11 de Novembro de 2012 - XXXII Domingo do Tempo Comum

Contemplar o Criador

No Credo da Missa dizemos: "Creio em um só Deus, Pai todo-poderoso, Criador do Céu e da Terra, de todas as coisas visíveis e invisíveis". E no Símbolo dos Apóstolos diz-se: "Creio em Deus, Pai todo-poderoso, Criador do Céu e da Terra".

Acreditamos que Deus é o Criador "de todas as coisas" .

Isto não significa que Deus tenha feito tudo (materialmente). Por exemplo, esta Igreja dos Jerónimos onde estamos, foi construída por muitos operários, dirigidos por um arquitecto (ou por vários arquitectos). Não foi Deus que colocou as pedras nem esculpiu as colunas, como é óbvio...

Mas dizemos que Deus é Criador, em três sentidos:


Grande Inicial «I», de «In principio creavit Deus» (Génesis 1,1)
(Bíblia de Marquette - Museu J. P. Getty - séo. XIII)

1° - Porque fez que existissem realidades diferentes d'Ele. Podia só existir Deus e nada mais senão Deus, que existe desde toda a eternidade. Mas Deus quis que existissem outros seres, outras «coisas» que não são Deus nem se confundem com Deus:

a) Primeiro, realidades invisíveis, isto é, espirituais e pessoais, que são os Anjos.
b). Depois, realidades visíveis, a cuja totalidade chamamos «Universo». Neste imenso Universo (que é imenso mas não infinito...) apareceu a certa altura, porque Deus assim o quis, o Homem, que é um ser único, ao mesmo tempo material e espiritual. (Haverá outros seres como nós? Pelo menos, até agora não os conhecemos...).

2º - Porque dotou a criação material de leis que regulam e dirigem, desde o primeiro momento, a sua existência e o seu desenvolvimento.

3º - Porque sustenta no ser toda a realidade. Se deixasse de o fazer, tudo se «esvaía», e mergulhava no nada. Deus é o fundamento do ser ao nível do ser. Tudo depende de Deus quanto ao ser. É uma dependência total! Sem esta acção do Criador, não existiria qualquer ser fora de Deus!

2. Algumas pessoas pensam que o Universo se explica a si mesmo. Na verdade, conhecemos muitas leis da matéria, e a ciência consegue explicar muitos fenómenos, tanto à escala do imensamente grande como à escala do imensamente pequeno. Por exemplo, os cientistas falam da «fuga das galáxias», e também identificam as partículas elementares do átomo, como a mais recente a ser descoberta, a chamada «partícula de Deus».

É inegável que o Universo tem leis, que a ciência descobre, interpreta e procura explicar.

Mas não podemos fugir a esta questão: qual é a origem dessas leis físicas? Elas não podem: a) Ter início com o próprio Universo, porquetêm de ser, de algum modo anteriores a ele, para o poder originar ou dirigir; nem: b) Nem originar-se a si mesmas, porque nada pode ser causa e efeito de si mesmo.

Portanto, é necessário um Criador, que, ao criar o Universo, criou as leis que o regulam e dirigem.

3. Não há muito tempo ainda, (há cerca de dois anos), um físico e matemático inglês muito conhecido, publicou um livro em que diz que Deus já não é necessário para explicar o Universo, porque o Universo se criou ao si mesmo a partir do nada.

Seria possível responder em termos filosóficos que o nada não pode ser sujeito de uma acção, porque não existe, é nada... Para que algo seja sujeito de uma acção, já tem que existir. Mas, sejá existe,já não precisa de se criar...

Mas a verdade é que, para este conhecido físico inglês, chamado Stephen Hawking, o nada é «alguma coisa», é um determinado estado físico, não é o nada absoluto.

Um outro cientista explicou que o nada para Stephen Hawking é como uma conta bancária que está a zeros. A dada altura pode crescer e passar a ter um milhão de euros (o que seria óptimo...). Stephen Hawkingdiz que foi isso que aconteceu com o Universo. O «nada» flutuou, e tudo aconteceu.

Tudo bem... Também a tal conta pode crescer, (por exemplo recebendo juros de uma outra conta), mesmo que tenha estado a zeros...

Mas a primeira questão é saber quem abriu a conta, quem criou a conta: alguém a abriu, alguém a criou... Também o «nada» que «flutuou», alguém teve de o criar, para poder «flutuar», e poder originar essa imensa grandeza que é o Universo.

Portanto, é preciso um Criador, para explicar tanto o «nada» do Início (a que também se pode chamar caos Inicial) como a imensa totalidade, o grandioso e admirável Universo que hoje existe.

4. S. Tomás de Aquino, no sãc. XIII, comentando o Credo, escreveu com beleza e simplicidade: "Deves então acreditar que todas as coisas têm a origem num só Deus, que lhes dá a existência e a perfeição".

E já no séc. XXI, aliás ainda há bem poucos dias, disse Bento XVI que "o universo não é caos ou o resultado do caos, bem pelo contrário, revela uma complexidade bem ordenada", que «tem origem na Palavra criadora de Deus».

Foi o que afirmou o Papa ao dirigir-se na passada quinta-feira, dia 8 de Novembro, aos participantes na reunião plenária da Pontifícia Academia das Ciências.

E acrescentou que, graças ao conceito da criação o pensamento cristão conseguiu, não só investigar a realidade terrena, mas "passar da ordem criada à contemplação do seu Criador" .

Que pensamento tão belo: contemplar o Criador!

O mundo parece fechado a Deus, e muitas mentes parecem fechadas a Deus, mas nós desejamos ser capazes de contemplar o Criador, com muito amor e gratidão, e também com muita confiança, porque acreditamos que não nos abandona nunca, e em particular nas horas mais difíceis e nas provas pelas quais tenhamos de passar nesta vida.

Com a amizade em Cristo do
Cón. José Manuel dos Santos Ferreira
Pároco de Santa Maria de Belém

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