27 de Outubro de 2013 - Domingo XXX do Tempo Comum

O fariseu e o publicano

1. O fariseu inicia a sua oração com as palavras "Ó Deus, eu vos dou graças". Este começo é irrepreensível, pois a acção de graças é uma parte essencial da oração. Infelizmente, sob o pretexto de exprimir a Deus o seu reconhecimento, o fariseu faz o seu elogio pessoal nos termos mais audaciosos:

"Buscai nas palavras dele o que ele quis pedir a Deus; não quis orar, mas louvar-se" (Santo Agostinho, Sermão 115).

A oração do fariseu mais parece o discurso de um credor que deseja relembrar os seus direitos a quem lhe deve. Entretanto, tais disposições não eram raras no mundo farisaico. A oração que o rabi Nechunla ben Hakana costumava fazer ao sair de suas aulas mostra bem este espírito:


"Eu vos dou graças. Senhor meu Deus, porque a minha parte me foi destinada entre aqueles que visitam a casa do conhecimento, e não entre aqueles que trabalham nos cantos das ruas; pois me levanto cedo e eles se levantam cedo: desde a aurora eu me dedico às palavras da lei, mas etes se aplicam a coisas vãs: eu trabalho e eles trabalham: eu trabalho e recebo uma recompensa, eles trabalham e não recebem nada; eu corro e eles correm: eu corro para a vida eterna, mas estes correm em direcção ao abismo" (Berachoth. f. 28. 2).

"E o publicano, estando de pé à distância, não ousava sequer levantar os olhos ao céu, mas batia no peito dizendo: Ó Deus, tende piedade de mim pecador!" (Lucas 18, 13).

Contraste admirável! Temos aqui o desenho de uma humildade perfeita manifestada por muitas coisas.

Primeiramente, na escolha do lugar: "estando de pé à distância". Ele está longe do santuário, perto do qual, ao contrário, se encontra o fariseu. Depois, na atitude: "não ousava sequer levantar os olhos ao céu". O seu sentimento de miséria era tão vivo que ele não fazia nem mesmo um acto tão natural naqueles que oram: elevar os olhos aos céus. Além disso, "batia no peito", como um verdadeiro penitente. Mas é, sobretudo, nas suas palavras que vemos a diferença em relação aofariseu. A sua oração é profunda, e sai de um coração contrito e humilhado: "Ó Deus, tende piedade de mim pecador!".

Nosso Senhor, conforme a versão grega original, coloca na boca do publicano palavras mais fortes do que aquelas que chegaram até nós pelas nossas traduções: "Eu, o pecador por excelência !" .

É dizer muito com poucas palavras. De facto, fala muito diante de Deus quem se reconhece como pecador. "Eu vos digo: este desceu para sua casa Justificado, e o outro não; pois quem se exalta será humilhado e quem se humilha será exaltado" (Lucas 18,14).

2. Nosso Senhor afirma cheio de majestade: "Eu vos digo", isto é, afirmo isto porque eu o sei. São palavras cheias de peso na boca de quem é Deus e conhece perfeitamente o mais profundo das almas.

O publicano voltará para sua casa puro de todo pecado, tendo sido justificado, completamente justificado, conforme a expressão usada por Nosso Senhor. A sua oração humilde ultrapassou as nuvens, a sua contrição foi um sacrifício de agradável odor a Deus, que lhe concedeu perdão.

O fariseu também deixou o templo, sem dúvida acreditando ter dado muita honra a Deus e tendo ganho maiores méritos. Mas como as palavras de Nosso Senhor, que é Deus, são terríveis em relação a ele: "o outro não"!

Santo Agostinho escreveu belas páginas a respeito desta parábola:

"O publicano não ousava levantar os olhos aos céus. Porque ele não olhava o céu? Porque ele se olhava a si mesmo. E eis que, examinando-se a si mesmo, começou a ter desgosto e foi assim que ele agradou a Deus.

Tu, ao contrário, tu elevas-te, tu elevas a cabeça. Ora, o Senhor diz ao orgulhoso: Tu não queres olhar a tua miséria? Pois bem, eu a olharei! Tu queres que eu desvie meus olhos dela? Então, não desvie os teus.

O publicano não ousa levantar os olhos aos céus: ele examina-se, acusa-se a si mesmo. Ele faz de si mesmo seu próprio Juiz, e Deus defende sua causa. Ele pune-se, e Deus faz-lhe misericórdia. Ele acusa-se, e Deus defende-o. Deus defende-o tão bem, que seu juízo foi: O publicano desceu para sua casa justificado, e o outro não; pois quem quer que se exalte será humilhado e quem quer que se humilhe será exaltado. Ele examinou a sua consciência, diz o Senhor, e Eu, Eu não quis examiná-la. Eu o ouvi clamar em minha direcção: Desviai os olhos de meus pecados! (Salmo 50, 11). Mas quem pode pronunciar tais palavras, a não ser aquele que diz também: Eu reconheço a minha falta (Salmo 50, 5)?

Quanto ao fariseu, ele também, meus irmãos, era um pecador. Ele podia dizer: Eu não sou como o resto dos homens, desonestos, ladrões, adúlteros; ele podia jejuar duas vezes por semana e dar o dízimo de seus lucros, mas ele não deixava de ser um pecador. E mesmo que ele não tivesse um só pecado na sua consciência, o seu orgulho teria bastado para acusá-lo. E, entretanto, ele ousava falar deste modo!...

Mas então, quem é sem pecado? Quem poderá gloriar-se de ter um coração puro, ou de ser Inocente de toda falta (provérbios 20, 9)? Este não o era, é verdade; mas, no seu erro, ele não sabia o que tinha ido fazer ao templo. Ele encontrava-se na casa do médico, como que para se curar e, dissimulando suas chagas, apresentava os membros que estavam sadios...

Deixa, então, o Senhor cobrir as tuas chagas: não o faças tu mesmo. Pois, se tu tens vergonha de mostrá-las, o médico não as curará. Que Ele as cubra com um bom remédio e as cure. A chaga que o médico cobre será curada. Mas se o doente quer cobri-las por si mesmo, a única coisa que conseguirá fazer é escondê-la. E de quem ele a esconde? D'Aquele que tudo conhece" (Santo Agostinho, Comentário aos Salmos, 2°. Comentário ao Salmo 31.) .

"Pois todo o que se exaltar será humilhado, e quem se humilhar será exaltado." (Lucas 18,14).

3. Jesus conclui a parábola com este grande princípio moral, o qual aparece também noutras ocasiões: quando Nosso Senhor observa que alguns convidados escolhiam os primeiros lugares (Lucas 14, 11) e ao repreender os escribas e fariseus (Mateus 23, 12).

Esta insistência quanto à humildade é mais um sinal de quanto ela é importante aos olhos de Deus. Pois quando Deus, na Sagrada Escritura, insiste muito a respeito de algo, é porque é coisa de grande importância. É o caso da esmola, da penitência e também da humildade.

Mário Silva Martins

Blog  Ad te levavi
Arquivo