30 de Dezembro de 2012 - Sagrada Família de Jesus, Maria e José

Jesus Menino

A festa de hoje convida-nos a reflectir em primeiro lugar sobre Maria, Nossa Senhora, e S. José. Mas depois iremos também olhar para o próprio Jesus Cristo, partilhando e aprofundando a admiração e a surpresa que experimentaram, no Templo, os doutores da Lei, "com a sua inteligência e as suas respostas" (Lucas 2, 47).

Comecemos por Nossa Senhora, e S. José. O Evangelho de S. Lucas chama-lhes hoje repetidamente: "os pais de Jesus". A Virgem Maria e S. José foram, em muitos aspectos, um casal normal, como muitos outros.

No entanto, não foram pais do mesmo modo que os outros casais humanos. O seu filho constituiu um dom no sentido mais absoluto da palavra: gerado pelo poder de Deus, fruto da fecundidade divina.

Cada criança é um dom; mesmo quando é frágil, é um dom admirável, fascinante. Como é possível tratar mal uma criança, ou não a deixar desenvolver-se, não a deixar nascer, não a deixar crescer? Cada novo ser humano, gerado na união dos seus pais, faz-nos sentir o poder criador de Deus, fonte de vida.

Os Evangelhos de S. Mateus e S. Lucas, porém, testemunham, cada um a seu modo, que Jesus foi gerado e nasceu por puro dom de Deus, que Maria acolheu no seu coração e em todo o seu ser. Jesus não foi gerado por um homem, mas pelo poder de Deus, e foi acolhido, de um modo livre e consciente, pela pura disponibilidade virginal de Maria.

E S. José, que não foi pai segundo a carne, foi, no entanto, pai segundo o coração, porque reconheceu e tomou a seu cuidado o fruto da fecundidade de Deus, que fez de Maria, sua esposa, a Mãe do Filho do Altíssimo.

Maria e Joséforam um casal unido. e quem os unia, mais do que o seu afecto recíproco, era o próprio Jesus, razão de ser absoluta da vida de ambos.

Por consequência, José "não a conheceu", como diz S. Mateus (1, 25), isto é, nunca se uniram fisicamente para exprimir o seu amor nem para gerar novos filhos, como é próprio dos casais humanos. Não tinha sentido unirem-se desse modo nem desejar outros filhos. A presença de Jesus Cristo, Filho de Deus, bastava em absoluto para unir a Virgem Maria e S.José, que faziam um só no Corpo de Cristo.

2. Maria e José foram um casal contemplativo, que nunca perdeu a noção do mistério que os envolvia. Viveram como pessoas normais, e sem abandonar nenhuma das suas obrigações sociais, mas nunca viveram uma vida banal. Foram contemplativos do mistério revelado em Jesus. Contemplativa foi, sobretudo, a Virgem Santa Maria, como diz S. Lucas: "Sua Mãe guardava todos estes acontecimentos em seu coração" (2,51).

Guardava e aprofundava, nada esquecia e tudo saboreava na luz da fé. É este o segredo de qualquer casal que quiser crescer no amor, na fidelidade e na alegria: não perder a consciência da presença de Deus na sua vida e do mistério que otranscende. E sobre esse mistério que a sua vida se constrói.

A tendência que se tem acentuado nos últimos tempos por parte de alguns casais para viverem em «união de facto», sem se casarem, é errada, porque é uma forma de viver em que só os dois contam. Aí o mistério não entra. Só existem os dois, Deus não conta. Não há nada maior do que eles próprios a uni-los. É um isolamento empobrecedor, e muito mais quando se trata de fiéis cristãos.

Mas também os casais unidos pelo sacramento do matrimónio precisam de guardar no coração e no espírito a certeza de que "este mistério é grande", como diz S. Paulo. E precisam de olhar sempre para além de si próprios, para Deus, fundamento do amor e fonte de vida. E então perceberão sempre quem são, e como devem viver, como devem agir, para construir a felicidade e aprofundar a alegria. Quem é contemplativo, vive fascinado, nunca se cansa, nunca desanima, nunca desiste, porque Deus é sempre maior.

3. Para avaliar o agir é preciso perceber o ser. Quem somos? Sabemos quem somos? Jesus sabia quem era. No Templo, aqueles que O ouviam "estavam surpreendidos com a sua inteligência e as suas respostas" (Lucas 2,47). E não era só uma questão de saber muitas coisas. Jesus sabia quem era, e que tinha de estar "na casa do Pai" (Lucas 2,49). Sabia também perfeitamente qual era a missão que o Pai Lhetinha confiado. Deste seu saber dependeu sempretudo o que disse etudo o que fez.

E sabia-o desde sempre, como nos ensina a Igreja.O Papa Pio XII disse-o de um modo muito belo na Encíclica Mystici Corporis (de 29 de Junho de 1943): "O Filho unigénito de Deus já antes do princípio do mundo nos abraçou no seu infinito conhecimento e eterno amor. Amor que ele demonstrou palpavelmente e de modo verdadeiramente assombroso assumindo a nossa natureza em unidade de pessoa" (n. 74).

E também desde o primeiro instante da sua vida terrena nos conheceu e amou:

"Esse amorosíssimo conhecimento que o divino Redentor de nós teve desde o primeiro instante da sua encarnação, excede tudo quanto a razão humana pode alcançar; pois que Ele, pela visão beatifica de que gozou apenas concebido no seio da MãeSantíssima, tem continuamente presente todos os membros do seu corpo místico e a todos abraça com amor salvífico.

"Ó admirável condescendência da divina bondade para connosco! Ó inconcebível ordem da imensa caridade! No presépio, na cruz, na glória sempiterna do Pai, Cristo vê e abraça todos os membros da Igreja muito mais claramente, com muito maior amor do que a mâe ao filho que tem no regaço, do que cada um de nós se conhece e ama a si mesmo" (n. 75).

Jesus recém-gerado no seio materno, Jesus recém-nascido, Jesus Menino, Jesus adolescente, Jesus na sua vida oculta em Nazaré, já nos ama a todos, como se tornará patente depois na vida pública, na sua Paixão e morte, e por fim na sua gloriosa ressurreição e ascensão aos Céus.

4. Voltaremos a este tema noutro momento, mas deixemo-nos tocar hoje, em plena oitava do Natal, por esta verdade que decorre do mistério da Encarnação e do Nascimento do Filho de Deus. Como é consolador olhar para Jesus Menino, e saber que já então me conhece, me compreende e me ama!

Contemplando os mistérios da Infância do Salvador, gostaremos hoje de rezar:

Oh! dulcíssimo Menino Jesus, conduzido a Jerusalém à idade de doze anos, procurado com dor pelos vossos Pais, e depois de três dias encontrado com sumo alegria no templo entre os Doutores, tende piedade de nós.

Glória a Vós, Menino Jesus, da Virgem Mãe nascido, e ao Pai e ao Santo Espírito pelos séculos dos séculos. Ámen.

Com a amizade em Cristo do
Cón. José Manuel dos Santos Ferreira
Pároco de Santa Maria de Belém

Blog  Ad te levavi
Arquivo