3 de Março de 2013 - Domingo III da Quaresma

Penitência pela Santa Igreja de Deus

1. Antes do início do Concílio Vaticano II, o Papa João XXIII convidou toda a Igreja a uma preparação intensa, que devia constar essencialmente de oração e penitência. Este seu apelo terá sido correspondido pelos católicos daquele tempo ?

Não temos maneiras de saber, nem nos compete julgar, a não ser pelos frutos, se assim foi ou não, mas deixaremos essa avaliação mais aprofundada para outro momento.

De resto, Bento XVI no seu último encontro com o clero de Roma, já depois de ter anunciado a sua renúncia, fez essa avaliação, em 14 de Fevereiro de 2013.

Referiu que existia "o verdadeiro Concílio - mas havia também o Concílio dos meios de comunicação". E foi este que predominou, e criou "tantas calamidades, tantos problemas, realmente tanta miséria: seminários fechados, conventos fechados, liturgia banalizada... enquanto o verdadeiro Concílio teve dificuldade em se concretizar, em ser levado à prática".


Símbolo da «Sede vacante»

Não quero comentar esta análise, mas, diante deste panorama - e apesar da esperança de Bento XVI de que é agora, passados cinquenta anos, que "se afirma o verdadeiro Concílio com toda a sua força espiritual" - o que ressalta é que, afinal, talvez os católicos não tenham rezado tanto e feito tanta penitência pelo Concílio, como João XXIII lhes pediu: Ou talvez não tenham sido exortados a isso pelos seus pastores!

A Igreja, segundo a análise de Bento XVI, sofreu os efeitos do "Concílio dos meios de comunicação" (ou terá sido do Concílio simpliciter?) e isso afectou necessariamente o mundo. E por isso o mundo actual está como sabemos. Que poderemos então fazer? É simples: o que pediu João XXIII.

2. Quase 51 anos depois, o que podemos e devemos fazer, agora que estamos na iminência, não de um Concílio, mas de um Conclave que elegerá o novo Papa, será recuperar os pedidos do Beato João XXIII, e aplicá-los ao momento actual, de cuja gravidade ninguém poderá ter dúvidas.

Convido-vos a ler algumas passagens da sua Encíclica Paenitentiam agere (Fazer penitência), publicada no 1º dia de Julho de 1962, ao tempo (e ainda hoje, na Forma Extraordinária do Rito Romano) festa do Preciosíssimo Sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Já o título da Encíclica de João XXIII é muito expressivo: fazer penitência! E começa assim:

"Fazer penitência pelos próprios pecados é, para o homem pecador, segundo o explícito ensinamento de nosso Senhor Jesus Cristo, a primeira condição, não apenas para solicitar o perdão mas ainda para chegar à salvação eterna. Evidente se torna, pois, quão justificada é a atitude da Igreja Católica, dispensadora dos tesouros da divina Redenção, a qual sempre considerou a penitência como condição indispensável para o aperfeiçoamento da vida de seus filhos e para seu melhor futuro".

Depois João XXIIII fala da penitência no Antigo Testamento e sobretudo no ensino de Jesus Cristo e dos Apóstolos. Salienta o pensamento e a prática da Igreja ao longo dos tempos, e faz diversas exortações concretas, que, apesar do contexto diferente, será muito bom pôr em prática no momento actual.

Em primeiro lugar, sugere uma solene novena em honra do Espírito Santo, que também hoje poderemos fazer para invocar sobre os Cardeais proximamente reunidos em Conclave "a abundância das luzes celestes e das graças divinas" (n. 14).

Um bom modo de realizar esta novena será recitar durante nove dias seguidos o hino «Veni Creator Spiritus» («Vinde Espírito criador»), rezando depois a oração colecta da Missa pro eligendo Pontifice (pela eleição do Papa) (ver homepage).

E depois, falando propriamente da penitência, diz João XXIII:

"Antes de tudo é necessária a penitência interior, isto é, o arrependimento e a purificação dos próprios pecados, o que especialmente se obtém com uma boa confissão e comunhão, e com a assistência ao sacrifício eucarístico. A este género de penitência deverão ser convidados todos os fiéis durante a novena ao Espírito Santo. Vãs seriam, com efeito, as obras exteriores de penitência se não fossem acompanhadas da limpeza interior da alma e do sincero arrependimento dos próprios pecados. Neste sentido deve-se entender o severo aviso de Jesus: "Se não fizerdes penitência, todos igualmente perecereis» (Lucas 13, 5)" (n.16).

Lemos este passo no Evangelho de hoje, com uma tradução ligeiramente diferente: "E se não vos arrependerdes, morrereis todos de modo semelhante". É Jesus que o diz!

3. E depois João XXIII fala da penitência externa: "Além disto, devem os fiéis ser convidados também à penitência exterior, quer para sujeitarem o corpo ao comando da recta razão e da fé, quer para expiarem as suas culpas e as dos outros (...). "A primeira penitência exterior que todos devemos fazer é a de, com ânimo resignado e confiante, aceitarmos de Deus todas as dores e sofrimentos que se nos deparam na vida, e tudo o que importa fadiga e incómodo no exacto cumprimento das obrigações do nosso estado, no nosso trabalho quotidiano e no exercício das virtudes cristãs. (...)

"Além das penitências que necessariamente temos de enfrentar pelas dores inevitáveis desta vida mortal, é preciso que os cristãos sejam tão generosos a ponto de também oferecerem a Deus mortificações voluntárias, à imitação do nosso divino Redentor. que. segundo a expressão do príncipe dos apóstolos, "morreu uma vez pelos pecados. o justo pelos injustos. a fim de vos conduzir a Deus. Morto na carne, foi vivificado no espírito" (1 Pedro 3. 18). (...) Sirvam nisto de exemplo e de incitamento também os santos da Igreja, cujas mortificações infligidas ao seu corpo, não raro inocentíssimo, enchem-nos de admiração e quase nos assustam. Ante esses campeões da santidade cristã, como não oferecer ao Senhor alguma privação ou pena voluntária da parte também dos fiéis. que talvez tantas culpas tenham a expiar? Elas são tanto mais agradáveis a Deus quanto não vêm da enfermidade natural da nossa carne e do nesso espírito, mas espontânea e generosamente são oferecidas ao Senhor em holocausto de suavidade" (n.17-19).

4. Assim se exprimiu João XXIII, e se estas suas palavras nos parecerem surpreendentes, isso dever-se-á apenas a que esta dimensão da vida cristã foi esquecida e sistematicamente desprezada entre nós, nomeadamente na catequese e na pregação, nas últimas décadas. Mas temos de a recuperar, para alcançarmos a nossa santificação e a conversão do mundo.

Pensando agora na próxima eleição do Papa, compreendemos como precisamos de fazer penitência. Penitência por nós mesmos. Penitência pelos outros. Penitência pela Santa Igreja de Deus.

E considerando que estamos na Quaresma, que é um tempo penitencial por excelência. convido todos os paroquianós. sob a permissão ou a orientação dos seus confessores ou directores espirituais, a escolher uma penitência especial e adicional pelo governo da Igreja e pela pesada responsabilidade que será colocada sobre o Colégio Cardinalício nas próximas semanas. Para que seja eleito um Papa sábio, santo e forte.

Com a amizade em Cristo do
Cón. José Manuel dos Santos Ferreira
Pároco de Santa Maria de Belém

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