10 de Fevereiro de 2013 - Domingo V do Tempo Comum

A experiência da santidade de Deus

1. Lemos hoje um texto de Isaías (Isaías 6,1­2a.3-8) em que o profeta relata a experiência extraordinária da transcendência de Deus que teve no Templo de Jerusalém. Diante de Deus, que Isaías vê "sentado num trono alto e sublime", os Anjos­chamados "Serafins", palavra que indica o seu amor "ardente" - cantam: " «Santo, santo, santo é o Senhor do Universo. A sua glória enche toda a terra!»" .

Também hoje, na Liturgia Eucarística, tanto católica como ortodoxa, no fim do Prefácio, existe um canto inspirado em Isaías, mas com uma diferença: ao passo que em Isaías os Serafins falam de Deus na terceira pessoa, nós dirigimo­nos a Deus, dizendo: "Santo, Santo, Santo, Senhor Deus do universo, o Céu e a Terra estão cheios da Vossa glória".


Rafael, A pesca milagrosa (1515)

E quando termina o canto do Sanctus (e do Benedictus, que o completa) começa o Cânon ou Oração Eucarística, proferida apenas pelo sacerdote, em que se invoca a bênção de Deus sobre a oferenda dos fiéis, e o pão e o vinho são consagrados no Corpo e Sangue de Cristo.

O canto do Sanctus já nos prepara para a grandeza dos mistérios que vamos celebrar. Estamos na presença de Deus, uno e trino, acompanhados pelos Anjos, e no altar vai ser renovado misticamente o sacrifício da Cruz. É importante que possamos fazer a experiência da santidade de Deus, que nos envolve sempre e em toda a parte, mas que a experimentamos especialmente quando celebramos os santos mistérios na liturgia da Missa.

Isaías sentia-se pequeno e indigno, diante da santidade de Deus. A consciência da sua indignidade leva-o a exclamar: "Ai de mim, que estou perdido, porque sou um homem de lábios impuros... "Mas houve um "Serafim" que o purificou, tocando-lhe os lábios, simbolicamente, com um carvão ardente, e tornando-o assim apto a vir a falar de Deus. E foi então que Isaías escutou a voz do Senhor, que perguntava: " «Quem enviarei? Quem irá por nós?» "Nesse momento, Isaías venceu definitivamente o medo, e respondeu com grande confiança: "«Eis-me aqui: podeis enviar-me»".

2. Se passarmos agora para o Evangelho, encontramos um ambiente totalmente diferente, mas o final é muito semelhante. Jesus, com muita gente à sua volta, tinha subido para um barco, à beira-mar, a, depois afastou-Se ligeiramente da margem, e daí foi ensinando toda aquelas pessoas, que provavelmente se devem ter sentado na areia da praia.

Quando terminou, Jesus achou que era tempo de os seus amigos irem pescar, apesar do insucesso da noite anterior. Por isso, deu a S. Pedro esta ordem: "«Faz-te ao largo, e lançai as redes para a pesca» ".

S. Pedro começa por responder a Jesus: "«Mestre, andámos na faina toda a noite, e não apanhámos nada» " No entanto, acrescenta logo, com grande confiança em Jesus: "«Mas,já que o dizes, lançarei as redes»". S. Pedro tinha razão em confiar: foi uma pesca verdadeiramente milagrosa. Esta pesca muito abundante simboliza a futura missão da Igreja, e foi para os discípulos um forte sinal do poder de Jesus, mas também levou S. Pedro a sentir-se indigno de estar na presença do Senhor.

Mas Jesus disse-lhe: " «Não temas. Daqui em diante serás pescador de homens» ", isto é, vais cativá-los, para uma vida diferente. E eles, "tendo conduzido os barcos para terra, deixaram tudo e seguiram Jesus" . Também hoje são necessários apóstolos de dedicação exclusiva, sobretudo sacerdotes dispostos a ajudar os outros irmãos a crescer a fé, e também missionários disponíveis para ir até ao fim do mundo.

Mas também os cristãos que se santificam no trabalho e na vida de família têm de ser mais ousados no seu apostolado, «inventando» modos de transmitir aos outras a alegria de conhecer Jesus Cristo, a certeza da sua presença, a força da sua amizade, que transforma a vida e lhe dá sentido.

3. S. Paulo transmite-nos, na 2ª leitura, um precioso testemunho da ressurreição de Jesus, a que devemos dar a nossa maior atenção. Há tempos, um eclesiástico que escreve no «Diário de Notícias», publicou uma crónica em que afirma que, depois da morte de Jesus, os discípulos fizeram um balanço de toda a sua vida, e então "acreditaram que ele está vivo em Deus". (Respondi a esta crónica num texto intitulado «Da ressurreição aos Evangelhos da Infância. Resposta a Anselmo Borges», que pode ser lido em Blog  Ad te levavi
). Mas salta à vista que os textos do Novo Testamento dizem muito mais. Recordemos o que diz S. Paulo na 1ª Carta aos Coríntios, no texto que hoje lemos:

"Transmiti-vos em primeiro lugar o que eu mesmo recebi: Cristo morreu pelos nossos pecados, segundo as Escrituras; foi sepultado e ressuscitou ao terceiro dia, segundo as Escrituras, e apareceu a Pedro e depois aos Doze. Em seguida apareceu a mais de quinhentos irmãos de uma só vez, dos quais a maior parte ainda vive, enquanto alguns já faleceram. Posteriormente apareceu a Tiago e depois a todos os Apóstolos. Em último lugar, apareceu-me também a mim, como o abortivo" (1. Coríntios 15, 3-8).

Esta última palavra também se poderia traduzir como: «alguém que nasceu fora de tempo». Que significa? Um erudito comentador do séc. XVII, o jesuíta e exegeta Cornelius a Lapide (1567 - 1637), explica assim este modo como S. Paulo se qualifica a si mesmo:

"De acordo com alguns autores, como Santo Ambrósio de Milão e S. João Crisóstomo, significa tardio, fora de tempo: ou seja, já depois de Cristo ter subido ao Céu é que Paulo nasceu em Cristo e se tornou Apóstolo. (...)

"Conclui-se deste versículo que Cristo apareceu a Paulo não por um anjo, como pensa Haymo (monge do séc. IX). mas em pessoa: não numa visão, como lhe apareceu noutro momento em Actos 21. 18, nem em êxtase, como se regista em 2 Coríntios 12. 2, mas no espaço, em forma corpórea: pois foi assim que Cristo apareceu a Cefas (Pedro). Tiago e outros apóstolos: Além disso, se fosse qualquer outro tipo de manifestação, não seria prova da Ressurreição de Cristo. A aparição de Cristo a que alude aqui é a que aconteceu na conversão de Paulo (Actos 9, 3), quando ele viu Cristo antes que a luz brilhante o cegasse".

4. Quanto a nós, não vimos Jesus, mas podemos ouvi-Lo, na sua palavra: podemos falar com Ele, na oração: podemos experimentar o seu perdão, podemos recebê-Lo a adorá-Lo, na Eucaristia.

Proponho a cada um que tenha todos os dias um tempo de oração, sem pressa, para ouvir Jesus e falar com Ele. A oração é muito importante para a vida. Muita gente pensa que a oração só serve para fazermos pedidos a Deus. Mas a oração também serve para Deus nos fazer «pedidos» a nós !

E serve para nós Lhe respondermos, como S. Pedro, primeiro com a consciência da nossa imperfeição, mas também com total confiança, e por isso voltamos a lançar as nossas redes mar adentro, e, se Deus quiser, virão de novo cheias, não de peixes, mas de homens e mulheres, dispostos a fazer a experiência da santidade, do poder e do amor de Deus.

Com a amizade em Cristo do
Cón. José Manuel dos Santos Ferreira
Pároco de Santa Maria de Belém

Blog  Ad te levavi
Arquivo