4 de Novembro de 2012 - XXXI Domingo do Tempo Comum

Creio em Deus, Pai todo-poderoso (I)

Vamos hoje começar a ler o comentário de S. Tomás de Aquino ao 1º artigo do Símbolo dos Apóstolos. Na próxima semana, juntaremos algumas reflexões. Quem desejar apresentar perguntas ou fazer alguma observação, faça-o, por favor, para poder ter em conta no próximo domingo.

1. «Entre todas as coisas que os fiéis devem crer, a primeira é que existe um só Deus. Convém, além disso, considerar o que significa este nome - Deus. Significa precisamente Aquele que governa e cuida de todas as coisas. Acredita, por conseguinte, na existência de Deus, quem acredita que todas as coisas deste mundo são por Ele governadas, e estão subordinadas à sua Providência.


S. Tomás de Aquino a ensinar

Mas quem pensa que todas as coisas se originam do acaso, não acredita na existência de Deus. Não há ninguém tão insensato que não creia que a natureza seja governada, que esteja submetida a uma providência e que tenha sido ordenada por alguém, vendo que tudo se processa a seu tempo, com ordem. Vemos o sol, a lua e as estrelas, e muitos outros elementos da natureza obedecerem a um determinado curso. Ora, isso não aconteceria, se tudo viesse do acaso. Eis porque seria um insensato o que não acreditasse na existência de Deus. Tal asserção é confirmada pelo salmista: "O insensato diz em seu coração: não há Deus" (Salmo 13,1).

Alguns há que acreditam que Deus governa e ordena as coisas naturais, mas não acreditam que Deus atinja, pela sua Providência, os actos humanos. Evidentemente pensam que os actos humanos não são ordenados por Deus. Porque vêem no mundo os bons sofrerem e os maus prosperarem, concluem que a Providência Divina não atinge os homens.

Falando por eles, disse Job: "Deus anda pelos caminhos do céu, mas não cuida de nós" (Job 22, 14). Afirmar tal coisa, é uma grande insensatez. Acontece com os que assim pensam, o que acontece àqueles que, vendo um médico dar a um doente água e a outro vinho, julgassem, no seu desconhecimento da medicina, que o médico estava a actuar ao acaso, e não por motivo ponderado.

O mesmo se diga de Deus. Por motivo justo e pela sua Providência, dispõe Ele as coisas necessárias para os homens, quando aflige alguns bons e permite que alguns maus prosperem.

Quem acreditasse que isso é obra do acaso, evidentemente deveria ser um insensato, como de facto é. Assim pensa, porque desconhece a maneira de Deus agir, e a razão pela qual dispõe as coisas. Lê-se também em Job: "Oxalá Ele te revele os segredos da sua sabedoria e a multiplicidade dos seus planos" (Job 11, 6). Por conseguinte deve-se crer firmemente que Deus governa e ordena as coisas naturais e também os actos humanos. Lê-se no Livro dos Salmos: "Disseram (os maus): Deus não vê. O Deus de Jacob não dá por isso. Compreendei agora, ó néscios! Ó estultos, até quando sereis insensatos? Aquele que fez os ouvidos, não ouvira? Aquele que fez os olhos, não vê? O Senhor conhece os pensamentos dos homens" (Salmo 103,7-10).

Deus vê todas as coisas, os pensamentos e os segredos das vontades dos homens. Já que tudo o que pensam e fazem está patente aos olhos de Deus, os homens, de modo muito especial, são obrigados a agir bem. Escreve S. Paulo aos Hebreus: "Tudo está a nu e descoberto aos seus olhos" (Hebreus 4,13)

2. Deve-se acreditar que este Deus que dispõe todas as coisas e as rege, é um só Deus. (...) Os homens são levados ao politeísmo por quatro motivos: O primeiro é a fraqueza da inteligência humana. Há homens, cuja fraqueza de inteligência não lhes permitiu ir além das coisas corpóreas, e, por isso, não acreditaram na existência de alguma natureza superior aos seres corpóreos.

Pensaram então que, entre aqueles seres corpóreos, os mais belos e mais dignos deveriam presidir ao mundo e dirigi-lo, e prestaram-lhes um culto divino. Consideraram como sendo os corpos mais sublimes, os astros do céu: o sol, a lua e as estrelas. (...)

O segundo motivo, é a adulação dos homens. Muitos desejando adular os reis e os senhores, tributaram­lhes a honra devida a Deus. Obedeceram-lhes e submeteram-se a eles. Houve quem os endeusasse após a morte, e houve os que os endeusaram também em vida. Lê-se na Escritura: "Todos saibam que Nabucodonosor é deus da terra, e que além dele outro deus não há" (Judite 5,29).

O terceiro motivo provém da afeição carnal para os filhos e parentes. Alguns, levados por excessivo amor pelos parentes, levantaram-lhes estátuas após a morte, e, assim foram conduzidos a prestar culto divino àquelas estátuas. É a eles que se refere a Escritura: "Ou por afecto ou para obsequiar os reis, os homens deram às pedras e à madeira o nome incomunicável" (Sabedoria 14, 21).

A quarta razão, pela qual os homens são levados a acreditar na existência de muitos deuses, é a malícia do diabo. Este, desde o início, quis ser igual a Deus: "Colocarei meu trono sobre as estrelas, subirei aos céus e serei semelhante ao Altíssimo" (Isaías 14, 13). Até hoje ele não desistiu dessa vontade. Por isso esforça-se o mais possível para que os homens o adorem e lhe ofereçam sacrifícios.

Não é que se compraza num cão ou num gato que lhe seja oferecido, mas deleita-se quando lhe é prestado o culto devido a Deus.

Por isso, disse o demónio a Cristo: "Dar-te-ei tudo isto, se prostrando-te, me adorares" (Mateus 4, 9).

Para que fossem adorados como deuses, os demónios entraram nos ídolos e por meio destes davam respostas.

Lê-se na Escritura: "Todos os deuses dos povos são demónios" (Salmo 95, 5). E S. Paulo diz: "Quando os gentios oferecem sacrifícios, fazem­no aos demónios, não a Deus" (1 Coríntios 10,20).

3. É muitíssimo desagradável a, consideração dessas quatro causas do politeísmo, mas representam realmente as razões pelas quais os homens acreditam na existência de muitos deuses.

Muitas vezes eles não manifestam pelas palavras ou pelo coração que acreditam em muitos deuses, mas pelo actos.

Aqueles que acreditam que os astros podem modificar a vontade dos homens, que para agir esperam certas épocas, naturalmente consideram os astros como deuses que dominam os outros seres e que fazem prodígios.

Por isso somos advertidos pela Escritura: "Não temais os sinais dos astros como temem os gentios, porque os seus costumes são vãos" (Jeremias 10, 2).

Também aqueles que obedecem aos reis, ou aos que não devem obedecer, mais do que a Deus, constituem a essas pessoas como os seus deuses. Adverte-nos também a Escritura: "Deve­se obedecer mais a Deus do que aos homens" (Actos 5, 29).

Assim também os que amam os filhos e os parentes mais que a Deus, revelam pelos actos que acreditam em muitos deuses.

Ou mesmo aqueles que amam mais os alimentos do que a Deus, aos quais se refere S. Paulo com estas palavras: "O seu deus é o seu ventre" (Filipenses 3,19).

4. Os que praticam a feitiçaria e se entregam aos sortilégios acreditam nos demónios como se eles fossem deuses, porque pedem aos demónios o que só se pode pedir a Deus, como sejam revelações e conhecimentos de coisas secretas ou futuras. Como tudo isso é falso, devemos acima de tudo acreditar que há «um só Deus»

Com a amizade em Cristo do
Cón. José Manuel dos Santos Ferreira
Pároco de Santa Maria de Belém

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