5 de Maio de 2013 - Domingo VI da Páscoa da Ressurreição do Senhor

Guardamos a palavra de Jesus ?

1. No Evangelho de S. João lemos esta confidência que Jesus, durante a Última Ceia, dirigiu aos apóstolos, num ambiente de grande intimidade: "Quem Me ama, guardará a minha palavra".

É assim que fazemos? Guardamos a palavra de Jesus, ou esquecemo-nos dela? Quando ouvimos o Evangelho na Missa, ou quando o lemos em nossa casa, no silêncio da nossa oração, acreditamos que é Jesus Cristo que nos fala? Procuramos viver a sua palavra, «guardá-Ia» com amor e pô-la em prática na nossa vida?

A palavra de Jesus não pertence ao passado. O Espírito Santo torna-a sempre viva ao longo dos tempos, e actualiza-a nos nossos corações, como Jesus disse também: "O Espírito Santo, que o Pai enviará em meu nome, vos ensinará todas as coisas, e vos recordará tudo o que eu vos disse."


Giotto, Última Ceia (1304-06) Fresco, Cappella Scrovegni, Pádua

Que o Espírito Santo nos ensine sempre a verdade de Jesus! Que não nos deixe nunca esquecer de Jesus! Que nos mostre sempre a força e a beleza da palavra de Jesus! Porque a palavra de Jesus é a verdade. A palavra de Jesus é viva. A palavra de Jesus é a luz da nossa vida.

A quem guarda a sua palavra, Jesus promete: "Meu Pai o amará; Nós viremos a Ele, e faremos nele a nossa morada". O Antigo Testamento já tinha falado da «morada» de Deus no meio do seu povo, mas o que Jesus Cristo diz no Evangelho é diferente: diz-nos que Deus vem habitar 'dentro' de cada um de nós, no íntimo de cada um daqueles que O amam e cumprem a sua palavra. É evidente que isso não se nota por fora, mas 'sente-se' por dentro. Quem está na amizade de Deus, quem vive na graça de Cristo, tem Deus a habitar na sua alma.

Isto acontecerá plenamente na vida eterna, no céu, "mas, já desde agora, nós somos chamados a ser habitados pela Santíssima Trindade" (Catecismo da Igreja Católica, n. 260). Já hoje, Deus deseja habitar permanentemente em nós, fazer de cada um de nós a sua morada! Esta «inabitação» divina, esta presença em nós do Pai, do Filho e do Espírito Santo, éo dom mais precioso que um ser humano pode receber. Se temos Deus em nós, temos a maior riqueza que se possa imaginar.

2. Só o pecado grave, cometido com plena consciência e liberdade - a que se dá o nome de «pecado mortal» - é que nos poderá privar desta presença íntima de Deus na nossa alma. A Igreja não nos esconde que existe este perigo, e ensina-nos que o pecado mortal nos faz perder a caridade, e priva-nos da graça santificante (Catecismo da Igreja Católica, n. 1861). É uma perda terrível, uma enorme pobreza, a pior de todas as misérias: não estar com Deus, não ter Deus em nós, tendo nós sido criados por Deus e para Deus! Por isso, pedimos também hoje ao Espírito Santo que dê uma grande sensibilidade para evitar todo o pecado grave, e nos dê um arrependimento imediato, que nos leve a procuraro perdão de Deus, na Confissão, e a aceitar de novo a amizade de Cristo.

Muitas vezes se tem notado que uma das características mais estranhas do nosso tempo é esta: muitas pessoas não têm o sentido do pecado. Fazem o mal, e acham 'normal'...

A perda do sentido do pecado, porém, é consequência da negação de Deus. Bento XVI notou um dia que "muitos não aceitam a própria palavra «pecado», porque ela pressupõe uma visão religiosa do mundo e do homem. E na verdade, quando se elimina Deus do horizonte do mundo, não se pode falar de pecado". E explicou-o com uma imagem interessante: "Como quando o sol se esconde, desaparecem as sombras; a sombra só aparece quando há o sol; assim, o eclipse de Deus comporta necessariamente o eclipse do pecado. Por isso, o sentido do pecado - que é diverso do «sentido de culpa», como o entende a psicologia - adquire-se, redescobrindo o sentido de Deus" (Angelus de 13 de Março de 2012).

Quando não se tem o sentido do pecado, também não se sente a necessidade de pedir perdão. O obscurecimento do sentido do pecado leva necessariamente ao obscurecimento do perdão de Deus. Mas, sem o perdão de Deus, os homens não só ficam presos nos laços dos seus pecados, como também não são capazes de se reconciliar verdadeiramente uns com os outros, e nunca mais conseguem construir a paz.

3. A paz é um desejo profundo do coração do homem. No Evangelho de S. João. Jesus também nos fala de paz: "Deixo-vos a paz, dou-vos a minha paz". Jesus sabia que iam chegar horas muito difíceis: a sua prisão, o julgamento, a condenação, a flagelação, o caminho para o Calvário, a morte na cruz. Os discípulos iam sofrer muito, iam ficar profundamente perturbados. Mas Jesus deseja que sejam fortes, que permaneçam firmes e fiéis, e para isso dá-lhes a sua paz. A paz de Jesus não é como a do mundo, que muitas vezes é só uma convenção, uma aparência. A paz de Jesus começa por dentro, e por isso Jesus diz aos seus discípulos, como nos diz a nós: "Não se perturbe, nem se intimide o vosso coração".

4. Por intercessão de Maria, Nossa Senhora, a Santa Mãe de Deus, peçamos a graça de nunca perder, mesmo nos momentos mais difíceis, esta paz que vem de Jesus. Que nos dê uma grande alegria e profunda admiração por termos Jesus na nossa alma, e com Ele o Pai e o Espírito Santo. Que saibamos levar Jesus Cristo aos outros, para que todos sejam morada do Deus vivo, e um dia sejamos recebidos na santa Cidade de que fala o Livro do Apocalipse, "resplandecente da glória de Deus", que já "não precisa da luz do sol nem da lua. porque a glória de Deus a ilumina, e a sua lâmpada é o Cordeiro". Que a sua luz nos ilumine já hoje, e oriente os nossos passos. para, no fim desta vida, podermos cantar a glória do Cordeiro imolado, com o Pai e o Espírito Santo, pelos séculos sem fim.

Com a amizade em Cristo do
Cón. José Manuel dos Santos Ferreira
Pároco de Santa Maria de Belém

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