24 de Fevereiro de 2013 - Domingo II da Quaresma

Tempo de oração mais intensa

1. Neste segundo domingo da Quaresma, a Igreja convida-nos a meditar no relato da Transfiguração de Jesus, que ocupa um lugar à parte entre os seus milagres, porque se realiza no próprio Jesus, e revela Quem Ele é, e também como será a sua humanidade, depois da ressurreição. A Transfiguração é como que uma profecia da Páscoa, um clarão de Páscoa antecipada, antes da imensa dor da sua paixão e morte de Jesus na Cruz.

Muitos santos julgaram que Jesus quis revelar aos discípulos a sua glória, "para que eles não se deixassem esmagar pela dor da sua morte", como diz S. João Crisóstomo. É bom pensar que o mesmo acontece connosco: Jesus está sempre ao nosso lado, não só durante as dificuldades e nas provações, mas também já antes de elas acontecerem, para que permaneçamos firmes e fiéis, na fé e no seu amor. Com esta certeza, podemos renovar a nossa confiança no futuro: com a ajuda de Deus, seremos fiéis, mesmo nos momentos de dificuldade. E se alguma vez nos sentirmos fracos ou vacilarmos, como aconteceu com os próprios apóstolos, podemos ter a certeza de que Jesus nos olhará com misericórdia, como fez com S. Pedro (Lc 22, 61), nos dará o seu perdão, e nos ajudará sempre a começar de novo.

2. Naquele dia, no silêncio e na solidão do alto monte, na presença de Pedro, Tiago e João, únicas testemunhas deste admirável acontecimento, Jesus manifestou-se, também exteriormente, com a glória que Lhe pertencia como Filho de Deus. O Seu rosto tornou-se luminoso e as Suas vestes "ficaram de uma brancura refulgente", como diz S. Lucas. E apareceram Moisés e Elias, que conversavam com Ele a respeito do cumprimento da Sua missão terrena, destinada a concluir-se em Jerusalém com a morte na cruz e a ressurreição. É um sinal de que todo o Antigo Testamento se cumpre em Jesus: toda a história da salvação, iniciadas em Abraão, se realiza plenamente em Jesus Cristo, e em particular na sua morte e ressurreição.

Por um breve instante, tornou-se visível a luz divina que seria revelada de modo pleno no Mistério Pascal. E S. Lucas ressalta como este facto extraordinário se verificou precisamente num contexto de oração. "Enquanto orava", o rosto de Jesus mudou de aspecto. A profundidade e a beleza do seu diálogo com o Pai, que era constante, reflectiu-se naquele momento exteriormente.

Creio que também nós sentimos que, pela graça de Deus, a oração pode mudar a nossa vida. A exemplo de Jesus, toda a comunidade cristã é convidada a viver o tempo da Quaresma no espírito de uma oração mais intensa, para que a nossa vida se transforme, e nos preparemos para receber a luz divina que resplandecerá na Páscoa. Precisamos de mais oração, para que a nossa vida mude, para termos mais alegria, mais esperança, mais serenidade, mais força para servir e amar os outros, e também para falar de Jesus aos outros, e para os desafiar a acolher o dom da fé.

3. Mas a mudança que esperamos não acontece só neste mundo. S. Paulo dizia-nos na 2ª leitura: "O Senhor Jesus Cristo... transformará o nosso corpo miserável, para o tornar semelhante ao Seu corpo glorioso". S. Paulo acredita profundamente em Jesus ressuscitado, sabe que Jesus transformou radicalmente a sua vida, e conhece "o poder que Ele tem de sujeitar a Si todo o universo". Por isso, não é de espantar que Jesus, um dia, faça do nosso corpo mortal um corpo glorioso como o Seu. Este corpo mortal que cada um de nós tem, um dia será glorificado como o de Jesus.

Esta certeza de fé anima-nos a viver com grande sentido de responsabilidade. Se um dia todo o nosso ser será glorificado, com que dignidade e pureza devemos viver! No entanto, S. Paulo sente-se triste porque alguns cristãos de Filipos estavam a proceder "como inimigos da cruz de Cristo". Tinham-se tornado mundanos, orgulhavam-se "da sua vergonha", e só apreciavam "as coisas terrenas", diz S. Paulo. Diante deste panorama, Paulo recorda a todos que "a nossa pátria está nos Céus". Esta é a nossa pátria, ou seja, a nossa meta. É bom saber para onde vamos: senão, a vida não tem sentido! As coisas deste mundo são boas, se nos ajudarem a aproximar de Deus, e são más, se nos afastam d'Ele e da sua amizade, ou se puserem em perigo a nossa salvação, na vida eterna.

4. Mas nós somos fracos, estamos sujeitos a muitas tentações e a muitos perigos: poderemos salvar­nos? Sim, somos fracos, mas Deus é fiel. Na primeira leitura ouvimos a narração da aliança estabelecida por Deus com Abraão. Quando Deus lhe promete uma imensa descendência, Abraão responde acreditando em Deus e «esperando contra toda a esperança» (Rom 4, 18); por este motivo, ele torna-se pai na fé de todos os crentes. A aliança com Abraão será mais tarde renovada na grande Aliança do Sinai. E esta encontra depois o seu cumprimento definitivo na Nova Aliança, concluída por Deus com a inteira humanidade, não no sangue de animais mas no do Seu próprio Filho feito Homem, que oferece a vida pela redenção do mundo. A nossa esperança é a fidelidade de Deus, manifestada na cruz de seu Filho.

5. Que a Virgem Santa Maria, que, como Abraão, esperou contra toda a esperança, nos ajude a reconhecer em Jesus o Filho de Deus e o Senhor da nossa vida. A ela confiamos a nossa caminhada de Quaresma, para que seja um intenso momento de graça, e traga abundantes frutos de santidade, não só para a Igreja mas para todos os homens, no mundo inteiro, e todos experimentem, na Páscoa de Jesus, a grandeza infinita da misericórdia de Deus.

Com a amizade em Cristo do
Cón. José Manuel dos Santos Ferreira
Pároco de Santa Maria de Belém

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