10 de Março de 2013 - Domingo IV da Quaresma

A justiça e a misericórdia

1. Ouvimos hoje a mais longa e mais bela parábola que Jesus contou. É um espelho fiel da vida humana envolvida pela misericórdia de Deus. Tem só três personagens principais, o filho mais novo, o filho mais velho e o pai, mas reflecte bem como é a vida humana, e como é grande o amor que Deus nos tem.

O filho mais novo saiu de casa muito rico, mas em pouco tempo, "esbanjou quanto possuía, numa vida dissoluta". Todos percebemos que, ao falar das riquezas que este rapaz levou consigo, Jesus queria-nos fazer pensar na maior riqueza que podemos ter neste mundo: a graça de Deus, a vida de Deus em nós, a união com o próprio Jesus, a alegria de O conhecer e de O amar.


Julius Schnorr van CAROLSFELD, O filho pródigo (1851-90)

É incrível a facilidade e a 'descontracção' com que, pelo pecado, se perde tantas vezes esta riqueza preciosa.

Como é que um rapaz que viva tao bem, numa família feliz, se viu de repente a guardar porcos, o que era uma humilhação abominável para um judeu, a quem estava proibido criar e comer estes animais, considerados impuros? E como é que ninguém se lembrava sequer de dar de comer àquele miserável guardador?

Era impossível continuar assim por mas tempo. Quando sentiu a sua vida em perigo, aquele rapaz pensou "«Quantos trabalhadores de meu pai têm pão em abundância, e eu aqui a morrer de fome!»" Parece que a única coisa que o preocupava naquele momento era ter alguma coisa para comer, o que é natural, porque estava a morrer de fome. Mas, no fundo, não era só isso que lhe fazia falta, a sua fome não era só de pão: o que ele sentia eram saudades da sua dignidade perdida, da sua condição de filho, que tinha desperdiçado estupidamente.

2. É então que toma a decisão: "«Vou-me embora, vou ter com meu pai e dizer-lhe: Pai, pequei contra o Céu e contra ti. Já não mereço ser chamado teu filho, mas trata-me como um dos teus trabalhadores»". Afinal, o que lhe dói mais é ter ofendido e magoado o pai. O que mais o entristece é ter deixado de viver como filho. Mas agora sente que já não tem nenhum direito a recuperar essa dignidade. O máximo a que ainda pode aspirar, é passar a ser um empregado na casa do pai, para poder trabalhar e ganhar para viver, e talvez ainda para restituir à família tudo o que tinha extraviado.

E esta seria uma solução justa. Sim, a justiça poderia passar por aí. Mas Jesus quer ensinar-nos que, para além da justiça, ainda existe a misericórdia. E a parábola continua: "Ainda ele estava longe, quando o pai o viu". Com este pormenor, Jesus mostra-nos que o pai não só desejava ansiosamente o regresso do filho, mas que devia passar muitas horas observando os caminhos, ao longe, na esperança de ver o filho regressar. É uma imagem muito bonita do modo como Deus aguarda a conversão do pecador. E, quando o viu, o pai "encheu-se de compaixão". Depois, "correu a lançar-se-lhe ao pescoço, cobrindo-o de beijos". É impressionante o contraste entre o pai que corre para o filho, e o filho que, com o peso da sua miséria, caminha lentamente para o pai. Da parte do pai não há nenhuma frieza, mas um afecto transbordante, que nos deixa perceber muito bem como é que Deus ama o pecador arrependido.

Mesmo assim, o filho não se dispensou de confessar o seu pecado: "«Pai, pequei contra o Céu e contra ti. Já não mereço ser chamado teu filho»". Mas o pai não se demora a responder, e manda imediatamente trazer a melhor túnica, o anel, as sandálias, que são uma imagem da vida da graça, ou do "traje nupcial" de que fala Jesus (Mt 22,l1-13).

3. Este rapaz, a que chamamos o filho pródigo, isto é, estragador, perdulário, chegou miserável, e num instante recuperou toda a dignidade que tinha perdido. E assim que Deus nos espera no Sacramento da Confissão ou Reconciliação: não para nos repreender ou recriminar, mas para nos admitir de novo na sua intimidade e para nos restituir o tesouro da graça perdida. Compreendemos muito bem o que S. Paulo dizia na 2ª leitura: "Nós vos pedimos em nome de Cristo: reconciliai-vos com Deus".

Paulo tinha consciência de que Deus confiou à Igreja o "ministério da reconciliação". Sim, a Igreja está ao serviço da reconciliação dos homens com Deus. Através do ministério apostólico e sacerdotal, recebemos o perdão dos pecados, reconciliamo-nos com Deus e com a Igreja, e a nossa vida recupera a paz, a alegria e a esperança.

Procuremos confessar-nos bem! Sem medo nem vergonha, mas com sinceridade e clareza, indicando os pecados graves, se existirem e também os pecados leves mais importantes. Como o filho pródigo, digamos: 'Acuso-me desta falta, e desta...', sem estar à espera que o sacerdote nos pergunte. Depois da absolvição, procuremos cumprir a penitência e acrescentar da nossa parte outras boas obras, em reparação do mal que fizemos.

E depois..., vem a festa. Diz o pai: "Comamos e festejemos, porque este meu filho estava morto e voltou à vida, estava perdido e foi reencontrado". Podemos ver nesta festa uma imagem da Eucaristia, em que Jesus nos oferece em alimento o seu Corpo entregue e o seu sangue derramado na Cruz..

4. Mas Jesus quis ensinar-nos ainda que, diante da grandeza de uma conversão tão profunda, não tem sentido um coração mesquinho. O filho mais velho acha que o amor do pai foi longe de mais, e fala do seu irmão mais novo com desdém e ironia: "«Esse teu filho...»", diz ele ao pai; mas o pai lembra-lhe que ele era na verdade seu irmão: "«Tínhamos de fazer uma festa e alegrar-nos, porque este teu irmão estava morto e voltou à vida, estava perdido e foi encontrado»".

O que Jesus nos pede, portanto, é que imitemos a misericórdia de Deus para com um irmão que pecou e pediu perdão. E como todos beneficiamos da misericórdia de Deus, temos necessariamente de usar de misericórdia uns para com os outros.

Vamos continuar a caminhar para a Páscoa, e é muito importante que nos apoiemos mutuamente neste caminho.

A alegria da festa será tanto maior, quanto maior for o nosso esforço de conversão. Sejamos também mais generosos na partilha, tanto na «Renúncia quaresmal», como no ofertório da Missa. Nos próximos dois domingos, peço-vos uma especial generosidade e um reforço do contributo de cada um, para ajudar a nossa paróquia a cumprir todas as tarefas que tem o dever de realizar.

E sintamos que todos vamos a caminho, como o povo da Antiga Aliança, de que falava a 1ª leitura. Que ninguém fique para trás! Que todos cheguemos de coração purificado à Páscoa da ressurreição, para celebrarmos a misericórdia de Deus na sua realização mais sublime e perfeita: o próprio Filho e Verbo de Deus, Jesus Cristo, morto na cruz por todos os homens e gloriosamente ressuscitado para nunca mais morrer!

Com a amizade em Cristo do
Cón. José Manuel dos Santos Ferreira
Pároco de Santa Maria de Belém

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