09 de Dezembro de 2012 - II Domingo do Advento

Crer no Filho de Deus (I)

Continuamos hoje a comentar o Credo, com o auxílio de S. Tomás de Aquino, no seu precioso comentário ao Símbolo dos Apóstolos. Vamos ler:

1. Não é somente necessário crerem os cristãos que existe um só Deus, e que Ele é Criador do céu, da terra e de todas as coisas, mas também é necessário crerem que Deus é Pai e que Jesus Cristo é seu verdadeiro Filho.

Esse mistério não é um mito, mas uma verdade certa e comprovada pela Palavra de Deus (...)

O próprio Jesus Cristo muitas vezes chama a Deus seu Pai, e, também Se denomina Filho de Deus.

Os Apóstolos e os Santos Padres colocaram entre os artigos de fé que Jesus Cristo é Filho de Deus, quando definiram este artigo do Credo: "E em Jesus Cristo seu Filho", isto é, Filho de Deus.


F. Francia, Nª. Srª com O Menino e S. João Baptista (1500)

2. Mas existiram alguns hereges que acreditaram de um modo perverso nessa verdade de fé. Fotino (+ 376), um deles, declarou que Cristo não é filho de Deus a não ser como os outros homens bons o são, os quais, por viverem bem, merecem ser chamados filhos de Deus por adopção, enquanto fazem a vontade de Deus. (...)

Cometeu Fotino dois erros: um, porque não disse que Ele era Filho de Deus segundo a natureza; o outro, porque disse que Ele começou a existir, conforme todo o seu ser, no tempo, enquanto a nossa fé afirma que Ele é por natureza Filho de Deus e eterno. Ora, essas duas verdades encontram-se claramente expressas na Sagrada Escritura, opostas que são ao que ele afirma.

Contra o primeiro erro, declara a Escritura que Jesus Cristo não só é Filho de Deus, mas também Filho Unigénito: "O Unigénito que está no seio do Pai é que O fez conhecido" (João 1,18). Contra o segundo, lê-se: "Antes de Abraão existir, eu já existia" (João 8,58). Ora, é certo que Abraão existiu antes da Virgem Maria.

Por esse motivo, os Santos Padres acrescentaram, noutro símbolo, contra o primeiro erro: "Filho de Deus Unigénito"; e, contra o segundo: "nascido do Pai antes detodos os séculos" .

3. Sabélio (séc. II), embora tivesse dito que Cristo existiu antes da Virgem Maria, afirmou que a Pessoa do Pai era a mesma que a do Filho, e que o próprio Pai encarnou. Desse modo, a Pessoa do Pai seria a mesma que a do Filho. Mas isso é um erro, porque destrói a trindade das Pessoas. Contra esse erro, há a autoridade do Evangelista S. João, que nos relatou as palavras do próprio Cristo: "Não sou Eu só; sou Eu e o Pai que me enviou" (Jo 8,16).

Ora, é evidente que ninguém pode ser enviado por si mesmo. Eis porque Sabélio errou. Acrescentou-se por isso, no Símbolo dos Concílios de Niceia e Constantinopla: "Deus de Deus, luz de luz"; isto é, Deus Filho de Deus Pai; o Filho é luz,luzque procede do Pai, que também é luz. É nessas verdades que devemos crer.

4. Ario (+ 336), embora tivesse afirmado que Cristo existira antes da Virgem Maria e que era uma a Pessoa do Pai, outra, a do Filho, atribuiu, ao ser de Cristo, três erros: primeiro, que Cristo foi criatura; segundo, que Ele foi feito por Deus como a mais nobre das criaturas, não desde a eternidade, mas no tempo; terceiro, que não havia uma só natureza de Deus Filho com Deus Pai, e, por esse motivo, Cristo era verdadeiro Deus.

Tais afirmações são evidentemente erróneas por que contrárias à autoridade da Sagrada Escritura. Lê-se no Evangelho de S. João: "Eu e o Pai somos um" (João lO, 30), isto é, pela natureza. Ora, como o Pai sempre existiu, do mesmo modo o Filho; como o Pai é verdadeiro Deus, assim também o Filho.

Em oposição à afirmação de Ario, isto é, de que Cristo é criatura, está declarado no Símbolo dos Concílios de Niceia e Constantinopla: "gerado, não criado (=não feito)". Contra o erro propalado de que Ele não era da mesma substância do Pai, foi acrescentado no Símbolo: "consubstancial com o Pai".

Está, pois, esclarecido porque devemos crer que Cristo é o Filho Unigénito de Deus, e verdadeiro Filho de Deus; que sempre existiu com o Pai; que uma é a Pessoa do Filho, outra, a do Pai; que Ele tem uma só natureza com o Pai. Cremos nessas verdades, aqui, pela fé; conhecê-las-emos, porém, na vida eterna, por uma perfeita visão.

E agora segue-se ponto muito importante: por que é que ao Filho de Deus se chama Verbo? Vamos deixar este ponto para o próximo domingo.

Mas já que S. Tomás fala de visão, deixo-vos um poema de um monge oriental do séc. XI, chamado S. Simeão o novo teólogo, que se liga com a festa de ontem, e nos convida a ver Jesus. [Diz Cristo:]

«Quando criei Adão, permiti-lhe que Me visse
e por isso que ficasse colocado na dignidade dos anjos. [...]

Ele via tudo o que Eu havia criado com os seus olhos corpóreos,
mas com os da inteligência via o Meu rosto, o rosto do seu Criador.

Contemplava a Minha glória e conversava Comigo o tempo todo.

Mas quando, transgredindo as Minhas ordens, provou da árvore,
ficou cego e caiu na obscuridade da morte. [...]
Mas Eu tive piedade dele e vim lá do alto,
Eu, o absolutamente invisível,
partilhei a opacidade da carne.

Recebendo da carne um começo, tornado homem, fui visto por todos.

Por que aceitei fazer isso?

Porque esta era a verdadeira razão para ter criado Adão: para Me ver.

Quando ele ficou cego e, na sequência dele, todos os seus descendentes,
não suportei permanecer na glória divina e abandonar [...]
aqueles que criara com as Minhas mãos: mas tornei-Me semelhante em tudo aos homens,
corporal com os corporais,
e uni-Me a eles voluntariamente.

Por aqui podes ver o Meu desejo de ser visto pelos homens. [...]

Como podes então dizer que Me escondo de ti, que não Me deixo ver?

Na verdade, Eu brilho, mas tu não olhas para Mim"

(São Simeão, o Novo Teólogo (c. 949-1022). Hino 53 (a partir da tradução de Sources Chrétiennes. vol. 196. pp. 221ss).

Que o seu desejo de ser visto pelos homens possa ser correspondido, neste Advento, pelo nosso desejo de O olhar, de O ver, de O contemplar e de O anunciar.

Com a amizade em Cristo do
Cón. José Manuel dos Santos Ferreira
Pároco de Santa Maria de Belém

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