29 de Dezembro de 2013 - Festa da Sagrada Família de Jesus, Maria e José

Do Egipto a Nazaré

1. Para nos ajudar a ler o Evangelho de hoje, que nos relata a fuga para o Egipto e o posterior regresso da Sagrada Família. proponho-vos dois textos: um do Beato João Paulo II e outro de Santo Afonso Maria de Liguori (1696-1787), bispo e Doutor da Igreja.

O primeiro é retirado da Exortação Apostólica Redemptoris Custos (O guarda do Redentor), dedicada a S. José:

A seguir à apresentação no templo, o evangelista São Lucas anotou: «Depois de terem cumprido tudo segundo a lei do Senhor, voltaram para a Galileia, para a sua cidade de Nazaré. Entretanto, o menino crescia e robustecia-se, cheio de sabedoria, e a graça de Deus estava com ele» (Lc 2,39-40).


Mas, segundo o texto de São Mateus, ainda antes deste retorno à Galileia, tem de ser colocado um acontecimento muito importante, para o qual a Providência divina de novo recorre a S. José. Aí lemos: "Depois de eles (os Magos) partirem, eis que um anjo do Senhor apareceu, em sonho, a José e disse-lhe: "Levanta-te, toma o menino e sua mãe e foge para o Egipto e fica lá até eu te avisar, porque Herodes está a procurar o menino para o matar." (Mt 2.13).

Por ocasião da vinda dos Magos do Oriente, Herodes tinha sabido do nascimento do "rei dos Judeus" (Mt 2, 2). E quando os Magos partiram. ele mandou "matar todos os meninos que havia em Belém e em todo o seu território, da idade de dois anos para baixo" (Mt 2, 16). Deste modo, matando todas as crianças, queria matar aquele recém-nascido "rei dos Judeus", de quem chegara ao conhecimen durante a visita dos Magos à sua corte. Então José, tendo recebido o aviso em sonho, "de noite tomou o menino e sua mãe e retirou-se para o Egipto, onde ficou até à morte de Herodes, para cumprir o que o Senhor tinha anunciado por meio do profeta: "Do Egipto chamei o meu Filho." (Mt 14-15; cf. Os 11,1).

Deste modo, o caminho do regresso de Jesus de Belém a Nazaré passou pelo Egipto. Assim como Israel tinha tomado o caminho do êxodo "da condição de escravidão" para iniciar a Antiga Aliança, assim José, depositário e cooperador do mistério providencial de Deus, também no exílio vela por Aquele que vai tornar realidade a Nova Aliança.

(João Paulo II, Exortação Apostólica Redemptoris Custos, sobre a figura e a missão de S. José na vida de Cristo e da Igreja, 15 de Agosto de 1989, n.14).

2. Mas voltemos ainda à fuga, que implicou que a pequena família de Maria, Jesus e José seguisse uma via de Belém ao Egipto, provavelmente percorrendo um caminho secundário, para se esquivar às buscas de Herodes. Foi uma viagem de pelo menos uma semana. sobre o dorso de um burrinho e com algumas provisões, e talvez algumas ferramentas, (como sugere Santo Afonso Maria de Liguori), e que S. José levaria, para assegurar um trabalho futuro.

Os Evangelhos não nos dão pormenores sobre os tempos e os lugares da deslocação, que deve ter ocorrido alguns meses depois do nascimento de Jesus e da partida dos magos. Assim pelo menos se comemora na liturgia copta, (a liturgia do rito próprio dos cristãos do Egipto), por ocasião da Festa da Entrada de Nosso Senhor no Egipto, celebrada no dia 24 do mês de Bashans do calendário capta, (que corresponde ao dia 1 de Junho do nosso calendário), e em que se canta: "Rejubila e alegra-te, ó Egipto, com todos os teus filhos porque veio a ti Aquele que existia antes de todos os séculos".

Os acontecimentos durante a viagem pelo deserto não nos foram relatados, só existem piedosas e graciosas lendas, descritas com imagens poéticas, pelos apócrifos.

Quanto ao lugar onde a Sagrada Família viveu no Egipto, também não é possível precisá-lo. Mas é provável que se tenham alojado num dos bairros hebreus existentes em alguma cidade próxima da fronteira oriental do Egipto. Aqui, com a solidariedade de seus compatriotas. S. José encontrou um lugar para se instalar com a sua familia, e deu início à nova vida em terra estrangeira, sem chamar a atenção dos israelitas que ali viviam.

Até que o tempo foi passando, e o exilio determinado pela Providência chegava ao fim. Após a morte Herodes. S. José. obedecendo prontamente à ordem do anjo, retomou o caminho do regresso "à terra Israel". Assim se canta numa antiga antífona, que cita literalmente Mateus 2,20: "Tolle Puerum, et Matrem ejus, et vade in terram Israel: defuncti sunt enim, qui quaerebant animam Pueri" - "Toma o Menino e Mãe e vai para a terra de Israel, porque morreram os que atentavam contra a vida do Menino". Teria passado cerca de um ano...

E no entanto, os planos que S. José teria de regressar a Belém, tiveram que ser alterados. Deus fixou de novo os rumos da sua vida, comunicando-lhe que se dirigisse directamente a Nazaré, evitando assim qualquer risco de vida para o Menino, decorrente da subida ao poder do sucessor de Herodes, Arquelau.

3. Mas isso teve pelo menos uma vantagem: os primeiros anos da vida de Jesus haviam sido cheios de intranquilidade. Agora, na pacata Nazaré, rodeado pelo seu ambiente familiar, Jesus poderia viver mais sossegado, até chegar a hora de iniciar a sua vida pública e consumar a obra da redenção, pela sua pregação, pelos seus milagres e pela sua morte na cruz.

A cruz está anunciada, mas ainda vem longe... Agora é o tempo de olhar para o Menino! Por isso, gostaria de terminar com a emotiva oração composta por Santo Afonso Maria de Liguori, que retira da meditação do episódio da fuga para o Egipto firmes propósitos de ficar firmemente preso ao amor de Jesus Cristo:

Meu bem-amado Jesus, Tu és o Rei do Céu, e vejo-Te errar como fugitivo sob a aparência de uma criança. Que procuras? Diz-me. A Tua pobreza e o Teu abaixamento emocionam-me de compaixão; mas aquilo que me aflige mais é a negra ingratidão com que Te vejo tratado por aqueles que vieste salvar. Tu choras, e também eu choro, por ter sido um daqueles que Te desprezaram e Te perseguiram; a partir de agora, porém, preferirei a Tua graça a todos os reinos do mundo.

Perdoa-me todos os ultrajes que Te fiz; permite-me que, na viagem desta vida para a eternidade, Te leve no meu coração, a exemplo de Maria, que Te levou nos seus braços durante a fuga para o Egipto. Meu Redentor bem-amado, foram muitas as vezes em que Te expulsei da minha alma, mas tenho confiança, agora que voltaste a tomar conta dela. E suplico-Te que a prendas a ti pelas doces correntes do Teu amor.

(Santo Afonso Maria de Liguori, Meditações sobre a Oitava da Epifania, 3, Paris, Ed. Saint-Paul, 1993, p. 309)

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