9 de Junho de 2013 - Domingo X do Tempo Comum

"Deus visitou o seu povo"

1. Num relato que é próprio de S. Lucas (7, 11-17), é-nos manifesto até onde chega a acção de Deus, em Jesus Cristo, seu Filho.

A vida humana está sujeita a muitos perigos e males, e alguns parecem sem remédio nem solução. O mais grave desses males que se abatem sobre os homens é a morte, para a qual, humanamente, não vemos remédio nem solução, mas também ela é vencida já hoje, ou sê-lo-á um dia, definitivamente, por Deus, em Cristo.

Este e outros milagres de Jesus que os Evangelhos relatam, são, por assim dizer, vitórias parciais e iniciais sobre esses irredutiveis inimigos do homem, entre os quais avulta a morte.

Mas já anunciam a vitória final da própria ressurreição de Jesus, e já permitem a Jesus, pouco depois, responder nestes termos aos enviados de João Baptista: "Ide dizer a João o que vistes e ouvistes: os cegos vêem, os coxos andam, os leprosos são purificados, os surdos ouvem, os mortos são ressuscitados, e aos pobres é anunciado o evangelho" (Lucas 7, 22).


Jerôme Nadal (ed.), A ressurreição do filho da viúva de Naim

2. No seu livro Jesus de Nazaré, (1ª parte), Bento XVI observa que não é suficiente traduzir "evangelho" por: "boa nova". O «Evangelho» não é uma simples mensagem, "não é só comunicação, mas acção, força eficaz que entra no mundo, para o salvar e transformar" (p. 80).

Com Jesus, os mortos ressuscitam, e o Evangelho é anunciado aos homens, levando a todos uma nova alegria e uma nova esperança!

No relato da ressurreição do filho da viúva de Naim, S. Lucas mostra-nos também a profunda humanidade e delicadeza de Jesus. O seu Coração é sensivel até aos mais pequenos pormenores, e não lhe podia passar despercebido que aquele jovem, cujo corpo ia ser sepultado, era o "filho único de sua mãe, que era viúva" (v. 12).

A situação da viúva de Naim - pequena aldeia a 10 quilómetros de Nazaré - era muito grave. Para uma mulher, já viúva, perder o seu único filho, numa sociedade patriarcal como a do antigo Israel, significava não ter ninguém a protegê-Ia, e mergulhar numa situação de extrema dependência e fragilidade.

A compaixão de Jesus por alguém sujeito a um estado de abandono tão profundo leva-o a ir para além das leis de pureza ritual, que não permitiam que se tocasse nos que já tinham morrido (como se lê no livro dos Números, capo 19, 11 e 16). Mas "Jesus aproximou-Se e tocou no caixão" (que era um simples esquife), e depois disse: "Jovem, eu te ordeno, levanta-te". E a seguir "entregou-o à sua mãe" (v. 14-15).

3. Estas palavras lembram-nos as que disse o profeta Elias depois de obter de Deus, pela sua oração, o regresso à vida do filho da viúva de Sarepta, ainda menino: "«Aqui tens o teu filho vivo»" (1 Reis 17, 23). E então aquela mulher, que tinha acolhido Elias numa hora de grande provação para o profeta, reconheceu que estava diante de "um homem de Deus", e que nos seus lábios se encontrava verdadeiramente "a palavra do Senhor" (17, 24).

Também os que testemunharam a compaixão de Jesus, começaram a reconhecer o segredo que Jesus levava dentro de Si. E exprimindo-se como eram capazes, lembrando-se talvez de Elias e dos outros profetas, viam em Jesus "um grande profeta", e exclamavam com emoção: "Deus visitou o seu povo". (Lucas 7,16).

Jesus transmite-nos, nas nossas provas e dores, e também nas alegrias e êxitos, uma proximidade íntima, uma solidariedade total, que nunca nos deixa sós, que nunca nos deixa abandonados ou desamparados.

Mas Jesus não se limita a estar ao nosso lado, não Se contenta com visitar-nos e exercer em nosso favor o seu poder. Também nos desafia, nos chama e interpela, e nos convida a mudar de rumo com a nossa decisão livre, com a nossa vontade convertida.

4. Para o conseguirmos fazer, não são precisas técnicas complicadas. Mas duas coisas são necessárias. Em primeiro lugar, que cada um de nós viva, pessoalmente, uma verdadeira intimidade com Jesus Cristo, e que já tenha sentido a sua proximidade, a força da sua palavra, a suavidade da sua graça que cura, perdoa e dá a vida.

E, em segundo lugar, que saibamos mostrar aos outros onde podemos encontrar Jesus: na leitura atenta da Sagrada Escritura e na oração pessoal e comunitária; na participação activa na celebração da Eucaristia, a Santa Missa; no encontro com o Sacerdote no sacramento da Reconciliação; na vida da Igreja, que nos acolhe nos grupos paroquiais e em tantas outras expressões da sua comunhão e missão; e no rosto do que sofre, do que está em necessidade, do que é estrangeiro, do que procura a verdade ou do que parece já ter desistido de a procurar.

E assim encontraremos Jesus não só como o "grande profeta" que surpreende e ultrapassa as nossas expectativas, mas como verdadeiro Deus, que, sendo também verdadeiro homem, nos «diviniza», e assim realiza plenamente e enche de alegria a nossa humanidade.

Com a amizade em Cristo do
Cón. José Manuel dos Santos Ferreira
Pároco de Santa Maria de Belém

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