10 de Novembro de 2013 - XXXII Domingo do Tempo Comum

No Céu não existe o casamento.
Mas na Terra sim...

1. 0s saduceus inventaram uma história muito complicada, que Jesus esclareceu com a sua divina sabedoria (Lucas 20, 27-38), mas o princípio legal a que se referem, a "lei do levirato" (cf. Deuteronómio 25, 5-6), tem pelo menos uma aplicação muito feliz na Sagrada Escritura.

É a encantadora história que lemos no livro de Rute: um rico proprietário hebreu, chamado Booz, desposa Rute, a moabita, para dar descendência ao sogro desta, seu parente.


Julius Schnorr von Carrosfeld, Rute e Booz (1825)

Recordemos como tudo aconteceu. Houve um casal de Belém, que. num tempo de grande carestia e de fome, emigrou para um país vizinho. as "terras de Moab" (uma região montanhosa no que é actualmente a Jordânia). O marido chamava-se Elimelec e a mulher Noemi. Foram com os seus dois filhos, Malom e Quiliom, que entretanto se casaram com mulheres moabitas, Orpa e Rute.

Mas sobreveio a desgraça a esta família; primeiro morre o pai e depois morrem os dois filhos. As três mulheres ficam viúvas e sem filhos, não havendo descendência para Elimelec. Entretanto, Noemi soube que Deus tinha voltado a olhar para Israel. dando pão ao seu povo, e decide retomar à sua terra natal, Judá. As noras põem-se a caminho com ela. Mas Noemi insiste em que fiquem em Moab, pedindo a benevolência de Deus para dar um marido a cada uma de entre os homens do seu povo. De facto, Orpa volta "ao seu povo e aos seus deuses", mas Rute, sincera e firme na sua fé no único Deus verdadeiro. fica com Noemi, e com ela entra em Belém.

Aqui, como não tinha outro trabalho, para se sustentar a si mesma e à sogra, Rute vai respigar nos campos de cevada atrás dos ceifeiros, conquistando, com os seus encantos e as suas virtudes, a afeição de Booz rico proprietário, parente do seu sogro.

Por conselho da sogra, que pensa em casá-la com Booz, Rute passa uma noite junto deste, na eira da sua propriedade, e aproveita a ocasião para lhe recordar o dever de suscitar descendência ao seu falecido parente, Elimelec, tomando-a como esposa (uma vez que Noemi já tinha passado a idade de ter filhos).

O convite de Rute agrada a Booz, mas há outro parente com direito de precedência. Superado o obstáculo pela desistência deste parente, Booz desposa Rute. e esta dá-lhe um filho, chamado Obed, que será pai de Isaí (ou Jessé), o qual, por sua vez, será pai do grande rei David, de cuja descendência, segundo a lei, através de S. José, nasceu o Messias prometido, o próprio Jesus, Filho de Deus feito homem.

2. É principalmente por estas duas razões que o casamento é tão importante na sociedade: pela união do casal e pelo dom dos filhos que poderão ser gerados nessa união. É verdade Que há casais que (já) têm filhos e (ainda) não são casados. Trata-se de uma situação imperfeita, a vários títulos, que, quase todos, mais cedo ou mais tarde, procuram resolver. Se são cristãos e não estão casados, não são sinal da união de Cristo com a Igreja. E, se não são cristãos. falta-lhes o sinal do vínculo ou compromisso, que, mesmo sendo imperfeito, é importante para a sociedade a que pertencem.

O homem e a mulher, a partir da sua união como casal, em que se dão totalmente um ao outro, podem ser pais, gerar novas vidas de seres humanos, chamados a serem filhos de Deus e a irem para o Céu um dia. E estas duas dimensões, mesmo quando a segunda, contra a vontade do casal, não se vem a realizar, dão ao casamento a sua extraordinária importância na sociedade e na Igreja.

Como ensina Jesus, no Céu não existe o casamento, porque já não há morte, não é preciso gerar novas vidas, viveremos todos como irmãos e irmãs, na imensa felicidade de contemplar a glória de Deus.

Mas na Terra sim, existe o casamento, que é compromisso e aliança do homem e da mulher, aberto ao dom dos filhos, que trazem sempre nova esperança e alegria a este mundo.

Também já hoje alguns homens e mulheres são chamados por Deus a uma entrega total, e por isso renunciam ao casamento, e outros, por circunstâncias concretas da vida, também não se casam, e abraçam essa condição com sentido sobrenatural.

Os que são chamados ao casamento podem chegar lá por muitos caminhos e no termo de muitas e variadas etapas, algumas cheias de acidentes, mas está provado que as melhores são as seguintes: pureza e castidade no namoro: busca de uma total sintonia interior: diálogo sincero e contínuo; "fidelidade absoluta, que prepara o compromisso definitivo; oração pessoal intensa; comunhão e confissão frequentes.

3. E quanto ao dom dos filhos, e ao exercício da "paternidade responsável" (segundo a expressão de Paulo VI na encíclica Humanae Vitae), habitualmente referido como "planeamento familiar", verifica-se que são poucos os católicos que conhecem o que a Igreja propõe. A Igreja defende o uso dos métodos naturais para o planeamento familiar. (Veja-se o Catecismo da Igreja Católica, n. 2370).0 planeamento familiar é uma das áreas que o documento preparatório do Sínodo sobre a Família propõe reflectir. O ponto 7 do inquérito pergunta se os cristãos conhecem a encíclica Humanae Vitae sobre a regulação da natalidade, se aceitam a doutrina moral que aí é proposta e que informação lhes é transmitida pela própria Igreja.

Nos Cursos de Noivos de Santa Maria de Belém, os casais que dão este tema, transmitem o seu testemunho do modo como vivem esta realidade, e da enorme graça que estes métodos podem representar na vida de um casal.

Por isso, só posso corroborar a expectativa confiante de Mary Anne d'Avillez que, "espera que a Igreja portuguesa saiba aproveitar a oportunidade deste inquérito para mudar alguns procedimentos. Por exemplo, incluir o tema do planeamento familiar e dos métodos naturais de controlo da fertilidade nos cursos de preparação para o matrimónio".

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