02 de Dezembro de 2012 - I Domingo do Advento

Os nossos primeiros pais

1. No discurso de S. Paulo em Atenas, lemos esta frase: Deus «fez, a partir de um só homem todo o género humano para habitar sobre toda a face da terra» (Actos 17, 26) (citado pelo Catecismo da Igreja Católica, n. 360).

Recordemos outros dois textos, ambos de S. Paulo, que falam de "um só homem" mas agora olhado como origem da situação pecadora da humanidade. No primeiro desses textos, da Epístola aos Romanos, lemos: "Por um só homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado a morte, assim a morte passou a todo o género humano, porque todos pecaram..." (Romanos 5,12; cf. 5,17-19). E no segundo, da 1ª Carta aos Coríntios, S. Paulo chama Adão a esses primeiro homem, e escreve: "Assim como a morte veio por um homem, também por um homem veio a ressurreição dos mortos. Assim como em Adão todos morrem, assim em Cristo todos voltarão à vida" (1 Coríntios 15,21-22).

Muitos documentos da Igreja, em especial os decretos da Sessão V do Concílio de Trento (que se reuniu entre 1543 e 1563), falam de Adão, de quem se diz que foi "constituído em santidade e justiça", quando foi criado por Deus, e expõem o significado e as consequências do seu pecado, a que a tradição chama "pecado original", e que é transmitido a todos os seus descendentes.

Mais recentemente, já no séc. XX, o Papa Paulo VI, no Credo do Povo de Deus, proferido em 30 de Junho de 1968, na solene conclusão do Ano da Fé, afirma, entre outras coisas, o seguinte: "Cremos que todos pecaram em Adão".


Lucas van Leyden. Adão e Eva (Expulsão do Paraíso) (1510)

Também o Catecismo da Igreja Católica se refere ao "primeiro homem" (n. 374), retoma a expressão: "os nossos primeiros pais" (n. 375), e fala das consequências da sua "queda para toda a humanidade (n. 397-406).

Todos estes textos se fundamentam nos capítulos 1 a 3 do livro do Génesis, onde lemos que os pais detoda a humanidade foram Adão e Eva, e também que o pecado de ambos afectou toda a sua descendência.

Qualquer pessoa poderia dizer, porém, que esta doutrina é claramente rejeitada pela ciência moderna, segundo a qual uma longa evolução conduziu à humanidade.

Em face dos dados da ciência, há bastantes pessoas que pensam que devemos abandonar esta doutrina, ensinada pela Igreja durante séculos, ou pelo menos que devemos adaptá-la. Mas isso não afetará todo o edifício da fé?

2. A questão é muito importante, e, para respondermos, o ponto de partida será perguntar: Que é o homem? Que é o ser humano? E resposta mais objectiva será, sem dúvida, que o ser humano é um animal racional.

Atenção, sendo racionais, também somos animais, e somo-lo na medida em que temos as típicas capacidades dos animais em geral: nutrição, crescimento, reprodução, sensação, apetite e locomoção. Estas são capacidades puramente materiais, e requerem órgãos corpóreos para o seu exercício.

Mas somos racionais, na medida em que possuímos inteligência e vontade. Estas são capacidades imateriais, e não dependem directamente de nenhum órgão do nosso corpo, embora dependam desses órgãos indiretamente.

A inteligência implica a capacidade de formular conceitos abstratos, como p. ex., o conceito de homem, ou de ser mortal, de os associar em pensamentos completos, como o pensamento de que todos os homens são mortais, e de raciocinar de uns para os outros de acordo com as leis da lógica, como neste «silogismo»: Todos os homens são mortais - Sócrates é homem - Sócrates é mortal...

Tudo isto está muito acima da sensação e da imaginação que partilhamos com os outros animais. Ora, o que nos torna capazes destas atividades imateriais, como por exemplo. pensar, é a nossa alma espiritual. Ela é capaz de subsistir para além da morte do corpo como uma substância incompleta. Por isso é que a alma humana não pode ter uma origem material. Na verdade, tem de ser directamente criada por Deus, sempre que um novo ser humano começa a existir.

3. Então, como surgiu o homem? Admitindo que tenha havido uma evolução física em relação ao homem, à luz da fé, podemos formular a hipótese de que, num grande grupo de «humanos» (ou melhor, «quase humanos») em sentido puramente biológico, houve um par que foi dotado por Deus de uma alma espiritual: e estes foram, em sentido metafísico e em sentido teológico, o primeiro homem e a primeira mulher. É a eles que a Sagrada Escritura dá os nomes, muito expressivos e belos, de Adão e Eva.

A partir daí, todos os descendentes de Adão receberão - como nós próprios recebemos ­ uma alma espiritual. É isso que nos faz humanos.

(Como se explica então que a população humana moderna tenha os genes de vários milhares de indivíduos? Esta é uma pergunta muito interessante, que abordarei no meu blog Ad te leva vi) (http://adtelevavi.blogspot.pt/).

4. Muitas pessoas perguntam se nós, afinal, descendemos de outros seres vivos mais primitivos, ainda não propriamente humanos? Descendemos «do macaco»?

Quanto aos nossos corpos é possível. Mas quanto às nossas almas, não. Só Deus poderia criar a alma humana.

Só Deus poderia criar o homem como o fez, dotando-o de uma alma espiritual, que o torna capaz de pensar e querer, e mais ainda de O conhecer e amar, de O servir e Lhe obedecer.

Neste 1º Domingo do Advento, alegramo-nos profundamente por podermos dizer, como no Intróito da Missa de hoje: "Adte leva vi animam meam: Deus meus, in te confido, non erubescam, Para Vós, Senhor, elevo a minha alma; meu Deus, em Vós confio. Não seja confundido, nem de mim escarneçam os inimigos. Não serão confundidos os que esperam em Vós" (Salmo 24 [25],1-3).

Elevamos a Deus a alma com que Ele próprio nos dotou, e com ela todo o nosso ser, também o nosso corpo, todo o nosso ser, desejando com amor acolher a sua presença e a sua vinda incessante a este mundo, no seu Filho, Jesus Cristo. Ámen.

Com a amizade em Cristo do
Cón. José Manuel dos Santos Ferreira
Pároco de Santa Maria de Belém

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