12 de Maio de 2013 - Solenidade da Ascensão do Senhor

Confiou-nos o mundo

1. Quando lemos a conclusão do Evangelho segundo S. Lucas, não temos a sensação de ter chegado ao fim. Pelo contrário: o que S. Lucas nos apresenta é o princípio de um tempo novo, que não tem fim.

O Evangelho diz-nos que Jesus levou os discípulos até junto de Betânia e, erguendo as mãos, abençoou-os. Enquanto os abençoava, afastou-Se deles, e foi elevado ao Céu" (Lucas 24, 51). A partir desse momento, os discípulos não viram mais Jesus. E, por causa disso, devem ter sentido, num primeiro instante, tristeza e saudade. Mas logo a seguir sentiram uma alegria ainda maior, como diz claramente o Evangelho: "Eles prostraram-se diante de Jesus, e depois voltaram para Jerusalém com grande alegria" (Lucas 24,52).

Em que se fundamenta esta alegria dos discípulos? Fundamenta-se na sua fé em Jesus Cristo, que eles viram sofrer terrivelmente e morrer, mas que viram de novo, cheio de vida e glória. Os discípulos viram Jesus morto na cruz, viram o seu corpo sepultado, mas também O viram ressuscitado.


Jerôme Nadal (ed.), A Ascensâo de Cristo (porm.)

2. Nos Actos dos Apóstolos, lemos que Jesus, "depois da sua paixão, Se apresentou vivo, com muitas provas, aparecendo-lhes durante quarenta dias, e falando-lhes do Reino de Deus" (1 , 3). Durante esses dias, os discípulos viram com os seus olhos, e experimentaram com todo o seu ser que Jesus está vivo, não morre mais! E começaram a compreender que Jesus não era só o seu Amigo, o seu Senhor, mas o Amigo e o Salvador de todos os homens. Perceberam que o seu Reino não era como os pobres reinos deste mundo, que duram uns anos ou uns séculos, mas era um Reino eterno, e abrangia toda a Terra e o Universo inteiro. E acreditaram no mais fundo dos seus corações que Jesus não era um simples homem: sim, era homem como nós, e era também Deus como o Pai, que O tinha enviado ao mundo para apelar à conversão e oferecer a todos os homens o perdão e a misericórdia.

E por isso, quando Jesus deixou de estar visivelmente junto deles, quando Jesus «subiu» ao Céu, isto é, quando a sua humanidade entrou definitivamente na glória divina, os discípulos sentiram que Jesus continuava ao seu lado, ainda mais do que antes; que o seu poder abraçava o mundo inteiro; e que o seu amor envolvia todos os homens, de todos os tempos. Não havia motivos para a tristeza, mas sim para uma grande alegria!

Também nós sentimos esta alegria profunda: acreditamos que Jesus vive para sempre, que está na glória do Pai, e que ao mesmo tempo está connosco, está ao nosso lado, e nunca nos abandona! No entanto, tal como aconteceu com os discípulos, esta alegria existe em nós a par de um grande sentido de missão e de um grande sentido de responsabilidade. Na sua Ascensão, Jesus, que é o Senhor do mundo, confiou-nos o mundo. Neste mundo, há muitas pessoas que não conhecem o mistério de Cristo, mas necessitam de O conhecer, e Deus quer que o possam conhecer, para serem salvos, e para a sua vida ter sentido.

3. Por isso, àqueles que O viram morto e ressuscitado, Jesus disse, como se lê no Evangelho: "Vós sois testemunhas disso" (Lucas 24, 48). E, no próprio dia da Ascensão, disse ainda mais claramente aos discípulos: "Recebereis a força do Espírito Santo, que descerá sobre vós, e sereis minhas testemunhas em Jerusalém e em toda a Judeia e até aos confins da Terra" (Actos 1 ,8).

É esta missão que está em marcha, e que depende de nós, da nossa entrega, para se cumprir, com a força do Espírito Santo.

4. Depende nós, de todos e de cada um, da nossa sincera conversão, da nossa fidelidade, do nosso amor, e também do modo como falamos apaixonadamente da nossa fé, de como a defendemos, de como a apresentamos, como a «explicamos», de como apresentamos a sua beleza, a sua exigência santificadora e a sua fascinante verdade.

Depende em grande medida dos casais cristãos: se forem fiéis e unidos, generosos e confiantes. reflectirão pela sua vida e pela sua união, o amor de Cristo por todos os homens. Depende também das familias: se forem fammas conduzidas pela fé e em plena sintonia com os ensinamentos da Igreja, serão um fermento muito poderoso, que transformará o mundo por dentro.

Mas a missão também depende dos doentes e dos que sofrem: se oferecerem os seus sofrimentos com amor, abrirão caminho à graça de Deus no coração de tantas outras pessoas.

E depende ainda, de modo particular, dos sacerdotes, do seu "ser apaixonados por Cristo", como disse Bento XVI, na Vigllia do encerramento do Ano Sacerdotal (10 de Junho de 2010).

E de quem depende mais? Numa das suas primeiras Audiências Gerais (3 de Março de 2013), o Papa Francisco salientou que, nos Evangelhos, "as primeiras testemunhas da Ressurreição são as mulheres. E isto é bonito; Esta é um pouco a missão das mulheres: mães e mulheres! Dar testemunho aos filhos e aos netos, de que Jesus está vivo, é o Vivente, ressuscitou. Mães e mulheres, ide em frente com este testemunho!"

Ao subir ao Céus, Cristo enviou-nos "Aquele que foi prometido" pelo Pai, o Espírito Santo, que é a "força do alto" (Lucas 24, 49), que nos impele e conduz pelos caminhos deste mundo.

Que o Espírito nos inspire no apostolado que realizamos e no testemunho que damos, para que vença as barreiras do desinteresse, do relativismo e da descrença, e a alegria da fé seja uma chama cada vez mais intensa no coração de todos os homens.

Com a amizade em Cristo do
Cón. José Manuel dos Santos Ferreira
Pároco de Santa Maria de Belém

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