3 de Fevereiro de 2013 - Domingo IV do Tempo Comum

O tesouro da Igreja


Cristo recebe as almas vindas do Purgatório

1. O Ano da Fé, proclamado pelo Papa Bento XVI, teve início no dia 11 de Outubro e concluir-se-á a 24 de Novembro de 2013. Trata-se de uma oportunidade para "comemorar o dom precioso da fé" (Carta Porta Fidei, 8).

Para ajudar a alcançar esse objectivo, no dia 14 de Setembro de 2012, a Penitenciaria Apostólica emanou um Decreto, através do qual o Papa Bento XVI concede especiais indulgências, "a fim de que os fiéis sejam mais estimulados ao conhecimento e ao amor pela doutrina da Igreja católica e obtenham dela frutos espirituais mais abundantes".

2. "Para compreender esta doutrina e esta prática da Igreja, deve ter-se presente que o pecado tem uma dupla consequência. O pecado grave priva-nos da comunhão com Deus e, portanto, torna-nos incapazes da vida eterna, cuja privação se chama «pena eterna» do pecado. Por outro lado, todo o pecado, mesmo venial, traz consigo um apego desordenado às criaturas, o qual precisa de ser purificado, quer nesta vida quer depois da morte, no estado que se chama Purgatório. Esta purificação liberta do que se chama «pena temporal» do pecado. Estas duas penas não devem ser consideradas como uma espécie de vingança, infligida por Deus, do exterior, mas como algo decorrente da própria natureza do pecado. Uma conversão procedente duma caridade fervorosa pode chegar à total purificação do pecador, de modo que nenhuma pena subsista (Catecismo da Igreja Católica, n. 1472).

"O perdão do pecado e o restabelecimento da comunhão com Deus trazem consigo a abolição das penas eternas do pecado. Mas subsistem as penas temporais" (Catecismo da Igreja Católica, n. 1473), das quais o fiel é chamado a purificar-se aceitando os sofrimentos e as provações da vida, incluindo a própria morte, epraticando obras de misericórdia e de caridade, a penitência e a oração (cf.ibid).

O pecado implica uma culpa e uma pena. Essas não procedem de uma sentença divina, mas estão relacionadas com a mesma natureza do pecado. A culpa é o mal moral do qual o pecador é responsável e imputável.

A pena é a dívida de castigo e reparação que o mal cometido comporta.

Com o sacramento da Confissão ou Reconciliação, são remidas a culpa e a pena eterna (a privação da vida eterna), não a pena temporal.

A pena temporal está relacionada com as consequências negativas do pecado que afectam a própria pessoa, a comunidade humana e a realidade inteira, de tal forma que deixa no pecador uma dívida de reintegração que pode ser satisfeita através da conversão, da reconciliação, da devolução, da reparação, da satisfação, da purificação, da penitência e da oração.

Isso pode acontecer quer nesta vida, quer depois da morte, no estado que se chama Purgatório. O sacramento não apaga esta dívida, mas apresenta-a diante da consciência e entrega-a à liberdade do penitente, para que ele assuma as consequências do pecado, procurando a expiação e a renovação. Essa purificação liberta o penitente das penas temporais do pecado.

3. 0 que é, então, a indulgência? Lemos no Catecismo da Igreja Católica: "«A indulgência é a remissão, perante Deus, da pena temporal devida aos pecados cuja culpa já foi apagada; remissao que o fiel devidamente disposto obtém em determinadas condições, pela acção da Igreja, a qual, enquanto dispensadora da redenção, distribui e aplica por sua autoridade o tesouro das satisfações de Cristo e dos santos» (Paulo VI, Constituição Apostólica Indulgentiarum doctrina, Normae, 1).«A indulgência é parcial ou plenária, consoante liberta parcialmente ou na totalidade da pena temporal devida ao pecado» (Paulo VI, Constituição Apostólica Indulgentiarum doctrina, Normae, 2). «O fiel pode lucrar para si mesmo as indulgências [...], ou aplicá-las aos defuntos» (Código de Direito Canónico, can. 994)".

Prossegue o Catecismo da Igreja Católica:

"O cristão que procura purificar-se do seu pecado e santificar-se com a ajuda da graça de Deus, não se encontra só. «A vida de cada um dos filhos de Deus está ligada de modo admirável, em Cristo e por Cristo, à vida de todos os outros irmãos cristãos. na unidade sobrenatural do corpo Místico de Cristo, como que numa pessoa mística» (Paulo VI, Constituição Apostólica Indulgentiarum doctrina, 5) " (n. 1474). "Na comunhão dos santos, «existe. portanto, entre os fiéis - os que já estão na pátria celeste, os que foram admitidos à expiação do Purgatório, e os que vivem ainda peregrinos na terra - um constante laço de amor e uma abundante permuta de todos os bens» (Paulo VI, Constituição Apostólica Indulgentiarum doctrina, 5). Nesta admirável permuta, a santidade de um aproveita aos demais, muito para além do dano que o pecado de um tenha podido causar aos outros Assim. o recurso à comunhão dos santos permite ao pecador contrito ser purificado mais depressa e mais eficazmente das penas do pecado" (n 1475).

4. "A estes bens espirituais da comunhão dos santos também lhes chamamos o tesouro da Igreja, «que não é um somatório de bens, como quando se trata das riquezas materiais acumuladas no decurso dos séculos, mas sim o preço infinito e inesgotável que têm junto de Deus as expiações e méritos de Cristo, nosso Senhor, oferecidos para que a humanidade seja liberta do pecado e chegue à comunhão com o Pai. É em Cristo, nosso Redentor, que se encontram em abundância as satisfações e os méritos da sua redenção> (Paulo VI. Constituição Apostólica Indulgentiarum doctrina, 5). (n.1476)

«Pertencem igualmente a este tesouro o preço verdadeiramente imenso, incomensurável e sempre novo que têm junto de Deus as orações e boas obras da bem-aventurada Virgem Maria e de todos os santos, que se santificaram pela graça de Cristo, seguindo as suas pegadas, e que realizaram uma obra agradável ao Pai: de modo que, trabalhando pela sua própria salvação, igualmente cooperaram na salvação dos seus irmãos na unidade do corpo Místico» (Paulo VI, Constituição Apostólica Indulgentiarum doctrina, 5)" (n. 1467)

A Igreja sempre ensinou que não existe qualquer automatismo que permita obter a indulgência, sem que aconteça uma verdadeira conversão, um sincero afastamento do pecado e um verdadeiro arrependimento dos pecados cometidos e confessados. "A Igreja esteve sempre. desde a antiguidade. profundamente convencida de Que o perdão. concedido gratuitamente por Deus, implica como consequência uma real mudança de vida. uma eliminação progressiva do mal interior, um renovamento da nossa existência" (João Paulo II, Bula Incarnationis mysterium, 1998. n. 9).

Com a amizade em Cristo do
Cón. José Manuel dos Santos Ferreira
Pároco de Santa Maria de Belém

Blog  Ad te levavi
Arquivo