alguns quiseram que ele se calasse, mas Bartimeu gritou ainda mais.

E quando Jesus o chamou, "atirou fora a capa, deu um salto e foi ter com Jesus". Aquela capa era muito importante para ele. Era tudo quanto tinha para se abrigar de noite. Ninguém lha poderia tirar. Mas ele deixou-a, talvez para ser mais ágil no seu salto, e apresentou-se diante de Jesus despojado de tudo, na absoluta simplicidade da fé.

Nessa altura, Jesus disse-lhe apenas- "Vai, a tua fé te salvou". Então, Bartimeu deixou de ser cego, passou também a ver fisicamente, "e seguiu Jesus pelo caminho" .


Jerome Nadal (ed.), A cura do cego Bartimeu

Se tenho fé, procuro redescobri-la como "uma força transformadora

Bento XVI disse há dias: "Crer é confiar". Sim, "crer é confiar com toda a liberdade e com alegria no desígnio providencial de Deus na história, como fez o patriarca Abraão, como fez Maria de Nazaré. A fé, portanto, é um consentimento com o qual a nossa'mente e o nosso coração dizem o seu «sim» a Deus, confessando que Jesus é o Senhor. E este «sim» transforma a vida, abre a estrada para uma plenitude de significado, torna-a nova, rica de alegria e de esperança fiável".

Um pouco antes, Bento XVI já tinha explicado que a fé "é um acto com o qual confio livremente num Deus que é Pai e me ama; é aderir a um "Tu" que me dá esperança e confiança".

2. Mas este aderir a Deus, disse ainda o Papa, embora de momento não desenvolvesse muito essa ideia, "não é privado de conteúdo". Se eu adiro a Deus, quem é Deus? Onde encontramos o conteúdo próprio da fé?

O "conteúdo" essencial da fé está contido no Credo. O Papa já tinha sublinhado que "a verdade que nos foi transmitida fielmente, e que é luz para a nossa vida cotidiana está no Credo, na Profissão de Fé" (Audiência Geral de 17 de Outubro).

Por isso, a minha proposta, a partir de agora, será comentar e aprofundar o Credo, na sua forma mais breve, o "Símbolo dos Apóstolos".

Já agora, por que é que chamamos "Credo" a estes textos que resumem a fé professada pelos cristãos"? "Chamamos-lhes «Credo", pelo facto de normalmente começarem pela palavra: «Creio» [em latim: «Credo»]. Igualmente lhes chamamos «símbolos da fé»" (Catecísmoda Igreja Católica, n. 187).

E que significa aqui a palavra "símbolo"?

"A palavra grega «symbolon» significava a metade dum objecto partido (por exemplo, um selo), que se apresentava como um sinal de identificação. As duas partes eram justapostas para verificar a identidade do portador. O «símbolo da fé» é, pois, um sinal de identificação e de comunhão entre os crentes. «Symbolon» também significa resumo, colectânea ou sumário. O «símbolo da fé» é o sumário das principais verdades da fé. Por isso, serve de ponto de referência primário e fundamental da catequese" (Catecismo da Igreja Católica, n.188).

"A primeira «profissão de fé» faz-se por ocasião do Baptismo. O «símbolo da fé» é, antes de mais nada, o símbolo baptismal. E uma vez que o Baptismo é conferido «em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo» (Mateus 28, 19), as verdades da fé professadas por ocasião do Baptismo articulam-se segundo a sua referência às três pessoas da Santíssima Trindade" (Catecismo da Igreja Católica, n.189).

3. Entre todos os símbolos dafé, há dois que têm um lugar muito especial na vida da Igreja: "O Símbolo dos Apóstolos, assim chamado porque se considera, com justa razão, o resumo fiel da fé dos Apóstolos. É o antigo símbolo baptismal da Igreja de Roma. A sua grande autoridade vem-lhe deste facto: «É o símbolo adoptado pela Igreja romana, aquela em que Ped ro, o primeiro dos Apóstolos, teve a sua cátedra, e para a qual ele trouxe a expressão da fé comum,," (n. 194).

"O Símbolo dito de Nicela-Constantinopla deve a sua grande autoridade ao facto de ser proveniente desses dois primeiros concílios ecuménicos (dos anos de 325 e 381). Ainda hoje continua a ser comum a todas as grandes Igrejas do Oriente e do Ocidente" (n. 195).

A minha proposta é conhecer melhor toda a riqueza do Credo, recorrendo a uma das mais perfeitas exposições que sobre ele existem, o Comentário ao Símbolo dos Apóstolos, que S. Tomás de Aquino pregou em Nápoles, em 1273, um ano antes de morrer. "Para ouvir a palavra do Doutor Angélico, acorriam às igrejas de Nápoles os habitantes dessa agitada cidade medieval e os seus alunos universitários".

A sua linguagem é acessível, mas sempre de uma grande profundidade e riqueza, como em todas as suas obras.

Já não vai ser possível começar hoje, mas vou destacar somente os quatro bens que vêm da fé, como S. Tomás salienta:
   1) O primeiro bem é a união da alma com Deus.
   2) O segundo bem é este: pela fé é iniciada em nós a vida eterna.
   3) A vida presente é orientada pela fé: eis o terceiro bem.
   4) O quarto bem é que pela fé são vencidas as tentações

"Por essas razões fica provado que é muito útil ter fé", conclui S. Tomás.

Útil, sim, no mais pleno sentido da palavra, porque nos permite viver bem e chegar ao Céu!

E terminamos com palavras de Bento XVI: "O nosso tempo requer cristãos fascinados por Cristo, que cresçam na fé graças à familiaridade com a Sagrada Escritura e os Sacramentos. Pessoas que sejam como um livro aberto que narra a experiência da vida nova no Espírito, a presença daquele Deus que nos sustenta no caminho e nos abre à vida que nunca terá fim". Ámen.

Com a amizade em Cristo do
Cón. José Manuel dos Santos Ferreira
Pároco de Santa Maria de Belém

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