16 de Setembro de 2013 - Domingo XXIV do Tempo Comum

A porta da alegria

1. No Evangelho de hoje, Jesus fala da alegria que há no Céu "por um só pecador que se arrependa".

Mas não fala de uma outra alegria, que, se não é maior que a alegria dos anjos, não lhe deve ficar muito atrás: é a alegria do próprio pecador que se arrepende.

Jesus só fala da alegria do pastor que reencontra a sua ovelha tresmalhada e da mulher que descobre num canto da casa a moeda perdida, que lhe faria muita falta, se não a recuperasse.

Esta alegria é a imagem da alegria de Deus, quando nos reencontra e nos recupera para o seu amor.

Mas Jesus não fala directamente da alegria daquele que estava perdido e que, num certo momento, levanta os olhos e vê que alguém o encontrou. Para a avaliar, podemos imaginar a alegria de uma criança que se perdeu dos pais numa rua muito movimentada de uma cidade desconhecida...

De repente. ao atravessar uma passadeira com muita gente a cruzar-se para os dois lados, ficou ali sozinha sem saber o que fazer, e começou a chorar. As pessoas passavam, olhavam, algumas aproximavam-se, ninguém sabia bem o que fazer. Até que, já com várias pessoas à volta. levantou os olhos a medo, e viu outra vez o pai e a mãe.


A parábola da dracma perdida

Que enorme alegria, da criança e dos pais!

E se Jesus não fala desta alegria, é porque deseja que nós a descubramos por nós próprios. Que alegria levantar os olhos, e encontrar, pousado sobre nós, o olhar de Deus!

Foi a alegria do «filho pródigo», apesar de estar muito cansado e com a roupa ainda cheia de lama, quando viu ao longe o pai a olhar para ele, e percebeu que estava há muito tempo à espera dele.

2. Mas esta alegria não acontece por acaso. Depende de uma condição prévia: o arrependimento, como ensina Jesus. Sem arrependimento, não há alegria. É este o ensinamento principal de Jesus no Evangelho de hoje. A sua frente. Jesus tinha um grupo de homens que eram do género daqueles "noventa e nove justos que não precisam de arrependimento", e por isso não compreendiam que Jesus acolhesse os pecadores e comesse com eles.

Mas eles próprios nunca tinham sentido a alegria do olhar Ele Deus, porque achavam que na sua vida estava tudo bem, e possivelmente nunca se tinham arrependido de nada.

Poder arrepender-se é um enorme bem: é a porta da alegria. Mas na nossa sociedade isto é cada vez mais difícil, porque já não se consegue distinguir o bem do mal. E por isso não há arrependimento, não há a dor do mal feito nem a alegria do perdão.

Toda a gente pode errar em muitas coisas, e até pecar, mas, quando isso acontece, há uma saída: além do que eventualmente possa cair sob a alçada dajustiça, há esse cair em si e dizer: 'Errei, estou arrependido'. E, se tenho fé, há ainda esse grito da alma: 'Meu Deus, também Te ofendi, perdoa-me. ajuda-me a não voltar a pecar'. E temos ainda essa graça espantosa de receber e quase 'sentir' o sinal do perdão, que Deus nos oferece na Confissão sacramental.

Penso que todos nós nos interrogamos sobre o modo como poderíamos mudar esta estranha situação que existe na nossa sociedade: cometem-se bastantes erros, mas procede-se como se não houvesse nenhum mal nisso, e ninguém se arrepende nem sonha em emendar-se.

Mas acredito que há duas vias principais para fazer acontecer essa mudança. A primeira é o caminho da razão, da racionalidade. Há comportamentos que são muito pouco racionais. Para dar só alguns exemplos extremos, é irracional drogar-se, como é irracional ser infiel quando se vive numa aliança de amor com outra pessoa, como é irracional enriquecer há custa de fraudes ou roubos.

3. A segunda via, para além da razão, é a fé, e entre outras manifestações da fé, está a oração. A primeira leitura mostra-nos Moisés em oração veemente e insistente pelo povo, que tinha trocado Deus por um bezerro de ouro, a quem começou a oferecer sacrifícios.

É um retrato da tendência que há sempre em nós para trocar Deus pelos falsos deuses que nos iludem e parece que nos satisfazem mais.

Mas a oração de Moisés salvou o povo, e a nossa oração pode ajudar muitos a redescobrir a experiência do amor de Deus e do seu perdão.

S. Paulo, dizia, na 2ª leitura: "Cristo Jesus veio ao mundo para salvar os pecadores", e acrescentava, falando de si: "e eu sou o primeiro deles".

Apesar dos erros que tinha cometido contra o próprio Cristo, S. Paulo alcançou misericórdia, e a sua vida foi extraordinariamente intensa e realizada, mesmo por entre grandes dificuldades e provações.

Quanto a nós, está na altura de assumirmos as nossas responsabilidades no mundo, tornando-o mais racional e sobretudo mais confiante em Deus, que devolve a alegria a todos aqueles que, apesar de todos os seus erros, sem desânimo, se põem a caminho, à procura do seu amor e do seu perdão.

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