29 de Setembro de 2013 - Domingo XXVI do Tempo Comum

A hora da verdade

1. 0 Evangelho de hoje é como um pequeno conto que Jesus contou aos seus ouvintes, e em especial aos fariseus, para corrigir os seus modos errados de pensar e de viver. Os fariseus pensavam que nesta vida cada um tem a sorte que merece: os justos têm abundância e bem-estar; os pecadores, miséria e sofrimento. Foi este modo de ver, que tinha como efeito levar os ricos a desprezar os pobres, e os que tinham saúde e vigor a desprezar os débeis e os doentes, que Jesus pretendeu corrigir e desfazer. Quantas pessoas boas sofrem sem culpa nenhuma! E quantas são elogiadas ou premiadas sem o merecerem!

Mas haverá algum momento em que será reposta a verdade? Sim, há um momento, ensina Jesus, em que tudo se clarifica: a morte é o momento em que chega para todos a hora da verdade. Enquanto vivemos, a nossa vida é um tempo aberto à aceitação ou à rejeição da graça de Deus. São-nos dadas inúmeras oportunidades de conversão e santificação. Ninguém se pode queixar de não ter tido tempo para melhorar. Mas, com o termo da vida, esse tempo também termina. E então, diante de Deus, a vida de cada um será avaliada em função das suas obras e da sua fé.


Hendrick van Balen,   Santíssima Trindade (1620)

O Novo Testamento fala dessa avaliação da nossa vida feita por Deus, a que se dá o nome de juízo, principalmente na perspectiva do encontro final com Jesus, no momento da sua segunda vinda gloriosa. Mas também afirma, em muitos passos, a retribuição imediata, depois da morte de cada ser humano.

À luz destas passagens, entre as quais o Evangelho de hoje, a Igreja virá a ensinar que cada homem recebe, na sua alma Imortal, a retribuição eterna logo depois da morte, num juízo particular que põe a sua vida em referência a Cristo, quer através de uma purificação, quer para entrar imediatamente na felicidade do Céu, quer para se condenar imediatamente para sempre" (Catecismo da igreja Católica, n. 1022). Num pensamento muito belo, escreveu S. João da Cruz: "No entardecer da nossa vida, seremos julgados sobre o amor".

Pois bem, esse poente da vida, essa hora da verdade chegou um dia para os protagonistas desta história que Jesus contou: um homem rico, de que não sabemos o nome, e um pobre, chamado Lázaro. Ambos morreram e, depois da morte de ambos, entra em cena também Abraão, que representa todos os justos que aguardavam a vinda do Salvador. E nessa altura, ao lado de Abraão, vemos já o próprio Lázaro, que não está ali só por ser pobre, mas também, certamente, por ser bom e piedoso....

Ao mesmo tempo, num outro lugar da "na mansão dos mortos", (o hades, em grego, o xeol em hebraico, em latim inferi - infernos), vemos o homem rico, que, numa encenação pedagógica imaginada por Jesus, tenta entrar em diálogo com Abraão. Mas é um diálogo triste e desesperado, porque todos os pedidos que faz ou todas as lembranças que exprime, todas as hipóteses de solução que imagina, têm um ponto em comum: vêm tarde de mais.

2. Mas qual foi o pecado tão grave deste homem rico, que lhe causou a condenação eterna da separação de Deus e dos outros? Foi a sua total indiferença em relação a esse "pobre, chamado Lázaro", que "jazia junto do seu portão coberto de chagas". Vivendo comodamente e na abundância, como aqueles homens do Antigo Testamento de que falava o profeta Amós, na 1ª leitura, nunca reparou nele. Aquilo que o condenou não foi ser rico, foi ter fechado o coração. É um perigo terrível: fechar o coração ao outro que está junto de nós, que precisa de nós.

Este perigo pode ameaçar-nos a todos, e queremos firmemente evitá-lo. E como evitá-lo? É mais simples do que parece. Basta cada um esquecer-se de si muitas vezes, e reparar no outro, lembrar-se do outro, que necessita de ajuda. Todos podemos partilhar os nossos bens e as nossas capacidades. Há muitas formas de o fazer, e todas são boas. Ninguém se pode desculpar por não ter tempo, ou ter muito que fazer. Senão, um dia poderá ser tarde de mais.

Às vezes, nas paróquias e nas comunidades cristãs, há dificuldade em encontrar pessoas disponíveis para assumir serviços voluntários, como catequistas, cpmo visita dores, ou em muitos outros serviços. Ninguém pode, ninguém tem tempo... É verdade que a vida é complicada, toda a gente o sabe, os compromissos profissionais são muito exigentes, mas nenhum cristão se pode dispensar de ser apóstolo e de servir os outros, para além do círculo da sua família ou dos seus amigos em que se move habitualmente.

3. Hoje continua a haver muitas pessoas como Lázaro, cujo nome significa «Deus ajuda», e a quem Deus, de facto, quer ajudar através de nós. Mas também continua a haver muitos como aquele homem rico, que esbanjam em luxos e caprichos, em banquetes, orgias e excessos aquilo de que os outros precisariam para viver dignamente ou simplesmente para não morrer de fome. A vida egoísta, opulenta e arrogante fecha o coração às necessidades dos outros.

À luz da Palavra de Deus não parece nada animador nem feliz o destino eterno que os espera, se não mudarem a tempo.

Vejamos então como olhamos e como servimos os que estão à nossa volta. Jesus vem ao nosso encontro com a luz do seu Evangelho, com a graça do seu perdão, na Confissão sacramental, e com a força do seu Corpo e do seu Sangue, na Eucaristia.

S. Paulo dizia a Timóteo, na 2ª leitura: "Tu, homem de Deus, pratica a justiça e a piedade, a fé e a caridade, a perseverança e a mansidão. Combate o bom combate da fé, conquista a vida eterna, para a qual foste chamado" .

Não somos chamados a uma vida cómoda e egoísta, mas a um combate vigoroso, de paz, de amor e de serviço. É este "bom combate" que evitará muitos outros que trazem a morte, que queremos continuar a combater, para giória de Deus, por Jesus Cristo, nosso Senhor. "A Ele a honra e o poder eterno. Amen".

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