23 de Dezembro de 2012 - IV Domingo do Advento

Et Incarnatus Est

1. Nós temos palavras silenciosas, que são os nossos pensamentos, que às vezes se ouvem, quando falamos, e outras vezes até as escrevemos em papel ou noutros suportes, e assim é possível guardá-las, quase tocá-las...


M. Alderman, Verbum caro factum est (2009)

Também em Deus há um pensamento silencioso, o seu Verbo eterno, que é o Filho de Deus, gerado pelo Pai. O Verbo de Deus, o seu pensamento eterno e silencioso, seria sempre para nós inteiramente inacessível, a não ser pelas suas obras, mas um dia pôde ser ouvido, pode ser escutado, e até ser visto pelos homens! S. Tomás de Aquino, no seu Comentário ao Símbolo dos Apóstolos, explica:

    "O Verbo de Deus não era conhecido senão pelo Pai, enquanto estava no seio do Pai. Mas logo
    que se revestiu da carne, tal como o verbo se reveste da voz, tornou-se manifesto e conhecido.
    Lê­se na Escritura: «Depois disso foi visto na terra, e conviveu com os homens" (Baruc 3,38)".

O Verbo de Deus foi ouvido e visto, mas além disso foi também "tocado", como acontece de certo modo com as palavras que escrevemos:

    "Assim também - escreve S. Tomás - o Verbo de Deus tornou-se visível e palpável, quando foi,
    de certo modo, escrito na nossa carne...".

O Verbo de Deus fez-Se carne, fez-Se homem, e começou por ser um Menino recém-nascido. Dentro de poucos dias vamos celebrar o Natal, e em todas as missas, quer da noite, quer da aurora, quer do dia, iremos ajoelhar às palavras do Credo:

ET INCARNATUS EST DE SPIRITU SANCTO EX MARIA VIRGINE: ET HOMO FACTUS EST.
E ENCARNOU PELO ESPíRITO SANTO, NO SEIO DA VIRGEM MARIA, E SE FEZ HOMEM.

"O Verbo fez-Se carne e habitou entre nós", escreve S. João (1,14). Como diz o Símbolo dos Apóstolos, "foi concebido pelo poder do Espírito Santo; nasceu da Virgem Maria".

2. Que benefícios tiramos da Encarnação do Filho de Deus? Grandes benefícios, como são principalmente os seguintes:

1. "Confirma-se a nossa fé". Conhecemos muito mais perfeitamente quem é Deus, como diz S. João: "A Deus, nunca ninguém O viu. O Filho Unigénito, que está no seio do Pai, é que O deu a conhecer" (João 1, 18). Por isso, "muitos mistérios da fé, que antes estavam velados, nos foram revelados após a vinda de Cristo".

2. "Eleva-se a nossa esperança". Ao fazer-Se homem, o Filho de Deus efectuou "uma certa troca, ou seja, assumiu um corpo com uma alma, e dignou-se nascer da Virgem, para nos fazer o dom da sua divindade; fez-Se homem, para fazer o homem, Deus". Extraordinária consequência! E pensar que, por vezes: os homens fazem tudo para se tornarem animais! Mas o nosso destino e a nossa glória, como diz S. Paulo, está "na esperança da glória dos filhos de Deus" (Romanos 5,2).

3. "Inflama-se a caridade". S. João não se cansa de nos lembrar que "Deus amou tanto o mundo que entregou o seu Filho Unigénito" (João 3, 16). "Portanto, por esta consideração, se deve reacender e inflamar o nosso amor para com Deus".

4. "Em quarto lugar, para conservação da pureza de nossa alma". A natureza humana foi elevada à união com uma Pessoa divina. A Encarnação do Filho de Deus deu à humanidade uma dignidade inaudita. "O homem, pois, reconsiderando e atendendo à sua própria exaltação, deve perceber como se degrada e avilta a si e à sua natureza, pelo pecado".

5. "Em quinto lugar - conclui S. Tomás - a meditação dos mistérios da Encarnação aumenta em nós o desejo de nos aproximarmos de Cristo". E usa uma comparação: "Se alguém, irmão de um rei, estivesse longe dele, naturalmente desejaria aproximar-se dele, estar com ele, permanecer junto dele. Ora, sendo Cristo nosso irmão, devemos desejar estar com Ele e unirmo-nos a Ele. (...) S. Paulo desejava partir para estar com Cristo: esse desejo cresce também em nós pela consideração do mistério da Encarnação".

3. Às vezes fala-se da actual crise económica, como se fosse a pior calamidade que alguma vez nos poderia acontecer, mas isso é de um grande irrealismo, como se não tivesse havido ou não possa vir a haver crises muito maiores! Há que relativizar a crise, sem esquecer, evidentemente, os que ela possa afectar mais gravemente, sobretudo os doentes, os idosos, as pessoas sem trabalho, e que é preciso ajudar e apoiar.

Mas que ninguém cometa o erro de celebrar o Natal mais tristemente, só por causa da crise. Mesmo com dificuldades, é possível ter um Natal feliz e alegre. Veja-se a alegria de Nossa Senhora, quando rapidamente se pôs a caminho, ao encontro de Isabel, que estava para ser mãe. E veja-se a alegria daquele que viria a ser S. João Baptista, então ainda no seio de Isabel, tocado pela presença oculta do Salvador, no seio de Maria, sua Mãe...

Também nós, levando Jesus no coração, podemos transmitir aos outros a alegria do seu Santo Nascimento!

Vamos viver um Natal cristão, na simplicidade e na alegria, no ambiente unido e caloroso das nossas famílias e na assembleia sagrada e festiva da grande Igreja. Nas poucas horas que restam, que não fique ninguém sem receber o perdão de Deus na Confissão, para poder fazer da sua alma o presépio vivo do Verbo Encarnado, do Filho de Deus feito homem.

Com a amizade em Cristo do
Cón. José Manuel dos Santos Ferreira
Pároco de Santa Maria de Belém

Blog  Ad te levavi
Arquivo